Uma bandeira tricolor (por Paulo-Roberto Andel)

Tínhamos comido pasteis na Chic’s, eterno xodó na Rua dos Andradas, eu, CH e Jocemar. Depois chegou a hora de ir embora, os amigos seguiram em direção à Carioca e virei na Buenos Aires, uma rua preferida onde caminhava com minha camiseta do Fluminense – um escudão no peito – puxado por meu pai, nos tempos de Félix e Dionísio.

Seis da tarde na sexta-feira 13, o Centro do Rio vazio e triste, o cheiro de ruas tristes que Jack Kerouac descreveu em “Cenas de Nova York”. Muitas lojas fechadas para sempre, outras se esgueirando pela sobrevivência.

Interessante uma Kombi que vende rodízio de caldo de cana. O pessoal curte, sempre tem gente. As pessoas ainda se divertem em tempos tão difíceis. É estranho ver um lugar que já teve tanta vida pulsante agora recolhido, cabisbaixo.

Depois de atravessar a Avenida Passos, em pouco tempo vem o prédio da antiga faculdade Morais Júnior, que parece vazio mas tem muitos taxistas no entorno. Um bar na esquina parece ser o último refúgio do pessoal que toma uma cervejinha.

Sigo até a esquina que, à direita, é Tomé de Souza e à esquerda, República do Líbano. Vou de esquerda pelo caminho natural para casa. Logo aparece o Edifício Bordallo e sorrio ao lembrar que já entrei ali muitas vezes para falar com Seu Zinho, que adorava o meu pai e muito o ajudou. Eu, pensando em Cândido na lateral esquerda, Jason no ataque e esperando “El Loco” Gatti para o gol, entrando numa fortaleza de jogo de bicho – já contei isso num livro.

Rua da Constituição. Paro e olho para trás. O VLT vem passando calmamente. Durante um ano e meio, estive ali quase todo dia. Leo era garoto, conversávamos no bar, o falecido Molina era divertidíssimo. A Juliana. Patrícia. Tinha a Sheila, o Veterano, o Max, era uma turma boa. Larguei a faculdade quando minha mãe morreu. Há um inevitável clima melancólico ali. Vou embora.

De volta à República do Líbano na última quadra, a loja de equipamentos de som tem o reggae bem alto. Um rapaz de camisa da Jamaica dança, outra garota ri, eu desvio para não atrapalhar o lazer deles. Então vou para o meio da rua deserta, olho para cima sem motivo aparente e tlóinggg: encontro uma bandeira do Fluzão.

Sorrio à toa. Paro novamente e resolvo tirar fotos. Em plena sexta-feira 13 triste, meu símbolo da sorte aparece no alto do prédio. Os idiotas da objetividade podem reclamar das cores invertidas no escudo. Nem ligo: o que me vale é a intenção, o bom sentimento. As três cores estão no alto e iluminam meus próximos passos.

Não tinha jogo nesta sexta-feira. A bandeira estendida na janela é um gesto de amor que não precisa ser “oficial”, basta que seja legítimo. Fico parado que nem um bobo, torcendo para que alguém venha à janela. Em vão. Não importa.

Minha sexta-feira era triste. Senti a melancolia das ruas. Havia o vazio, a ausência. Mas numa rua quase deserta e com poucos moradores, lá estava aquele lindo e intocável escudo, o mesmo que me encantei há quase meio século. Me senti melhor. É um bom presságio para este sábado. Nosso escudo me faz bem demais, invertidas as cores ou não.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

#credibilidade

4 Comments

  1. Andel, eu ainda me lembro do cheiro que tinha o pano das bandeiras do Fluminense vendidas no Maracanã da minha infância. Já se passaram mais de 30 anos e ainda posso sentir!

  2. Belíssimo, meu amigo. Belíssimo. Uma pena nesta hora eu já ter seguido meu caminho e não ter visto a linda bandeira. Em meio ao caos do RJ, isso aquece nossos corações.

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