Somos todos culpados (por Marcus Vinicius Caldeira)

7 1 la nacion new york times

Sou torcedor de arquibancada desde sempre. Sempre gostei de futebol, do Fluminense e de frequentar os estádios. Desde 1987, se perco três ou quatro jogo do Tricolor das Laranjeiras no estádio é muito. Esse tempo todo frequentando o Maracanã e outros estádios torcendo pro meu Fluminense me ensinaram muitas coisas. Dentre estas coisas, algumas são fundamentais para compreender este esporte magnífico chamado futebol:

  • No futebol são onze contra onze, em campo (parece óbvio, menos para alguns);
  • Times inferiores tecnicamente podem ganhar de times superiores tecnicamente;
  • Goleadas acontecem por grande disparidade técnica entre os times ou quando um dos times joga muito mal aquela partida.

Pois bem, ontem, a seleção brasileira, pentacampeã do mundo – frequentadora de todas as copas do mundo, que nunca havia perdido uma partida em Copa por uma diferença superior a três gols – enfrentou a Alemanha, um time superior técnica e taticamente ao nosso, mas que poderíamos encarar, e uma vitória brasileira seria considerada normal, ainda mais que a Copa está sendo realizada pelas bandas de cá.

Só que o resultado final da partida não foi normal. O placar foi 7 x 1 para os alemães. Um resultado digno de um time grande contra um Íbis nos áureos tempos de pior time do mundo. Uma aberração.

Incrédulos, durante muito tempo irá demorar a cair a ficha para assimilarmos essa acachapante derrota. A Alemanha não é sete vezes superior à seleção brasileira para justificar essa goleada incrível.

Sim, houve apagão do time por trinta minutos no primeiro tempo, o suficiente para que a Alemanha construísse boa parte do placar exagerado. O apagão do time foi um dos motivos da derrota. Mas seria muito simplista justificar a goleada sofrida apenas pelo apagão em campo.

O futebol brasileiro já tinha tomado um aviso de que as coisas por aqui não iam bem se comparado com o resto do mundo, quando o Santos de Neymar (o queridinho da midia) e Muricy (“professô” cantado em verso e prosa por aqui) tomou uma porranca de quatro do Barcelona de Messi e Guardiola, onde o placar elástico foi o que menos importou. O relevante foi o fato do Santos não ter visto a cor da bola durante todo o jogo.

Mas o staff do futebol brasileiro ignorou solenemente o aviso.

O resultado está aí nesta semifinal de Copa.

Numa goleada como essa não tem um culpado ou meia dúzia de culpados. Todos são culpados. Do presidente da CBF ao torcedor que agora resolve apontar dedo para esse ou aquele, mas que comete tantos erros na sua conduta enquanto cidadão quanto Fernandinho cometeu no jogo de ontem.

O treinador é culpado. Felipão achou que tinha encontrado a fórmula de jogo com esse grupo ao conquistar a Copa das Confederações. Um 4-2-3-1 com Hulk e Neymar abertos e Fred centralizado. Deu certo no torneio do ano passado. Não significa que daria certo sempre. Não deu na Copa. A bola não chegava no Fred. Hulk não jogou nada durante a Copa inteira. E Neymar só foi importante na fase de grupos.

Sem testar alternativas, sem variações táticas e treinando muito pouco a seleção, Felipão ficou refém de um esquema que não funcionou. Além disso, o treinador não levou um meia armador clássico passador. Oscar é um corredor assim como Willian e Bernardo. E este meia fez muita falta. Podia ter levado Kaká, Ronaldinho ou Ganso.

Mas não foi só o Felipão.

Os jogadores também não empolgaram durante a Copa. Os únicos que se salvaram foram David Luis, e Thiago Silva. A zaga foi o melhor dessa seleção. Mas bastou uma peça sair – Thiago Silva  – e o melhor da seleção se tornou o pior em um jogo.

Luis Gustavo chegou a surpreender, mas no jogo final, como todo o meio-campo, atuou mal demais. Não faltou garra aos jogadores, mesmo na porranca de ontem. Mas faltou o algo mais. E principalmente, organização, seriedade e entender que futebol é coletivo.

Oscar foi péssimo! Neymar individualista, querendo ser o cara da Copa e totalmente improdutivo depois da fase de grupos. Fred não recebia bola, ao mesmo tempo ficava enfiado entre os zagueiros. Só conseguiu aparecer quando saiu pra buscar jogo. Daniel Alves foi tão mal que até perdeu a posição. Mas, ainda assim, o Brasil poderia ter feito uma partida melhor contra a Alemanha.

Mas não foram só os jogadores.

A mídia e a imprensa tem muita culpa no cartório. No começo da Copa alertei para o oba-oba da TV Globo dentro da Granja Comary com exclusivas com jogadores, treinos transmitidos ao vivo e o escambau. A imprensa sempre jogou contra essa seleção levando aos jogadores uma pressão desnecessária. E ela, de cara, escolheu seus bodes expiatórios: Fred, Oscar e Paulinho. Enquanto isso, Neymar, que não fez nada na fase de mata-mata, era intocável nas críticas.

E o pior papel da mídia aconteceu quando da contusão de Neymar. Só se falou nisso como se o Neymar estivesse acima da seleção. Digo e repito: Neymar é um moleque mimado pela mídia e que, se dependermos só dele, não seremos campeões do mundo tão cedo. Não por causa do seu futebol, mas pela sua postura. Comparem as posturas do Messi e do Neymar e sintam a diferença.

Fora da Copa a Tv Globo manda e desmanda no futebol brasileiro sem se importar com a esportividade. O negócio é a audiência. E os clubes ficam de pires nas mão para ela. O que dizer da nova política de cotas de TV patrocinada pelo Plim-plim que irá espanholizar o futebol brasileiro uma vez que Corinthians e Flamengo receberão montantes vultuosos em detrimento dos demais.

Mas não foi só a mídia.

O que dizer da governança do futebol brasileiro? Uma seleção cercada por cifras milionárias e contratos de tudo quanto é tipo. Uma CBF comandada por verdadeiros gangsters bem como as federações estaduais. Para completar, uma Lei Pelé que asfixia os clubes brasileiros.

Técnicos defasados, muitos jogadores individualistas e egocêntricos, uma mídia hipócrita, mentirosa e interesseira e uma governança mal conduzida. Este é o resumo do futebol brasileiro hoje.

Em contrapartida, a Alemanha prepara sua seleção há anos. Reestruturou seu campeonato nacional com preços mais acessíveis dos ingressos, divisão equânime das cotas de TV, teto salarial, entre outras medidas. Resultado: campeonato com estádios completamente cheios em todos os jogos, muito disputados e os clubes mais fortalecidos, o que permite gerar bons jogadores para a seleção. Sem falar num puta investimento na base promovido pela própria federação de futebol alemã.

E a preparação dos germânicos para a Copa já no Brasil? Mandaram construir um complexo em Cabrália, litoral da Bahia, onde treinavam a uma da tarde para adaptação ao clima e depois liberavam seus atletas para ficarem com a família na praia paradisíaca. Sem contar que o time tem variações táticas e, apesar de possuir excelentes jogadores, joga de forma coletiva.

Ou seja, a antítese do futebol brasileiro e da preparação da seleção brasileira.

A goleada foi exagerada, mas merecida.

Torcida e imprensa vão apontar dedos para culpados. Felipão! Parreira! Oscar! Fred! Daniel Alves! Paulinho! E por aí vai. Isso faz parte da cultura do brasileiro – agravada pela lavagem cerebral das novelas globais – de se achar heróis e vilões e nunca se sentir culpado por nada que acontece.

O pior é o fato de que nas vitórias todos amam o futebol, seus clubes e a seleção. Nas derrotas é “não dou trela”, “eles estão ricos, vamos trabalhar”, “é só futebol”. A hipocrisia está impregnada no DNA do brasileiro.

Tudo errado.

Na outra quarta estarei que nem um louco torcendo pelo Fluminense. Amo o clube e o futebol. Não sou hipócrita. A derrota de ontem foi doída porque gosto de algumas peças desse time: David Luis, Thiago Silva, Marcelo, Parreira, Fred e Felipão. E porque sou brasileiro e futebol é minha paixão desde sempre, embora o Fluminense seja muito mais importante pra mim que a seleção brasileira.

Mas há de se juntar os cacos.

Espero que desta derrota o futebol brasileiro seja repensado.

Não será.

Sinto pelas crianças. Mas, que elas aprendam que a vida é feita de vitórias e derrotas.

Enquanto isso, sinto-me um pouco culpado. No mínimo por impotência.

Que volte o campeonato brasileiro.

Preciso do meu Fluminense.

O tempo não para.

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Final da Copa: Alemanha x Argentina

Alemanha e Argentina democratizaram seus campeonatos com cotas de distribuição mais equânimes.
Com isso, mais clubes saem fortalecidos. Com mais clubes mais fortalecidos melhoram os campeonatos, a base; enfim, um efeito cascata.

A Argentina segue exemplos como Alemanha, Inglaterra e Itália no momento de repartir o dinheiro da TV. Na Itália, 40% é dividido igualmente entre os clubes, 30% se divide através do desempenho dos times no campeonato anterior e os outros 30% são baseados no tamanho da torcida.

Os clubes da Bundesliga, por outro lado, negociam de forma coletiva e recebem praticamente a mesma quantia. Já a Inglaterra reparte o dinheiro da TV em: 56% igualmente entre as equipes, 22% de acordo com a classificação na última edição do campeonato nacional e 22% partindo do número de jogos transmitidos pela televisão.

Aqui a CBF com sua subserviência à TV Globo vai na contra-mão: a partir do ano que vem, Flamengo e Corinthians receberão muito mais dinheiro da TV que os demais clubes, numa verdadeira tentativa de espanholização do futebol brasileiro.

O que já está ruim, será ainda pior.

A final Argentina x Alemanha é merecida pela forma como os dois países conduzem seu futebol local.

Aos brasileiros só nos resta mudar este estado de coisas, ou sofrer com derrotas acachapantes como a de terça.

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Como escreveu o filósofo alemão Nietzsche: “É preciso um caos dentro de si para gerar uma estrela brilhante”. A hora é essa.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @mvinicaldeira

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4 Comments

  1. excelente!! Esses jornalistas ignorantes que comentam nessas emissoras só querem achar bodes expiatórios e não falam dos reais problemas da governança do futebol brasileiro.

  2. Me perdoem todos, todos mesmo, porque nunca achei futebol que bastasse o nível estratosférico a que Davi Luiz foi alçado. Puro marketing pessoal no visual, nas bicudas pro mato, nas expressõe ferozes, etc, e muita $$ no bolso em publicidade. Ah fez 2 gols, o “da classificação” contra a Colômbia, etc, mas quando precisou dele para o que dele se esperava como zagueiro, em 4 daqueles gols da pane nem aparece na foto. Queria partir sozinho da defesa driblando como se fosse Edinho mas tá longe…

  3. (continua) quis ser meia, atacante, lateral-esquerdo, e já que foi citado máximas do futebol, aí vai mais uma: “quem diz que joga nas 11, é ruim em todas”. Pobre Thiago Silva, carregou Luis Alberto e carregava o midiático cabeludo apenas esporadicamente, agora vai ter que carregá-lo até no clube, todos santo dia !!.
    O que é Hulk?
    a) um super-herói
    b) um bundão (segundo a mulherada)
    c) um jogador de futebol
    d) a e b estão corretas

    Cravo d) fácil.

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