O deus Fluminense (por Crys Bruno)

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Era São João naquela noite de 24 de junho de 1995.  As fogueiras do coração de cada tricolor já estavam acesas à espera do Fla-Flu que decidiria o título estadual no dia seguinte.

O Flamengo era favoritaço. Seu então presidente, Kléber Leite, gastou milhões de reais, montando um elenco chamado de “SeleFla”.  O Fluminense… Para a maioria da imprensa, o Tricolor tinha conquistado já seu grande feito: chegar à final.  Dificilmente o Flamengo perderia para “aquele” Flu.

Perdeu. Em seu centenário e com o melhor jogador do mundo para a mídia nacional. Perdeu para o claudicante clube que, mesmo sendo o maior detentor de Cariocas, teve sua tradição menosprezada, tanto pela cegueira que o excesso dos holofotes rubro-negros provoca quanto pelo despeito histórico do jornalismo carioca pelo Fluminense.

Nas esferas espirituais, numa galáxia onde só  seres brilhantes habitam, vinte anos após aquele feito, o livro sobre aquela final fulgurante revela em suas páginas a disputa salutar entre Nelson Rodrigues e Mario Filho pela assinatura final daquele Fla-Flu.

Os irmãos lendários dialogaram por meia hora até que Nelson, o profeta tricolor, agarrou nas mãos a caneta do destino e escreveu em doze minutos, dois gols para o Fluminense, certo em honrar o mérito de um time que jogava com o coração na ponta da chuteira, já aniquilando a empáfia rubro-negra.

Fim do primeiro tempo. O Tricolor vencia por 2 a 0. A “SeleFla” cambaleava, incrédula. Seus jogadores saíam no intervalo com olhos arregalados, estupefatos. Seus torcedores balançavam negativamente a cabeça e angustiados, temiam, pela primeira vez, a perda do título.

No entanto, o nome do mais lindo templo do futebol mundial – e conheci muitos estádios, como o belo Wembley – não se chama Mario Filho injustamente. E o “criador das multidões”, com toda autoridade, retomou das mãos do travesso irmão mais novo a caneta do destino e provocou:

– Nelsinho, o que você levou para fazer em doze minutos, farei na metade do tempo.

E assim foi: em seis minutos, o Flamengo de Mário Filho empatava o jogo, resultado que lhe dava o título. Os rubro-negros expurgaram o temor da derrota e exaltaram-se em cantoria. Os times já estavam com um a menos quando Lira foi expulso, deixando o Fluminense com nove, sem dois defensores.

Mário sorriu. Faltavam menos de dez minutos para concretizar mais uma imbelicidade. “Pior para os fatos”, pensou Nelson, ao decidir caminhar pelo hall do Maracanã. De uma fresta, avistou a torcida do Fluminense, paralisada. Subitamente, ergueu a tez e em voz apaixonada e racional, proclamou:

-Nossa história reflete a predestinação para a glória!

Retornou em passos largos ao encontro do irmão; à sabedoria de um profeta, uniu-se um destemido super-herói. Já com a pena em mãos, separou as tintas tricolores, fitou Mário Filho e decisivo, “rodrigueou”:

– Grandes são os outros, o Fluminense é enorme.

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Mário resignou-se e, em silêncio, cantou o Ai, Jesus!. O profeta tricolor tomava a escrita que definiria o fim daquela história. E aos 42 minutos de jogo, usou os dois ex-jogadores do adversário, Aílton e Renato Gaúcho, para determinar a glória predestinada do Tricolor.

Após nove anos sem ser o Fluminense, lá ele ressurgia, com a altivez digna do enorme campeão que sempre foi e é. Lá, naquele domingo de 25 de junho de 1995,  o Flu foi estonteante, derrotando a arrogância, o menosprezo, o apito, a manipulação, os arranjos e a FlaPress, com a autossuperação iluminada que somente o Deus verde, branco e grená possui.

Para quem não o conhece, aquele é o Fluminense. Para quem o conhece, aquele foi o Fluminense. Para quem conhece e ama, lá estava ele e seu poder de rejeitar a soberba, as tramoias e lutar pelo certo, provocando a mais intensa catarse, o mais profundo êxtase em épicas conquistas.

Para quem o conhece e ama, é assim: o Deus Fluminense bombardeia nossas veias e pulsa nossos corações de forma catatônica e iluminada, imbatível quando se autossupera, Invencível quando se vence.

Naquele 25 de junho de 1995, as labaredas de São João sopravam o fogo da maior alegria do mundo e do mais jogozo prazer enquanto o Rio de Janeiro se via dominado pela pureza do pó-de-arroz. O Brasil se dobrava àquele deus.

O mesmo deus que jorrava a mais nobre emoção em seus súditos. É a sua força impagável de natureza única e imortal.  Eterno Fluminense.

Eterno Nelson Rodrigues.

Eterno  “Gol de barriga”.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: pra

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DE OSWALDO GOMES A FRED 22 06

6 Comments

  1. Sensacional.Emocionante releitura daquela vitória épica!!! ST!!

    1. Sensacional e emocionante foi o que nosso Fluzão fez pela gente naquele dia, não é? risos
      Obrigada, queridão, pela força e leitura de sempre.

  2. Querida,
    Antes de rolar a página para escrever, assim que terminei de ler, pensei, exatamente, nas duas palavras que Nelson, usou… Coincidência? Acho que não, o texto é Sensacional e Emocionante, mesmo!
    Um golaço de barriga!
    Bjs

    1. Oi Milady, minha queridona! rs Obrigada! Que tricolor não não marcou um golaço de barriga com seu coração naquele dia né? rs

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