O exemplo de Ézio (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Quem tem acima de 35 anos atravessou a década de chumbo do futebol tricolor com plena consciência da tragédia que nos acometeu. A década de 1990 é a década de nossos lamentáveis rebaixamentos, uma década em que conquistamos apenas dois títulos, o estadual de 1995 e a série C de 1999, e chegamos a uma mísera final expressiva, a da Copa do Brasil de 1992, garfada pelo Inter. Trata-se de um período tristíssimo da história tricolor que, no entanto, não podemos deixar cair no esquecimento. Em lugar de apagar os anos 1990 da memória, temos de revivê-lo sempre, revisitá-lo, para não deixarmos que aconteça de novo.

Os 1990 de chumbo produziram raros ídolos: o sempre lembrado Renato, da efêmera barrigada de 1995, e, mais para o final da década, Marcão e Magnata – dois que estão até hoje honrando a camisa, um fora, outro dentro de campo. Com esforço, podemos lembrar de Aílton, Lira, Djair, Roger, Roni e outros com carinho, mas não como ídolos. Agora – e quem viveu a época pode confirmar – não há qualquer jogador tricolor que tenha se identificado tanto com o clube naqueles anos difíceis quanto Ézio. Perto dele, mesmo Renato, Magno ou Marcão são semideuses à época. No Olimpo tricolor dos 1990, durante os 1990, Zeus era Ézio.

O artilheiro chegou ao clube em 1991, vindo da Portuguesa de SP. A gente vivia então o auge da perseguição da FERJ do abominável Caixa D’água, que atingia nosso clube de diversas formas, desde a arbitragem até o arbitral. O clube também estava se esfacelando internamente, entregue a administrações temerárias, incapazes de fazer jus às necessidades de um gigante histórico do futebol brasileiro. Ademais, estávamos já perto de completar cinco anos sem qualquer conquista e com uma saudade imensa dos últimos remanescentes do timaço da década de 1980, Romerito e Washington (do Casal 20, claro), que deixaram o clube entre 1988 e 1989.

O cenário era improvável para o surgimento de um ídolo. Ézio, no entanto, não demorou muito para cair nas graças da torcida e do clube, não apenas por seus muitos gols (foram 118 em 236 jogos pelo Flu, entre 1991 e 1995), pela raça e dedicação em campo, por marcar em jogos importantes (foram 12 só no Flamengo, que fizeram dele o terceiro maior artilheiro do confronto até hoje), mas sobretudo pelo jeito simples, pela tranquilidade. Era um jovem daqueles que parecem ter em torno de si uma aura, um brilho próprio. Por fim, e acima de tudo, Ézio se apaixonou completamente pelo Fluminense e se deixou apaixonar por ele, assumiu sua bandeira, realmente vestiu a camisa como sua pele.

Não havia tricolor que fizesse um gol numa pelada no começo da década de 1990 e que não saísse para comemorar gritando: Superééééézio. Ézio foi ungido super-herói tricolor pelo inesquecível narrador Januário de Oliveira, que, neste caso, apenas reconheceu aquilo que era evidente. Tratava-se mesmo de um herói. Lembro de ter ido e saído do Maracanã diversas vezes usando minha bandeira como capa para representá-lo.

Ézio_Arquivo O Globo

Pois bem, no ano de 1995, ano do centenário do Flamengo, Ézio estava com um problema físico. Era o principal jogador tricolor, pois Renato havia recém-chegado depois de uma passagem horrorosa no Atlético Mineiro. Percebam isso: Ézio já era, no começo de 1995, um dos maiores artilheiros da história do Flu, era o jogador que mais jogos tinha com nossa camisa no elenco, referência do clube. Mas a verdade é que Ézio não estava bem, sequer conseguia atuar com regularidade e nunca mais voltaria a fazê-lo. Marcou apenas sete gols no campeonato, foi substituído em muitas partidas e em outras foi para o banco, muitas vezes preterido por um jovem desconhecido, Leonardo, que vinha marcando sempre que entrava (fez nove no total).

Quando se recorda o campeonato estadual de 1995, quase ninguém lembra que Ézio foi o companheiro de ataque de Renato em muitas ocasiões, embora não fosse exatamente mais titular absoluto. Ézio foi reserva, por exemplo, na partida final, o que certamente contribui para que o esquecimento de sua participação. Não me recordo de ter visto Ézio se queixar de ter sido preterido na partida final, de ter sido substituído várias vezes, de ter começado partidas na reserva ou mesmo do esquecimento público de sua presença naquele título histórico.

Nunca vi Ézio pegar o microfone para fazer desfeita com o Fluminense, com sua torcida, com os dirigentes péssimos com que lidou enquanto esteve no clube. Ézio fazia o que se espera de um ídolo: estava sempre à disposição, com todas as forças que ele conseguisse reunir, sempre em favor do Fluminense. Mesmo baleado, não fugia à responsabilidade e à eventual cobrança pela performance abaixo do possível. Quando saiu do clube em 1995, jamais demonstrou ingratidão ou raiva; justo o contrário, sempre que perguntado, declarava seu amor ao Tricolor.

Tenho lembrado muito de Ézio nos últimos tempos. Temos visto uma série de jovens vestir a camisa tricolor de modo absolutamente desinteressado. Se pudessem entrar em campo com celular, ficariam parados na lateral, dando uma olhadinha no Facebook ou gravando uma mensagem de voz no Whatsapp. Depois do jogo, consumado o desastre – e tem sido um atrás de outro –, os rapazes pegam o microfone mais próximo para dizer que a atitude tem de ser mudada, que precisa fechar o vestiário, blá, blá, blá. Uma balela insuportável, parecendo prefeito que reclama das ruas emporcalhadas da cidade que dirige. Falam como se não fosse com eles.

Nada pode ser alento para a morte precoce de Ézio. Nada justifica a interrupção da vida de alguém tão jovem, com tanta coisa a viver. Mas a morte pelo menos poupou ele de ver seu time maltratado por aqueles que, em campo, deveriam representá-lo. O referente do “representá-lo” aqui é o próprio Ézio e não o Fluminense, porque se todo mundo entrasse em campo com um comprometimento igual ao dele, a gente não perdia uma única partida. Infelizmente, não é todo dia que nasce um herói e que esse herói veste tricolor.

Leia também: Os 111 anos da Camisa Tricolor (por Rods) e A velha geral e Teixeira Heizer (por Paulo-Roberto Andel)

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Imagem: JLM / PRA e Arquivo O Globo

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