Quando Dago chutava (por Paulo-Roberto Andel)

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Era batata: mal saía da aula de Álgebra Linear ou de Probabilidades, eu descia a São Francisco Xavier até a esquina com Santa Luiza, esperava o 435, descia até a entrada do Santa Bárbara – sonhando com os velhos letreiros de Crush e Pepsi dos anos 1970, já removidos dali -, atravessava o túnel do tempo e saltava na Pinheiro Machado. Das duas, uma: ou em frente ao portão do Fluminense ou no ponto seguinte, em frente à Santa Úrsula. No primeiro caso, entrava direto nas arquibancadas tricolores, preferindo sempre subir a escada estreitíssima e encarar a super vertigem no andar de cima, ficando ou atrás do gol ou bem perto da rua principal. No segundo, encontrava meu velho amigo Jorge Pinto no Gordon da USU, lanchava e aí vínhamos para o estádio. Podia ser para ver um coletivo, um treino tático, um de cobranças de faltas e pênaltis ou mesmo nada: apenas ficar espiando o gramado em meio a um silêncio de paz. Com Jorge, sem Jorge, com outros amigos ou mesmo sozinho, fiz isso dezenas de dezenas de vezes. Gostava tanto das Laranjeiras que até fui assistir dois jogos do Botafogo por lá, apenas para me sentir em casa, no estádio do meu time.

Era um tempo de transição. Aos poucos, o Flu foi desfazendo todo o grande time tricampeão dos anos 1980. Depois da legendária gestão Schwartz, estavam fincados os tempos de Fábio Egypto, que abririam o maior tempo sem títulos da história do nosso time na era do profissionalismo – ainda que, ao contrário de certo senso comum, esta época nem de longe tenha significado vergonha para o Flu: disputamos vários títulos e só perdemos pelo menos três deles por interferências diretas das arbitragens. De toda forma, não foi nada fácil.

É claro que eu não gostava nem um pouco da dilapidação do nosso elenco. Ninguém gostava. No entanto, nossos compromissos históricos com o Flu não sofriam qualquer mudança. Torcíamos para as coisas darem certo. Queríamos estar perto do Flu, caminhar com ele. Para um garoto pobre de vinte anos, a relação com o clube passava por isso tudo e pela vivência das arquibancadas: ser sócio exigia uma bela grana.

A torcida protestava com razão e muito, mas isso nunca significou ir contra o Fluminense, ainda mais se o caso fosse de meras ambições pessoais. Claro, os tempos eram outros, super outros. Não havia internet nem espones (os famosos especialistas de porra nenhuma) a latir em evidente causa própria. A imprensa não tinha contraditório. Por tudo isso, talvez a torcida fosse mais presente e atuante, talvez o Flu fosse mais empolgante – ainda que em certa draga. E com certeza, mesmo.com todos os problemas, era mais divertido. Fui feliz, mesmo sem títulos, tão essenciais à lida tricolor.

Trinta anos depois, aqueles tempos ainda são a minha principal reserva de oxigênio para seguir em frente. Reviver sentimentos e crenças tem sido fundamental para navegar na atmosfera tricolor. Conversar com amigos queridos, ler as coisas que realmente valem a pena, procurar a essência do Fluminense – que, definitivamente, mora muito longe da internet que cerca o clube. Aqueles tempos de luta foram fundamentais para encarar todos os infernos e navegar em todos os céus que vieram a seguir.

Infelizmente ninguém é jovem para sempre. Queria ter tempo, tempo. Não dá mais para passar as tardes nas Laranjeiras, sonhando com vitórias ou torcendo para que as cobranças de falta de Dago não matassem ninguém. Ser adulto é difícil. Tomara que ao menos tenhamos jogos em nossa eterna casa.

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Política do Fluminense: de saco cheio. Exceto as conversas com amigos de confiança, mais o reconhecimento das lutas de vários por lá, não consigo mais acreditar em mudanças significativas para melhor, não somente da atual gestão mas também de toda a dita oposição – que até outro dia foi situação por anos, ou anos e anos, conforme o caso. Se tivesse uma eleição hoje, nenhum dos pré-candidatos teria meu voto, e alguns nunca terão mesmo nem que morram e nasçam de novo. O sistema é torto.

Quem tinha que ser fortalecido não é; quem não tinha que ser, é. O problema não é de nomes, mas de mentalidade tacanha, preconceitos, chavões ocos. Renovar de verdade.

Se fosse milionário e louco, eu mesmo me candidataria ou bancaria a candidatura de gente de confiança. A primeira providência seria chamar todos, todos mesmo, à távola redonda: “Escuta aqui, vai jogar a favor do Fluminense ou das suas vantagens pessoais, ou ainda da sua patota? Sendo a primeira opção, em que você pode colaborar? No que você vai ajudar? Se não for a primeira, vá com Deus ou com o diabo que te carregue”. Sem rodeios.

Uma pena que a vida real seja muito longe disso em todos os sentidos. Mas por enquanto é muito melhor ser pobre e mentalmente saudável.

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Bebeto de Freitas foi um monstro. Tudo que pudesse ser escrito aqui, seria pouco. Foi embora num rompante, bem de acordo com sua personalidade admirável. Um cracaço.

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Hawking rules!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

2 Comments

  1. Na época o Flu tinha Tato e Paulinho pro ataque no lado esquerdo, os chamados antigamente de ponta esquerda, devido a contusão, ou suspensão por cartão ou algo assim, o Flu buscou um jovem Walbert, também atacante pela esquerda, no sub-20 o menino ficou no banco num jogo entrou no segundo tempo e marcou um gol, ajudando o time, foi titular e marcou no segundo jogo, acabou trocado por Dago, que nunca se firmou e não mostrou nada e perdemos uma joia que depois sumiu lá no Paraná…

  2. Pois é, desde àquela época, não se aproveita de forma equilibrada os talentos do sub-20

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