A primeira lição (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Uma coisa que me chamou a atenção na saída do Fred foi a quantidade de tricolores que, em comentários na internet ou mesmo em colunas de nossa mídia independente, registravam o sentimento de suas filhas ou seus filhos pequenos. “E agora?”, perguntava um, “como vai ficar minha filhinha de seis anos que vê a camisa do Flu e grita goool do Fred”? Outro depoimento falava do filho às lágrimas ao saber que Fred não vestiria mais a camisa tricolor. Tinha um ainda que dizia não ter sequer coragem de decepcionar o pimpolho.

Com todo respeito, não digam nada disso a alguém que nasceu entre 1988 e 1992, ou que foi mãe, pai, irmã ou irmão mais velho de alguém que nasceu nessa época. A razão é simples: vai soar ofensivo. A turma que tinha entre quatro e dez anos no final da década de 1990 batizou-se tricolor vendo o time não apenas cair pelas tabelas, mas pelas divisões, até o fundo do poço da última divisão do futebol brasileiro. Nossos times eram horrorosos, o clube estava arrasado, a torcida desesperada, não parecia haver luz no fim do túnel.

Conheço muitos tricolores de brio forjados naqueles anos difíceis. Tenho eu mesmo um irmão mais novo, absolutamente tricolor, crescido em meio àquela mediocridade. Sua fé tricolor é tão intensa quanto a minha, que tive muito mais sorte, pois cresci idolatrando Edinho, Assis e Romerito (a santíssima trindade que venero em particular) e vendo o Flu diversas vezes campeão com um timaço. Creio que, talvez por isso, trate-se até de uma paixão mais pura, inocente: meu irmão não assumiu o Fluminense porque tínhamos craques e éramos os maiorais, vitoriosos, mas porque se deixou enfeitiçar pela paixão daqueles que o cercavam, pai e irmãos.

Essa é a primeira lição que a criançada de agora vai aprender e, para isso, foi importante Fred ter saído do clube e não se aposentado nele. A criançada vai descobrir que o Fluminense não morreu, que a paixão resiste, que aparecerão novos ídolos. Com um pouco mais de maturidade, aprenderão nossa história e descobrirão que, como Fred, tivemos muitíssimos ídolos, que encantaram crianças de todas as idades ao longo de mais de cem anos. Em uma palavra, vão descobrir, acima dos ídolos, nossa eternidade.

A propósito, o Fluminense não é um clube monogâmico. Aliás, essa disputa pelo posto de “maior ídolo da história”, com todo respeito, ou é coisa de clube com pouca história a contar, ou coisa inventada pela imprensa para idiotizar o público comum. Idolatria é definitivamente uma forma de amor que, como tal, não pode ser medida ou comparada, ao menos se é sincera. Uma mãe de cinco filhos não mede ou compara seu amor pela prole. Pode ter um xodó, dentre os cinco, mas correria com a mesmíssima preocupação ao ouvir o choro de qualquer um deles e se emocionaria igualmente com suas apresentações pífias no teatrinho da escola. Se não há métrica possível no amor, também não há na idolatria.

A riqueza de nossa história é o que explica nosso poliamor. Como colocar num segundo patamar a linda história de Castilho, que literalmente cedeu ao clube um de seus dedos, ou de Preguinho, cuja dedicação tornou o Fluminense campeão em vários esportes? Como dizer que Telê, campeão mundial pelo clube em 1952, jogador que jamais entrou em campo pelo Fluminense sem paixão, com desdém, é menos ídolo do que aqueles dois? Ou do que Romerito, que, não bastasse ter sido o cracaço que foi, ainda hoje serve gratuitamente ao clube como nosso embaixador? Foi pouco o que Conca fez pelo Flu, são rasos o sentimento e a dedicação de Gum? O sorriso de Marcão, a dignidade de Ézio, a frieza de Cavalieri, a raça de Edinho, a maestria de Rivellino, a simplicidade de Washington e Assis, a tranquilidade de Thiago, a elegância de Ricardo, a potência de Branco, como medi-los, compará-los? Na verdade, todos expressam, cada um a seu modo, o potencial humano e por isso nos servem de espelho. Nossos ídolos são nosso caleidoscópio, revelando na articulação dos fragmentos de sua personalidade a figura de um ser humano elevado.

Mães e pais tricolores, aproveitem o momento para renovar a paixão de seus pequenos pelo Fluminense. Foi-se um ídolo, o ídolo das crianças, mas ficou aquilo que dava sentido à idolatria. Fred não era um ídolo das artes, da música, da literatura, um youtuber, não era skatista, tampouco professor ou dedicado aluno, mas jogador de futebol do Fluminense Football Club. Foi o Fluminense que deu a Fred a possibilidade de ser ídolo das crianças e não o contrário.

A lição sobre a eternidade do Fluminense pode ser ensinada e aprendida de formas diversas. Lembro-me sempre, nesse particular, dos versos de Peregrino, um samba extraordinário que o grande tricolor Noca da Portela entregou a Paulinho da Viola. Peregrino é uma espécie de samba-gospel, mas tão bonito que mesmo um ateu praticante, como eu, se deixa seduzir pela música e canta com a fé de romeiro. Em um trecho do samba, no entanto, creio que nosso Noca tenha pensado mais em seu clube de coração que em qualquer coisa. Disse lá nosso sambista: “Ele virá, quem nasceu para sempre pra sempre virá, É uma eterna semente solta pelo ar, Fecundando de felicidade por onde for”. Aprendi a lição e agora ensino: quem nasceu para sempre, sempre virá.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

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