Um novo príncipe (por Rods)

Gerson e Didi

Príncipe Etíope. Assim Valdir Pereira – ou simplesmente Didi – foi batizado por Nelson Rodrigues. Isso por ser um negro esguio e de rara elegância. Desfilava em campo apresentando seu futebol e contribuindo com o que chamamos de “jogo bonito”, como ele mesmo classificou as boas partidas que aconteciam. Hoje uma expressão comum entre todos nós.

Injustamente, é comum ver Didi ser mais relacionado ao Botafogo que ao Fluminense. Mas em sete anos vestindo a camisa tricolor, foi com ela que levantou uma taça de Campeão Mundial de Clubes (1952). Foi também como jogador do Flu, que ele marcou o primeiro gol do Maracanã, no dia 16 de junho de 1950.

Ah, antes que eu siga com uma informação incompleta, é bom dizer que o apelido completo era Príncipe Etíope de Rancho. Há alguns (muitos) bons anos, o carnaval carioca era composto, na verdade, por vários carnavais e um deles era o conhecido como Rancho, onde, guardadas as devidas proporções, havia desfiles com alas parecidas às que vemos hoje. Por vezes, se via foliões negros trajados elegantemente como príncipes etíopes. Daí, a comparação e a elogiosa alcunha.

Quando Didi morreu, em decorrência a um câncer, Gérson ainda estava a uma semana de completar quatro anos. Quem diria que, décadas depois, aquele bebê seria um novo negro esguio e elegante vestindo as três cores no gramado do Maior do Mundo? Obviamente, o futebol era outro, mas além das características físicas, os dois meias, um destro e o outro canhoto, foram abençoados com o dom de fazer sorrir quem gosta de futebol. O primeiro chegou ao Real Madri e o segundo está prometido ao Barcelona.

Aliás, preste atenção no Gérson. Ele tem até o semblante de jogador da década de 50. Foi ao perceber isso que pensei no tema desta coluna. Se quiser, dê uma envelhecida na imagem dele em algum programa como o Photoshop para fazer o teste. Aposto que concordará comigo.

Salvo engano, foi Josué Teixeira que teve grande responsabilidade na subida do Gérson quando ainda no juvenil. O garoto já mostrava seu futebol e também já causava ansiedade em volta de seu caminho rumo aos profissionais. Acontece que ficou, como dizem, marrento. Ganhou uma bela duma geladeira, uma coisa cada vez mais difícil de fazer com jovens craques. Funcionou. Gérson baixou a crista e entendeu a mensagem. Passou a jogar com mais humildade e mais pelo time. Já Didi, sempre soube disso.

Como coloquei acima, Gerson, assim como Didi fez, deve seguir para o futebol espanhol. Uma pena saber que os sorrisos que ele nos dá hoje estão com dias contados. Não há como não pensar no Santos segurando o Neymar. Ah, como eu queria que o Fluminense fosse capaz de fazer o mesmo. É triste saber que seu potencial será alcançado em outro lugar e que nós ficaremos apenas com um vislumbre do craque que ele deve se tornar. Dois ou três anos e ele poderia ser um novo príncipe etíope.

Pouco antes de morrer, Didi confessou uma grande preocupação: não via ninguém mais fazer a “folha seca”. Não queria ver o lance criado e imortalizado por ele deixar de ser repetido e sonhava em ensinar a arte a algum garoto. Se nascido dez ou quinze anos antes, imagino se não seria o Gérson esse garoto.

ST!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @Rods_C

Imagens: Acervo Lance! / Google

Manipulação: Rods

10 Comments

  1. Sempre achei Gerson , parecido fisicamente com Didi, mas nunca tiva coragem de postar minha opniao.

  2. Me desculpa, mas para o Gerson (Que é um bom jogador) chegar ao nível do Didi, ele vai ter que comer muito feijão com arroz ou nascer de novo. Para mim, o craque só é craque quando ele conquista diversos títulos importantes na carreira. O garotinho aí fez umas boas partidas pelo Fluminense em 2015 e só. Talvez ele vá brilhar na Europa e tudo mais, mas ele precisa fazer muito ainda. Espera mais uns 5 anos e aí vamos saber se ele correspondeu as expectativas e etc. É cedo demais, meu amigo!

    1. Sem problema, Felipe.

      Não descordamos tanto assim. Foi como coloquei em “É triste saber que seu potencial será alcançado em outro lugar e que nós ficaremos apenas com um vislumbre do craque que ele deve se tornar.”

      Um abraço e ST!

      1. Eu concordo que ele tem potencial e tudo mais. Mas se houve alguma comparação com o craque Didi, eu acho um tremendo exagero e é muito cedo ainda para esse tipo de avaliação. Lembro quando o Robinho apareceu no Santos e aí todo mundo falava que ele era o novo Pelé e etc, infelizmente não deu certo na Europa. O Robinho é um jogador super habilidoso, mas pra mim ele nunca foi um craque. Então vamos com calma com relação ao garotinho da matéria aqui.

        1. Tudo bem, Felipe. Eu vejo da seguinte forma: o Santos sempre viverá de “novos Pelés”, assim como o clube de remo vive de “novos Zicos”. Enquanto isso, nós passamos a sofrer com o medo de “novos Torós”.

          Pode me chamar de entusiasta, mas acompanho ele há alguns anos e vejo o futebol desse garoto ir longe. Talvez se perdesse no caminho, mas acredito que a intervenção do Josué Teixeira permitiu que ele pudesse entrar de vez na trajetória de craque. Se der errado, você pode vir aqui me cobrar.

          Queria muito que o Fluminense tivesse conseguido vender bem o Kenedy (o menos promissor das nossas cinco promessas, no meu entender), para poder segurar o Gerson e também o Marlon por mais dois ou três anos.

          Infelizmente não foi o que aconteceu.

          Um abraço e ST!

  3. Vamos aproveitar para vê-lo por aqui esse ano e torcer para que o Barça nos dê mais um tempo… Depois disso teremos que atravessar o Atlântico, assim como tive que fazer em relação ao Thiago Silva esse ano…

    1. Pois é, Ernesto.

      Queria muito ver a diretoria fazer uma loucura qualquer para segurar o Gerson. Sei que os tais 20 milhões se transformariam em 60 em dois ou três anos.

      Abração e ST!

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