Para não dizer que não falei de flores (por João Leonardo Medeiros)

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Há bastante tempo não escrevo uma coluna leve, otimista, ufanista a respeito do Fluminense. Considerei que a possibilidade de uma tragédia a se consumar ainda em 2015 exigia uma atitude crítica veemente e assim dei tom cinzento aos meus textos. Alguns leitores e amigos reclamaram do mau humor, mas creio que, no fundo, a maior parte concordava com o teor das colunas, talvez discordando apenas do timing em que foram escritas e publicadas.

No post scriptum da última coluna, havia prometido mudar o tom assim que o Fluminense chegasse aos 46 pontos no Brasileiro, afastando de vez o risco de rebaixamento. A incompetência alheia adiantou o serviço: hoje, com 43 pontos e 13 vitórias, podemos cravar que ano que vem é ano de série A, sem mais sustos. Poderia, portanto, já colocar na ordem-do-dia o planejamento do próximo ano, tema que traria mais críticas, mas creio que seja justo cumprir a promessa. Falemos de coisas boas.

Em novembro do ano passado, ainda não sabíamos que a Unimed finalmente largaria o osso do Flu. Era uma possibilidade, mas não uma certeza. Conca ainda era a estrela maior do elenco e havia uma massa de tricolores com pé atrás com Fred. Xerém era nossa eterna promessa de dias melhores jamais realizados, o CT um sonho improvável. O cenário era melhor para o presente do que para o futuro e isso assustava muitos tricolores, dentre os quais me incluo.

Corte rápido, como nos filmes de ação. Estamos em novembro de 2015. O temor pela saída da Unimed demonstrou-se injustificado. Mesmo contando com um patrocinador master bastante furreco (além de, segundo a imprensa, atrasar suas prestações com o clube, ainda temos que aturar uma entrevista na qual seu presidente confessa ter sido torturador na ditadura), o Fluminense demonstrou e demonstra força nas finanças. O ano em que o Fluminense acabaria chegará ao fim sem conquistas, é verdade, mas também chegará ao fim sem maiores dramas.

Conca se foi de maneira horrorosa. Desde sua saída, parece que Fred finalmente entendeu a alma tricolor. Sempre gostei do jogador Fred, sempre me impressionei com sua capacidade de decidir. Mas confesso que não via em Fred a sombra de Castilho ou de Preguinho. Já tinha visto em Conca, para fazer um contraste, no sacrifício do final de 2010. Creio que muitos tricolores pensavam o mesmo há um ano. As dúvidas sobre Fred foram sendo dissipadas dia a dia, mês a mês, ao longo de todo ano, até que as lágrimas da partida derradeira (para a gente) na Copa do Brasil nos revelaram o Fred que todos queríamos ver: o Fred encarnado com a alma tricolor.

Nossos ídolos não são ídolos por serem mais vitoriosos, não contamos idolatria por título. Nossos ídolos são ídolos porque representam a alma do clube, uma alma nobre, mas sacrificada, tão feliz quanto doída, capaz de emocionar na alegria e na tristeza. Nossos heróis são mais para Castilho, Ézio, Marcão e Conca do que para os vitoriosos robóticos que infestam hoje o futebol mundial. Fred entrou nessa galeria com as lágrimas daquela fatídica quarta-feira. Não conheço hoje um único tricolor que não reconheça seu lugar na história do clube.

Quem tem dúvidas hoje de que Xerém é nosso trem pagador, a base do nosso time, a base do futuro do time, a melhor imagem que temos a oferecer? Ao longo do ano, revelamos Gerson, Kenedy, Douglas, Leo e aperfeiçoamos Marlon. Recuperamos Marcos Jr., Gustavo Scarpa, Higor Leite e esperamos por Biro-Biro, Eduardo, Samuel, Denílson, entre muitos outros. Esses todos serão jogadores profissionais de bom nível, no Fluminense ou não. Queremos que seja no Flu e queremos que eles também queiram. Todos foram formados pelo clube, com muito sacrifício, com muito empenho. Pelo que sei de Xerém, colhemos relativamente pouco esse ano, ainda pressionados que estamos pelas contas vencendo em curto prazo. Mas colhemos mais do que antes e de modo tão impressionante que ninguém mais duvida que o Fluminense é primeiro Xerém e depois Laranjeiras.

A obra do CT está de vento em popa. A figura curiosíssima de nosso mecenas Pedro Antônio toca com força o projeto, naturalmente porque tem apoio de uma diretoria do clube que com justiça goza de sua confiança (porque é boa pagadora, cumpridora de seus deveres no plano fiscal, fato que independe de que gostemos ou não de seu gerenciamento do futebol).

Fica aqui minha sugestão: que o Fluminense convide Muricy Ramalho para inaugurar o CT. Ele falou do rato para desviar a atenção de sua saída por (mais) dinheiro, certo? Que se dane. O que ele disse tinha um fundo de verdade, o Fluminense precisava e precisa de mais estrutura e, acrescento, de um estádio próprio para 30 a 40 mil pagantes. Vamos mostrar para o cara o que fomos capazes de fazer em pouco tempo, dando espaço para ele reconhecer nosso sucesso diante da imprensa mundial. Muricy é campeão pelo clube e, ademais, era o filho dileto de Telê, que, por sua vez, é um dos pilares de nossa história vencedora.

Hoje, há futuro adiante. Não somos mais escravos do patrocinador. Não somos um clube que não pensa na sua estrutura. Não precisamos ser reféns de empresários, porque criamos material humano suficiente para dar uma banana a cada um deles. No passado distante, antes de nossa prolongada crise, se alguém descrevesse um clube poderoso como esse, todos no Brasil acertariam logo: trata-se do Fluminense. Tenho certeza: falta pouco tempo para coroar nossa recuperação como clube com conquistas do time. Vai acontecer em breve, podem me cobrar.

Quem ainda tem dúvidas da importância do que aconteceu esse ano em termos do clube, compare com o Vasco. Em novembro do ano passado, o Vasco voltava da série B e seu presidente atual vencia a eleição contra a chapa da situação, falando no retorno ao passado de glórias. O Vasco retornou ao passado, sem dúvida. Ao passado de 2013, ou de toda a década de 2010. Está mais para morto do que para vivo e só não foi enterrado ainda porque a Ferj funciona como CTI. Quanto a nós, posso dizer: nossas flores virão e elas não são de plástico. São flores vivas que, em contato com o Flu, não morrem.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: vandré

LANÇAMENTO O ESPIRITO DA COPA RJ

capa o fluminense que eu vivi lado b são paulo e brasilia

4 Comments

  1. Creio que há em cada cronista tricolor, um pouco ou muito do Nelson Rodrigues. Leio o panorama como quem toma remédio controlado. Todos os dias e com hora marcada. Parabéns a toda a equipe e, em particular, cada um dos cronistas.

    1. Temos todos de agradecer tamanha gentileza, Vera. É pensando em pessoas como você que cedemos parte de nosso dia para escrever sobre o Fluminense.

      Abraços cordiais,
      João

  2. Hola tricolores,
    Grande texto. Esperamos mesmo por um ano vindouro com as conquistas que merecemos. Também gosto da idéia relativa ao estádio.

  3. Confesso que depois da entrevista desse desastre, pra falar o mínimo, do atual patrocinador, não torço da mesma forma pelo Flu. Aguardo um pé na bunda do merdão pra voltar a ter orgulho de ser tricolor.

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