“Talibãs Tricolores” (por Luiz Alberto Couceiro)

PAULO TALIBÃ

(As coisas sem sentido em si mesmas)

Essa semana, torcedores e jogadores do Fluminense cobriram seus rostos, deixando somente os olhos e a parte superior da cabeça, em alguns casos, à mostra. Os argumentos para sustentar tal atitude eram ligados à mais uma espontânea campanha de parcela da torcida, independente de orquestrações do clube. Da mente de alguns tricolores rapidamente foi aderida por tantos outros pelo Rio de Janeiro, pelo Brasil e pelo Mundo. A camisa do clube das Laranjeiras era o tecido usado nas faces com olhos firmes, sem temer possíveis dissabores nos próximos dois e decisivos jogos que o time fará em menos de uma semana. Um deles já foi, e veio com uma derrota. Enquanto teve pernas e pulmões, o time não se entregou. Alguma pessoas que assim se representaram nas redes sociais se autointitularam “Talibãs Tricolores”.

Rapidamente, mas não tanto quando à simpatia de parte de seus jogadores e torcedores, da sede do clube da rua Álvaro Chaves veio a público um “documento oficial” (essa palavra que anda na moda dentre alguns funcionários do Fluminense, para justificar algumas de suas ações) reprovando a atitude daquelas pessoas. Essa é a tal da “opinião oficial”, embora eu fique me perguntando se um dia ficará definido até que ponto o clube de futebol é privado, público ou nenhum dos dois pra ter ou não dono(s) ou coisa que o valha. Ao menos em diversos outros esportes pelo mundo isso é claro, como na NBA e na NFL, com a exceção do Green Bay Packers. Enfim, é o tal posicionamento “do clube”, mas também não sei o que diabos isso quer dizer, como se as coisas fossem feitas de forma impessoal.

Comecei a ler e tomar conhecimento de comentários os mais diversos falando do “absurdo” que é a atitude dos que se identificaram como “Talibãs Tricolores” e por outros que passaram a sê-los. Em todo o momento, os torcedores e jogadores, de quem li comentários, falavam de modo diferente do discurso do grupo terrorista, e jamais chamaram de burka o uso da camisa sobre o rosto, muito menos insinuaram qualquer forma de interpretação do Islã, de salvação mística por meio de suicídios e atentados à bomba em alvos bem definidos. Não fizeram menção ao seu uso matricial do símbolo e da palavra “Talibã”, mas sim os usaram de outra maneira, antropofagizando-os para seus, outros, interesses bem claros.

O valor dos objetos é sempre situacional, contextual, bem como os usos do corpo para expressar opiniões, desejos, comunicar ideias, e das palavras. Torcidas organizadas diversas no Brasil exibem imagens, desde os anos 1990 até hoje, em suas bandeiras e camisas de ditadores e assumidos terroristas. Alguns “gritos de guerra” também contam com frases não muito ligadas à questões de paz entre adversários, digamos. Nem por isso vêm causando escândalo nas redes sociais.

Eu não me coloquei como um “Talibã Tricolor”, como também não me coloco de fantasias no carnaval. Essas são parte de minhas opções de uso de meu corpo, somente isso. Nas não vejo, nessa circunstância, alguém fantasiado de político corrupto ou ditador como sendo um de seus seguidores. Não vi a popular fantasia de Bin Laden ser criticada nas redes sociais.

Judeus imitando soldados e funcionários nazistas em um vilarejo europeu? Pode isso? No instigante filme Trem da vida (1998), do diretor Radu Mihaileanu, prisioneiros judeus, em 1941, precisavam mimetizar-se de nazistas para colocar seu criativo plano de autodeportação em ação. O diretor passou a ser nazista? Estava fazendo um elogio ao Partido Nacional Socialista? O que Mihaileanu filmou foi uma alegoria para produzir um estranhamento acerca de códigos morais de conduta na administração da logística dos campos de concentração – mas não só isso. Mulheres tricolores colocando as camisas de seu time do coração “como se fossem burkas” não estariam fazendo uma alegoria de gênero, de como viver opções de estética sem que em momento algum tenham sido forçadas a tomar esse tipo de atitude? São questões para pensar, e não acusações baratas e pouco sustentadas em argumentos com um mínimo de solidez.

Na metáfora de parte da torcida tricolor, o efeito visual da camisa mostrando os olhos, ao que me pareceu, falou mais alto para a associação com grupos de pessoas que fazem de tudo, até arriscam a vida, pelos seus objetivos. Penso ter sido esse o canal de significação que levou torcedores do Fluminense a adotarem, em um contexto muito específico em que o time deve vencer o jogo da Libertadores para nela continuar, dois símbolos, na face e na autoidentificação nominal, em parte socialmente identificados com a ousadia dos que acreditam não ter limites para chegar aos seus objetivos. Contudo, se terroristas fazem isso matando pessoas que consideram serem seus obstáculos, os torcedores do Flu de modo algum têm dessa maneira se manifestado. Outros tantos símbolos são assim utilizados, dentro e fora dos mundos do futebol, nessa mesma forma de construção de significação da vida social.

A proibição ou o repúdio “do clube” ajudaram no maior alastramento do comportamento de parte da torcida que se sente bem agindo dessa maneira, avalio, ainda mais depois da derrota para o Botafogo que colocou todo o peso do semestre no jogo da próxima quarta-feira.

Não quero dizer que estou fechado para argumentos contrários, mas que eles venham e não tolices de muitos que associaram primeiro as camisas nos rostos com burkas, elas ao terrorismo e depois fazem a ligação direta entre signo e significado, ignorando o contexto de utilização e quem os está produzindo.

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: Jorge “Pinto” Corpas, 2007, sobre Paulo-Roberto Andel

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