Um ato, dois atos: Violeta Parra e o Flu (por Paulo Tibúrcio)

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Quarta feira, início de noite. Dirijo-me para o centro da cidade. Meu destino é a Sala Cecília Meireles, tradicional sala de concertos do Rio de Janeiro, agora com o seu edifício neocolonial todo retrofitado e repintado na cor areia original da Belle Époque carioca, quando o prédio abarcava o Grand Hotel da Lapa.

Na programação da noite, uma homenagem a Violeta Parra, um dos maiores ícones da música latino-americana. De origem chilena, suas músicas falam de sofrimento, mas também de utopia, amor e esperança. No palco, Tita Parra – neta da homenageada, Mônica Salmaso e banda. Tita Parra carrega o sobrenome da avó, mas tem luz própria. Conhece música brasileira como ninguém. Mônica Salmaso é dona de uma voz divina. A banda, de um talento admirável. Saio de lá leve, a música é contagiante.

A noite avança. Não acabou. Ainda falta um compromisso importante. O palco muda. Tal qual guerreiro que se dirige à batalha após o ritual de preparação, saio do clima solene e inspirador da sala de concerto e sigo rumo ao Maracanã. A atmosfera muda. A leveza dá lugar, inicialmente, ao nervosismo. Mas a alma estava inspirada. Não era noite de sofrimento. Iriam sobressair a esperança, a utopia e o amor. Esperança na arrancada do time para o alto da tabela, a utopia de que é possível a união em torno do clube, ainda que existam diferenças. E o amor incondicional às três cores. Junto ao time na alegria e na tristeza. Voltar ao Maracanã em momentos como este é como a canção “Volvir a los 17”, de Violeta Parra…

Volver a los diecisiete
Después de vivir un siglo
Es como descifrar signos
Sin ser sabio competente
Volver a ser de repente
Tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo
Como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo
En este instante fecundo

E lá estou eu, como um menino frente a Deus. Mais inspiração, desta vez da torcida tricolor. Unida, coesa, cantando de maneira incessantemente, jogando com o time. Grupos diferentes, mas unidos em prol do Fluminense. Há quem duvide da utopia, mas ela se manifesta em momentos propícios e estava lá, presente no Maracanã. Até o Setor Leste, que costuma ser mais comedido, acompanhou a massa tricolor. Já estou longe dos meus dezessete, mas assisto o jogo de pé.

Não é jogo fácil. O adversário, ainda que em má fase, ostenta uma das camisas mais tradicionais do Brasil. Vieram para buscar o resultado e tem time para isto. Mas a noite era especial. Logo no primeiro tempo, o Fluminense marca dois gols e abala o ímpeto são-paulino. Henrique Durado bate o pênalti com perfeição e Sornoza explode o gol de Sidão após excelente jogada de Scarpa. O time joga por música, e quem a executa é a torcida.

O temor da queda de produção no segundo tempo não se confirmou. O time volta atento, motivado, com total aplicação em campo. Cavalieri de volta aos velhos tempos. Os laterais apoiando e defendendo bem. A zaga firme com Reginaldo e …

Gum, Gum. Gum!

Gritava a torcida a cada intervenção de nosso zagueiro, um dos responsáveis pela nossa recuperação, trazendo experiência e motivação para o time.

Meio de campo exercendo bem a função de proteção da zaga e criação das jogadas. Ataque voluntarioso. O esforço foi recompensado com mais um gol de pênalti, convertido por Robinho, que entrou bem o jogo.

O adversário é valente e não se entrega e consegue seu gol. Mesmo o contratempo tem o seu valor. Mostra que, apesar do bom momento, é importante manter o ritmo. O tempo todo. Ainda tem muita luta pela frente.

Fim de jogo. A noite segue seu rumo eu e volto para casa com a mesma leveza com a qual entrei no Maracanã. Em tempos duros, algo surpreendente. Agradeço ao futebol e à música por esta noite em dois atos.

Para quem quer conhecer ou relembrar Violeta Parra, segue uma das canções, interpretada por craques da música latina:

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @paulotiburciojr

Imagem: bit

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