Perdidos no espaço (por Paulo-Roberto Andel)

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Folga para o time nesta segunda-feira, dor de cabeça para a torcida.

Não é de hoje, nem ontem. Estamos parados no tempo desde aquele maravilhoso 3 a 2 sobre o Palmeiras, o jogo do tetracampeonato brasileiro em 2012. Ou melhor, perdidos no espaço.

Se pensarmos bem mesmo, de lá para cá ficamos reduzidos aos lampejos iniciais da era Cristóvão, meio de 2014, quando o Fluminense apresentou um ótimo futebol. Até na derrota para o Vitória tivemos 50 mil torcedores aplaudindo. A torcida reconhece quando um insucesso acontece de forma injusta.

A partir de então, ilusões em pequenos nacos. E qualquer brilhareco passou a ser tratado como a descoberta de um novo continente.

As lições de 2013 definitivamente não foram aprendidas – leia-se diretoria, jogadores, comissão técnica e todo o Estado-Maior. Não se pode esquecer da sigla PGFN e nem colocar todas as tulipas de chope em sua conta. O silêncio tricolor diante do linchamento moral do Clube e da torcida nos meios de comunicação e nas ruas foi, no mínimo, constrangedor, mas felizmente não seguido por este PANORAMA mais os sites e blogs irmãos.

Lá, ainda havia a opulência da investidora, refletida na personalidade de seu líder. Então, a resposta ao quase rebaixamento foi a volta do eterno ídolo – e promessa de técnico – Renato Gaúcho. E de uma temporada capaz de reabilitar o nome manchado em 2013. Mas ninguém passa imune diante de um sacode aplicado pelo modestíssimo Horizonte do Ceará.

Depois do belo início (mesmo), Cristóvão e o time se perderam por motivos inexplicáveis ou impublicáveis. Dois momentos explicam boa parte da trilha: 2 a 5 para o… América de Natal e 1 a 4 para a… Chapecoense. O time patinando no campo, a briga política acirrada como nunca, confusões a granel. A temporada 2014 fechou com o adeus da Unimed, uma rápida substituição na camisa (ponto positivo), a dispensa de alguns jogadores importantes e a promessa de uma mescla com revelações da base, revelações desconhecidas via scout (a conferir) e a manutenção da espinha dorsal do Flu, com contratos alongados e salários generosos. Apesar do descrédito, Cristóvão teve o contrato renovado com a promessa de longo prazo para mostrar seu trabalho

Chegou 2015 e a pré-temporada foi marcada nos EUA, num torneio internacional. O fracasso dos resultados, a ausência de Fred e a saída de Conca foram golpes duros. Veio um Carioca opaco e, depois de uma única boa exibição de verdade até aqui, 3 a 1 sobre o Botafogo, o longo prazo de Cristóvão virou demissão, para uma surpreendente substituição por Ricardo Drubscky, que pode ser ótima pessoa e profissional, mas veio para o Flu com um currículo esquelético.

A enorme comemoração da vitória sobre o… Madureira na Taça Guanabara… logo virou decepção na eliminação diante do Alvinegro pelas semifinais, nos tiros penais, depois de jogar quase o segundo tempo com o adversário tendo quatro jogadores contundidos – sem colocar a conta no segundo gol botafoguense, marcado irregularmente. O tribunal garfou Fred, mas um time como o Fluminense não pode limitar sua condição de postulante a títulos por causa de um único jogador. A partida tirada do Maracanã foi motivo de indignação – já tinha sido no jogo contra o Vasco.

Dando sequência à contradição do planejamento anunciado em dezembro (jovens valores, promessas da base e a espinha dorsal formada), jogadores experientes foram contratados: Pierre, Antonio Carlos e Magno Alves. É claro que foram bem vindos e espera-se que funcionem muito bem, mas o planejamento não vingou e foi alterado.

Duas semanas de intertemporada, preparação e uma partida opaca diante do provável time mais fraco do Brasileiro. Atenuantes: difícil jogar o tempo todo com um time no esquema 1-10-0 e o Flu atacou bem, ao menos o primeiro tempo. Mais uma semana e uma atuação desastrosa diante do Atlético Mineiro, que poderia ter terminado de forma muito pior do que a goleada por 4 a 1. E com a repetição de um problema crônico nas últimas três temporadas: vários momentos de apatia.

Com tudo isso, o descontentamento de parcela significativa da torcida e dos sócios é uma evidência por N motivos –  e precisaria de outras colunas com bastante espaço e profundidade. De toda forma, o futebol é o carro-chefe, uma espécie de farol para iluminar os caminhos do Fluminense. E ele está com as pilhas avariadas.

Em defesa da gestão tricolor, é costume propalar a austeridade fiscal reinante nas Laranjeiras. No entanto, a mesma é questionada publicamente por diversos opositores, com base em suspeitas de custo excessivo da folha funcional do Clube (em desencontro com o péssimo atendimento aos sócios em diversos serviços), afora o descompasso na manutenção da sede.

Austeridade fiscal passou a ser obrigação de qualquer grupo que pretenda um dia dirigir o Fluminense. Não há outra opção. Trata-se de um item importantíssimo na causa, mas nem de longe pode ser o único.

O momento atual inspira cuidados. Primeiro é lotar o Maracanã na partida do próximo domingo contra o Corinthians, facilitando a vida dos sócios e torcedores na compra, para que o apoio das arquibancadas ajude a empurrar um time com problemas crônicos evidentes. Um mau resultado neste jogo pode ser um desastre para a continuação do campeonato. E que a torcida entenda que empurrar é obrigação nas horas difíceis – nas fáceis, todo mundo vem.

Depois de falhar gravemente em 1996, 1997 e 1998, além de quase desabar em 2003, 2006, 2008, 2009 e 2013, o Fluminense não tem mais o direito à incompetência plena. Desnecessário dizer de bravatas, fanfarronices e o câncer de qualquer clube de futebol no mundo: a autossuficiência.

Que prevaleçam a humildade, a reflexão e a autocrítica em prol do bem comum – leia-se Fluminense, que deve estar acima de quaisquer vaidades pessoais.

Ainda há tempo para voltar à órbita, mas não tanto quanto certa ingenuidade sugere. Alguns preferem dizer que só se passaram duas rodadas deste Brasileiro. A prudência recomenda dizer que só faltam vinte e oito, porque nenhum tricolor merece as últimas oito debaixo da guilhotina da agonia.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: pra/fb/guis saint-martin

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5 Comments

  1. Andel:Já comentei com o Vivone e ele não respondeu. Depois da vexatória derrota de ontem, para esfriar a cabeça, assisti a vitória biro e da Ponte preta com o poderoso São Paulo e gostei do Biro
    biro e o Renato Cajá, que lembra muito o Conca, principamente nas cobranças de falta, basta dizer
    que ele fez um golaço em cada jogo, todos de fora da área, na gaveta. Que você acha de trazer o
    Biro de volta e contratar o Cajá, que eu acho que resolveria nosso problkema do meio pra frente.

    1. Andel: Oi, Carlos. O Vivone certamente vai te responder. Eu também vi Ponte x SP. Concordo integralmente com seus comentários sobre Cajá e Biro-Biro. A Ponte é arrumadíssima e engoliu o SP. Sobre o Cajá, desconfio que ainda não esteja nos times de ponta simplesmente por não ter o agente certo. Cairia bem no Flu. O Biro fica para o ano que vem, uma pena. Brax.

  2. O Biro-biro não teve oportunidade com o Cristovão, uma pena, principalmente depois que ele acabou com um Fla x Flu dos Juniores. Para mim, jogadores como; Gum(por mais dedicado que seja), jean, wagner e os contratados no ínicio do ano, podem colocar o Flu em perigo neste brasileiro.

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