Três anos sem Ézio (por Paulo-Roberto Andel)

ézio com a bandeirinha lancenet pedro kirilos

Ontem, três anos da morte do artilheiro que foi mais do que um ídolo, na verdade um super herói.

Ézio encantou crianças, adolescentes, homens e mulheres, idosos e todos das Laranjeiras, de tal forma que me arrisco a dizer: foi um dos jogadores mais humildes, simpáticos e carismáticos da história do Fluminense. Sempre tratou bem a todos, com um enorme e sincero sorriso no rosto. Tudo bem diferente dos artificialismos de hoje em dia.

Jogou quatro temporadas e meia. Marcou gols a granel. Tudo num tempo de dificuldades tricolores: times baratos, jogos nas Laranjeiras, dívidas. Mas engana-se quem pensa que o período sem títulos entre 1986 e 1994 foi marcado pela decadência tricolor. Apesar do grito de campeão represado, o Flu disputou diversos jogos decisivos e finais. Não raro, foi prejudicado claramente em situações capitais – leia-se as decisões dos Cariocas de 1991 e 1993, mais a Copa do Brasil de 1992.

Ézio jamais reclamou, brigou ou desrespeitou a camisa do Fluminense. O máximo que fez foi mostrar tristeza em sua fase final no clube: não vinha bem, acabou reserva, queria melhorar. Em seu último jogo, tocou na bola que, segundos depois, encontraria a barriga mágica de Renato Gaúcho no maior jogo de todos os tempos – atrás deste, o artilheiro sorridente vinha atrás, esperando um rebote, uma chance derradeira.

Em 1991, o Fluminense não foi campeão brasileiro mas cumpriu uma bela jornada: para chegar às semifinais, precisava vencer cinco jogos seguidos no momento final da fase de classificação – e acabou conseguindo. Era um time operário, sem estrelas, que tinha em seu artilheiro a luz para iluminar os caminhos.

É natural que os torcedores em geral apeguem-se a grandes vitórias e títulos, o que nem sempre significa a melhor avaliação: nem sempre o melhor vence, nem sempre o campeão é o mais admirado. Por exemplo, sem conquistas nacionais, a Máquina Tricolor do Doutor Horta é um dos times mais importantes da história do Fluminense – e, sem sombra de dúvidas, o mais famoso. O caso de Ézio é emblemático: um dos maiores artilheiros tricolores de todos os tempos foi também o timoneiro de tempos sem títulos, difíceis, mas nem de longe sofridos – havia o sentimento de que, em breve, emplacaríanos. Ninguém sabia que aquela espera de nove anos desaguaria numa de nossas histórias mais sensacionais e definitivas.

Tenho saudades de Ézio. Do jeito humilde como tratava a todos. O carinho com as crianças. A permanente satisfação em defender o Fluminense. Não era um craque e nem precisava sê-lo: bastava-lhe a condição de artilheiro lutador, desbravador, herói da doçura e da capacidade de honrar a camisa dentro de campo.

Tenho saudades de um Fluminense mais simples, sem nariz empinado e empáfia oca, sem obsessão midiática. Onde os torcedores se abraçavam de verdade, com afeto, sem a necessidade pueril de afirmação individual. Éramos tricolores de uma só arquibancada, um samba. No campo, não vivíamos a melhor fase, mas nem de longe ela carecia de fidalguia, esforço e dignidade. Tínhamos orgulho, os jogadores também, ao contrário da indiferença de certos campeões, midiaticamente dedicados mas indiferentes aos sentimentos da torcida: o importante é a grana, nem que se tenha que quebrar um vestiário ou colocar o dedo na cara de dirigente para obtê-la.

Ao lado de outros heróis, Ézio representa para mim o futebol de outro tempo, um Maracanã democrático, um Fluminense que não precisava de auto afirmação estrambótica porque a simples menção de seu nome sugeria uma conquista, mesmo que ela viesse a demorar. Outras palavras.

Perdoem-me certa tristeza. O Fluminense de agora briga por mais uma vaga na Libertadores, ainda que nem tão convincente pelos motivos que todos sabem. Tem títulos, nome, griffe, algum poder econômico. Isso é bom. Mas aqui não quero falar de pragmatismo de resultados. Hoje é uma segunda-feira. Meu interesse é falar de sentimentos bons, de amor, de simpatia.

Muitos são ricos. Alguns são campeões.

Outros são craques.

Quem consegue atravessar décadas por conta de respeito, dignidade e caráter?

Super herói só teve um: Super Ézio, na voz espetacular de Januário de Oliveira.

O Fluminense é um mar de saudade.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

Imagem: lancenej/pedro kirilos

radio canal fluminense 10 11 2014

3 Comments

  1. Grande Andel !
    “Super….Super…..Super Ezio !
    O Super Heroi Tricolor !”
    Saudades !
    Tenho a visao de que qdo o Ezio parou, o Maraca se aposentou junto… Colocaram as primeiras cadeiras verdes e o ex maior do mundo ja nao era o mesmo….

    ST

  2. Caro amigo, mais uma vez me leva às lágrimas. Falar do Super Ézio, que era o herói do meu meu filho na sua infância, obviamente que depois do Shiryu, dos Cavaleiros do Zodíaco. Foi uma época de muito sofrimento e zoação por parte dos adversários (deio o Vasco por isso). Mas, mesmo com times sofríveis consegui plantar o amor ao tricolor no coração daquela criança, que hoje tem o escudo do Fluminense tatuado no peito. Ézio simbolizava a mais pura relação de jogador e torcida e de amor à camisa.

  3. “Porque ele sabe que é disso que o povo gosta !”
    Emocionante,
    Ézio , super herói tricolor, inesquecível.
    Foi-lhe arrancada na mão grande a Copa do Brasil contra o Inter e aquela final contra o Flamengo .
    Obrigado pelo texto

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