Uma estreia hipócrita (por Fagner Torres)

fagner torres diogo salles

Não sou do tipo que se pode dizer elegante e de fino trato, mas também chegar com o pé na porta não é muito do meu feitio. Onde entro me apresento como Fagner Torres. Jornalista por paixão juvenil e desencanto adulto. Colunista do Blog Laranjeiras no ESPN FC Brasil nas horas vagas. Tricolor em tempo integral. Assumidamente de esquerda. Chegado numa birita e com estômago forte.

Quando Paulo-Roberto Andel me convidou a apresentar o que penso por meio de linhas neste Panorama, imaginei a hercúlea tarefa que seria. Ser chamado a compor, ainda que esporadicamente, este time de colunistas, é uma honra, claro. No entanto, escrever tem sido complicado nos últimos tempos. Papéis preenchidos necessitam de sentimento, e com tantas tragédias ao redor, o mais natural seria trocar a escrita pelas expressões desesperadas dos gritos.

Logo, peço desculpas, de antemão, por essa estreia hipócrita. Queria tratar o Fluminense como prioridade junto a você. Sei que é isso que espera, mas os tempos estão bicudos demais.

De um lado, 111 tiros disparados pelo braço armado do estado onde vivemos contra cinco favelados. Não sei se as vítimas gostavam de futebol. Queria saber. Será que tinham um time? Eram tricolores? Liam este Panorama? Quem sabe?

Ou seria quem se importa?

jovens fuzilados costa barros

Me desculpem, mas é que eu mesmo poderia ser um deles. Origem e cor me denunciam, e a empatia é imediata. Como poucos falam no assunto, seja por preguiça ou covardia, me sinto na obrigação de citá-los aqui, ao menos em um parágrafo.

Volto a tentar pensar no Fluminense, quando algo do outro lado da Via Dutra rouba novamente a minha atenção. Estudantes secundários apanham em praça pública e quase ninguém os defendem. Fico comovido.

O crime? Querem educação. Aquilo que, dissimuladamente, todos defendemos como prioridade, desde que não nos custe dinheiro.

Os agressores dos meninos são os mesmos. Muda a farda, muda o sotaque, muda o patrão, mas não a truculência. Capitães-do-Mato pós-modernos trabalhando a mando de uma dúzia de herdeiros. Ecos de uma elite intelectualmente indigente, costumeiramente hipócrita e financeiramente rica. Qualquer semelhança não deve ser coincidência.

Ouço falar que é um confronto, mas não entendo. Se um lado usa a garganta e o outro bombas, há dezenas de substantivos melhores para descrever o ocorrido. Massacre, talvez. É a mídia. Reconheço nela um grande esforço para ser criativa diante dos fatos. Um exercício tão difícil quanto desnecessário. Mas, afinal, se a originalidade rola até no noticiário futebolístico, qual será o limite, então, quando passamos para a esfera de um cotidiano que, no fundo, nada mais é que pura política? Quer pagar quanto? Pagar o quê?

E assim sobrevivemos, com uma pitada de fé e muita sorte. Desviando de chumbo grosso, de toneladas de cinismo, quebrando o silêncio. Escrevendo, quando der. Tentando travar o senso-comum, ocupar espaços, buscar mudanças, cumprir caminhos, enxergar horizontes e traçar Panoramas. Gritando também. Libertem Barrabás!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @TorresFagner

Imagem: ft/fb/pra/ arte: diogo salles

#ForaCunha

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