Éramos mais unidos aos domingos (por Paulo-Roberto Andel)

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Originalmente publicado no Observatório do Fluminense em 29/11/2017

Definitivamente, a fase não era das melhores. Em fins dos anos 1970, o Fluminense sem títulos por três anos era uma coisa insustentável. E gente apregoando que o futuro do clube não deveria prever o futebol em suas fileiras. Dívidas. Dureza. O jeito era apelar para as divisões de base, do goleiro ao ponta-esquerda, salvo raríssimas exceções.

O meia Gilberto, base do Botafogo que havia se transferido para o Atlético Goianiense, mais o centroavante Cláudio Adão – o maior que vi jogar -, jogador de enorme talento, mas no ocaso: havia sido dispensado do Flamengo, emprestado ao Botafogo e devolvido rapidamente à Gávea, que o liberou pelo passe de pouco mais de um mês do seu salário, uma ninharia.

O resto era casa. Paulinho, ou Paulo Goulart, com cara de garoto e bigode de veterano, tinha sido criado com Renato e Wendell. Edevaldo na lateral direita substituíra Miranda, o “Trésor Brasileiro”. O jovem Tadeu ocupava a vaga de Moisés, ao lado de Edinho, que já era um veterano aos 25 anos de idade, líder do time. Na lateral, o eterno – e valoroso – Rubens Galaxe.

Um meio de campo de meninos: Deley na cabeça de área, substituindo o negociado Givanildo; Gilberto, contratado, e Mário, o jovem camisa 10 de talento na canhota e chute fortíssimo.

Nas pontas, dois garotos: Robertinho, artilheiro da base, caiu para a direita com a chegada de Adão, e Zezé, arisco e técnico.

Saldo: nove pratas da casa e dois contratados.

Começamos com duas vitórias simples e humildes, 2 a 0 sobre o Bonsucesso e 3 a 2 sobre o Serrano – o mesmo time que nos daria uma alegria enorme perto do fim da competição.

Éramos a zebra. O Flamengo tinha um timaço, o Vasco era cheio de craques – inclusive Pintinho, que havia saído das Laranjeiras – e o Botafogo, mesmo com a sina dos anos sem títulos, tinha jogadores como Paulo Sérgio, Mendonça e Marcelo, hoje treinador. Aí veio o terceiro jogo contra o time de General Severiano, estávamos engasgados com os 4 a 0 sofridos no ano anterior e devolvemos a goleada com classe: Adão fez chover, Robertinho e Zezé foram dois azougues, Deley despontou como maestro e Edinho foi Edinho – o que já bastava. A vitória arrebatadora decolou o jovem time do Fluminense para a final do primeiro turno, onde bateria o Vasco por 4 a 1 nos pênaltis, na consagração de Paulo Goulart. Zagallo, que saíra da direção do Fluminense para São Januário porque “queria ser campeão”, amargou a derrota no banco de reservas.  Antes disso, já havíamos vencido os vascaínos por 2 a 1 de virada na competição, com gols de Gilberto e Robertinho.

Garantido na final, o Flu fez um segundo turno fraco, sexto colocado entre dez clubes. Todos apostavam no Flamengo, eterno favorito da imprensa, até que São Anapolina deu um choque de realidade e lá foram o Tricolor e o Cruz-Maltino para uma grande decisão diante de quase 110 mil pessoas, numa tarde de domingo chuvosa. O Vasco insistia em parecer favorito, mas o jovem time do Flu parecia uma legião de talentos experientes. Aos 22 minutos do segundo tempo, Edinho cobrou uma falta na diagonal da esquerda, no bico da área; chutou forte, Mazzaropi tentou defender, ela bateu na trave e entrou. O Rio de Janeiro virou um mar de pó de arroz em plena chuva, enquanto a mocidade independente do Flu enquadrava Orlando Lelé, Marco Antônio, Catinha, Roberto Dinamite e Wilsinho. Uma vitória de placar magro, de padrão tricolor, uma homenagem a Cartola, que morrera naquele mesmo dia.

A verdade é que tínhamos um timaço que duraria pouco tempo, mas não era somente isso. Éramos mais unidos aos domingos. A torcida do Fluminense era um só canto e abraço, muito diferente dos milicianos da opinião na internet. Éramos um show de mãos espalmadas. Na beira do campo, a serenidade do treinador Nelsinho era um bálsamo, e nos bastidores a mão de Newton Graúna foi impecável. Naquele tempo ninguém deixava para trás Flamengo e Vasco se não tivesse muita qualidade.

Desde então, nunca mais fomos campeões com um time que tivesse a nossa ‘cara’ da base, das preliminares das três da tarde no Maracanã. Todos os títulos desde 1980 tiveram escalações com jogadores contratados em sua maioria. Nos últimos anos, temos batido na trave com as revelações; muitas deram retorno econômico, mas não esportivo. Neste 2017 fizemos um time com muitos jovens formados no clube, mas não ouso compará-los com os campeões de 1980 – melhor dizendo, não cabe nenhuma comparação entre estas duas épocas.

O que falta ao certo por ora, além de dinheiro? Ousadia? Atitude? Respeito? União? Talvez tudo isso e um pouco mais. Na verdade, deixamos lá atrás algo que precisamos resgatar sem nenhum saudosismo: a nossa essência.

Nos últimos anos, temos nos digladiado por uma disputa que nada tem de política, mas sim de cobiça financeira. Com patrocinadores, dirigentes, treinadores e elencos diferentes, lutamos contra o rebaixamento três vezes nos últimos quatro anos.

Cansada dos anos sem Maracanã, do ódio diário promovido entre tricolores de baixo calão na internet e de certa letargia que parece pairada sobre o clube, a torcida aos poucos deixou de ir. Nem de longe o problema é exclusivamente da campanha ruim: em 1999, cansávamos de colocar mais de 20 mil torcedores nos estádios, e há um bom tempo, salvo exceções, lutamos para chegar a 10 ou 12 mil. Quem tem saco para ver tricolores anônimos se ameaçando, constrangendo, mentindo, caluniando e vociferando em busca de patética autopromoção?

A diferença sincera entre 1980 e 2017? Éramos mais unidos aos domingos, mas agora somos mais estúpidos de domingo a domingo. Antes, íamos pelo Flu; agora, vamos pelo candidato que venceu ou pelos que perderam, feito cordeirinhos de massa ignara guiados por meia dúzia de oportunistas coléricos, com todo o ridículo desta sentença.

Para finalizar, tomo emprestadas as brilhantes palavras de meu irmão e sócio Marcus Vinicius Caldeira em sua coluna mais recente no PANORAMA:

“Enquanto isso, a torcida quer “matar” Abad (que está tentando acertar as contas do clube, de forma exagerada, ao meu ver, mas com nítida intenção correta) e mira suas baterias em Marcelo Teixeira, que tem pouca culpa (aliás, se não é ele em Xerém estaríamos fu..), já que veio uma ordem top down de não contratação. Tudo errado.

Em verdade, hoje, a torcida do Fluminense, os atores políticos (e eu me incluo nisso), a gestão, blogueiros, sites de noticias, os jogadores, são que nem o final da música do Chico:

‘Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou…

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor…’

Isso jamais poderá dar certo”.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

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