Vão pro inferno! (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Alguém tem de dar um toque no Gum, no Levir e no resto do elenco para lavar a boca antes de falar da torcida do Fluminense, a Soberana. Se o time é fraco, o elenco pior ainda, se o clube não se preparou para mandar jogos no Rio durante um evento marcado há sete anos, se estamos há três anos jogando para meio de tabela, se venderam Conca e Fred para comprar a dupla Henrique + Henrique Dourado, nada disso é culpa da torcida. A torcida é vítima, não agressora.

O caso aqui é idêntico ao de uma vítima de agressão doméstica ou coisa pior. Sempre aparece um idiota para culpar a vítima, mesmo quando se trata de um crime contra a vida, de estupro ou coisa igualmente abjeta. Sempre aparece um filho da puta, com o perdão da palavra, para relativizar a agressão, para tentar encontrar uma perspectiva favorável ao agressor. Sempre aparece um sem-vergonha para expor ao público um deslize do passado da vítima, que nada tem a ver com a agressão, sempre injustificável.

Pois bem, o Fluminense e sua torcida vêm sendo brutalmente agredidos há muito tempo. A torcida é obrigada a pagar caríssimo para assistir o time em estádios horrorosos, tem um programa de sócio-torcedor simplesmente patético, é forçada a torcer por times sem mínima qualificação, até recentemente conduzidos por treinadores semiamadores. Esse ano, a situação atingiu o ápice, não por se tratar de ano eleitoral, mas por trazer consigo dois agravantes: primeiro, um passado recente de vergonhas cumulativas, que tiraram por completo o tesão da torcida; segundo, por estar claro para qualquer um que o problema não é falta de grana.

Isso precisa ser ressaltado. A saída da Unimed não ameaçou as finanças do clube. A tal gestão do clube poderia apresentar isso como um feito incrível, histórico, mas simplesmente não pode fazê-lo porque pegou a grana que tinha à disposição, e não era pouca, e torrou irresponsavelmente. Torrou e vem torrando. Os números todos conhecem. Só no Henrique, projeto de zagueiro, foram 10 milhões cash, mais salários altíssimos, de 400 mil reais, segundo saiu na imprensa. Os contratados todos vieram a peso de ouro, 200 mil num, um pouco menos em outro, grana para cacete. Numa conta de padaria, calculo que gastaram uns 30 milhões para montar o elenco que temos, sendo 25 milhões em três jogadores, Henrique, Richarlison e, agora, Henrique, o Dourado. Dourado não estreou, mas não tem passado que o recomende a assumir a camisa nove de Fred.

Vejam, isso nada tem a ver com CT, uma grande realização, em meu juízo. Há, na verdade, muitos indícios de farra de empresários nas Laranjeiras nos últimos anos. Muitos mesmo. Por exemplo, Douradão aí e William Matheus são clientes de Meer Kaufmann, agente cuja empresa, segundo consta, tem como advogado Fernando Carvalho, ex-dirigente do Inter, de onde veio… nosso gerente de futebol, Macedão. Pode estar tudo nos conformes? Pode, é claro. Mas é tão estranho como o pacote de Eduardo Uram que contratamos ano passado, como a presença sempre viva de Francis Melo. São esses sinais, não provas definitivas, obviamente, pois, se as tivesse, já teria denunciado há tempos.

Então, mais uma vez, que fique claro: o Fluminense não está uma draga nos últimos dois anos porque saiu a Unimed, porque estamos sem patrocínio máster ou por causa da construção do CT. O buraco em que nos meteram tem menos a ver com falta de dinheiro e mais a ver com falta de saber o que fazer com o dinheiro. Vendem Fred alegando peso nas finanças. E compram a peso de ouro um centroavante. Isso depois de ter investido, no começo do ano, 10 milhões no centroavante que ocuparia a 9 depois da saída do ídolo.

A história do estádio também é bizarra. Depois de sete anos, o clube resolve fazer um arremedo no campo do América. Vai estreá-lo em julho. Atenção: a temporada comendo solta desde o início do ano, nós já a três ou quatro meses sem estádio na cidade, e o clube vai preparar um estádio para… julho. E o ingresso não vai ser barato, não vai ter preços populares, coisa alguma, a não ser que a gente fique na zona de rebaixamento. Quando isso acontece, a direção do Fluminense lembra que seu povo existe.

Quem mais sofre com tudo isso são os torcedores comuns, aqueles que gostam de acompanhar o time, mas não necessariamente o clube. As maiores vítimas são aqueles que gostam de futebol mesmo, que fariam todo o possível para frequentar o estádio, mas que infelizmente não podem imprimir dinheiro em casa ou pedir ao patrão para entrar mais tarde no trabalho porque chegaram na madrugada do jogo em Volta Redonda. O clube empurrou essa galera, primeiro, para o bar perto de casa, depois, para qualquer outra coisa, teatro, cinema, festa infantil, campeonato inglês, porque ninguém aguenta o “futebol” que o Fluminense praticou na maioria absoluta das partidas dos últimos três anos e meio.

Mas não é que, na cabeça da direção do clube, a culpa é da torcida, que não apoia, não vai ao estádio? Esse é o discurso das forças dirigentes, que acaba sendo reproduzido por treinadores e jogadores. Vão todos vocês para o inferno. Todos, sem exceção. A torcida do Fluminense, a Soberana, sempre esteve com o time, com o clube, para o que der e vier. Sempre esteve e continua a estar, mesmo à distância. Se a torcida está torpe, letárgica, insensível, a culpa é sua, dirigentes e forças da situação, é sua Siemsen, é sua Macedo e anteriores (Simone e Bittencourt inclusive), é sua Flusócio. Antes do último “governo” Siemsen a torcida estava no estádio. Teve mal um ou outro jogo, mas estava lá, mesmo sendo sacaneada todo jogo na compra de ingressos, no acesso ao estádio, nas coisas mais banais. São vocês os culpados pelo desaparecimento da torcida.

Creio que vocês não conheçam mesmo o torcedor comum do clube. Aquele que mora em bairros populares, mulheres e homens do povo, que se orgulham das três cores. Esses formam a maioria absoluta da nossa torcida, são o corpo e a alma da Soberana. Amor de torcedor deve ser cultivado, cativado, como qualquer amor. A atual gestão do Fluminense pisa no torcedor e depois o acusa de entrar debaixo do seu coturno.

A adesão, consciente ou não, ao movimento nacional de exclusão do povo dos estádios, a gentrificação deliberada cuja expressão maior são as tais arenas, vem matando todas as torcidas, sobretudo a nossa torcida, que se concentra numa cidade decadente de um estado decadente. Tem idiota que diz: mas o Corinthians joga para 20 mil todo jogo em Itaquera. Primeiro, o Corinthians tem disputado absolutamente tudo que participa. Segundo, o Corinthians tem sede em São Paulo e contou com a mídia para espalhar-se por todo país. Terceiro, 20 mil é muito pouco para o Corinthians, equivale a 1.500 para a gente. Façam as contas pelo tamanho da torcida.

Vai aparecer alguém para dizer que a coluna é politicamente orientada, é coisa da oposição. Pois bem, eu me antecipo então. É claro que a coluna é politicamente orientada (todas são), no caso, de oposição, porque eu não estou nem um pouco satisfeito com o que vem acontecendo no clube. O curioso é que, há três anos, eu, sócio que sou, votei em Siemsen, acreditando que o problema do clube era a dupla gestão com a Unimed. Estava errado e não vou repetir o erro mantendo à frente do clube o grupo que o apoiou nos últimos anos. Quem vou apoiar? Isso não decidi, mas na situação eu não voto e não recomendo que se vote. O momento é de oposição.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jota

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