Sócio Futebol: ser ou não ser (por Paulo Tibúrcio)

IMG_20141011_154039Eis a questão.

A discussão sobre a adesão ao programa Sócio Futebol não é um fato novo, isto já vem ocorrendo há algum tempo. Mesmo assim, gostaria de passar a minha visão de torcedor sobre o assunto, de acordo com o que eu tenho percebido do atual momento do nosso Fluminense.

Faço um esforço para voltar ao tempo de infância, meados da década de 70. Minha memória não me permite muitos detalhes sobre este já distante período, mas arrisco dizer que torcer era simples. Uma camisa com o escudo (sem se preocupar tanto com a marca do fornecedor), um radinho de pilha, alguns trocados para comprar o saudoso Jornal dos Sports, álbum de figurinhas. Assistir aos jogos nos estádios era o grande evento. O Maracanã era (ainda é?) o grande templo.

Nesta época, eu ainda não usufruía deste privilégio; minhas oportunidades de ver o Fluminense eram sempre no Campeonato Carioca, no simpático Raulino de Oliveira, contra o brioso Voltaço. O resto era rádio e jornal. A TV, só existia a aberta, transmitia ao vivo para o interior alguns jogos do Maracanã e na maioria das vezes a reprise em horário absurdamente tarde (hoje se joga neste mesmo horário). Internet? Aos mais novos, acreditem, conseguíamos viver sem isto. E éramos felizes.

E o que isto tem a ver com o título da crônica? O saudosismo tem seu aspecto positivo. Lembrar-se das coisas boas do passado pode nos aliviar da dureza do presente e até mesmo pode nos inspirar o futuro. Mas os tempos mudaram e, do ponto de vista prático, temos que ter a resiliência necessária para nos adaptarmos a novas realidades.

A citação ao passado do futebol é a motivação para a seguinte pergunta: de que viviam os clubes, naquela época? De certa forma, as despesas e receitas tinham características bem diferentes das atuais. Citando apenas alguns pontos. Os salários dos jogadores eram menos inflacionados, em comparação aos atuais. O “bicho” e demais premiações tinham uma importância muito grande no orçamento de um boleiro. Existia o mecanismo do passe, sendo os clubes detentores absolutos dos direitos do jogador. Não querendo entrar no mérito desta relação, a venda de um jogador quase sempre permitia um bom aumento de caixa. Os jogos também costumavam proporcionar alguma renda.

Hoje o cenário mudou. O futebol virou business, os jogadores viraram astros e veio a Lei Pelé. A espetacular possibilidade de ganhos veio acompanhada de um impactante aumento de despesas. A maioria dos clubes se endividou devido a administrações amadoras e irresponsáveis, tornando-se reféns da televisão e dependentes de patrocinadores.

No que diz respeito ao Fluminense, a situação não é confortável. A parceria com a patrocinadora, que nos tirou do atoleiro no passado (há que se admitir), hoje se encontra fragilizada. No meu entender, o rompimento é inevitável, podendo ocorrer mais cedo do que a maioria espera. Em relação a outras receitas, a televisão já deixa claro que quer seguir o modelo europeu, ou seja, um grande aporte de dinheiro para os dois clubes mais populares, independente de colocação no campeonato, e criação de grupos de times com escalas de valores decrescentes, estando o Fluminense em uma posição pouco confortável nesta distribuição.

O momento do clube não ajuda. A atual gestão, apesar dos avanços, ainda tem apresentado muitas falhas. Não conheço de muito perto o dia-a-dia do clube, mas quem acompanha algumas redes sociais ligadas ao Flu, ou quem tem contato com alguém mais próximo da política do clube, não raramente escuta questões de contratações de profissionais para áreas administrativas com bons salários, mas sem o respectivo bom desempenho na função. No que envolve o futebol, temos um time caro, mas sem nenhuma vibração em campo.

Diante deste cenário, porque entrar para o Sócio Futebol? O torcedor pensa, e com alguma razão: Gastar meu dinheiro com uma estrutura que não me traz nenhum retorno? Para que se engajar em um modelo ganha-perde?

Sou um torcedor comum, daqueles que tem o elemento razão muito presente, mesmo em uma atividade tão passional que é torcer por um time de futebol, de forma que gostaria de passar meu motivo de ter se tornado sócio torcedor recentemente. Meu intuito é apresentar esta ideia justamente para o torcedor menos envolvido. Para aquele que se afasta quando percebe a má condução dos destinos do clube, mas que ainda assim tem o Fluminense como algo importante em sua vida.

O Sócio Futebol talvez seja a forma mais sólida de dar ao clube alguma sobrevivência digna nos anos vindouros. Meu raciocínio se baseava na premissa de que eu entraria como sócio quando o clube se estruturasse melhor, quando se tornasse mais profissional, mais transparente.

Mas percebi que a lógica é invertida.

Na verdade, o Fluminense só irá se tornar melhor quando tiver um número suficiente de sócios torcedores dando sustentação a um projeto para o futebol. Um clube com um efetivo grande de sócios dará respaldo para melhor negociação com a televisão, contrato de patrocínio, relação com o Maracanã. E tem o mais importante, o direito a voto. Votar nos dá o poder de influenciar na política do clube, de criar mecanismos mais efetivos de participação, de aprimorar o processo. Enfim, de transformar a relação torcedor-clube em um modelo ganha-ganha.

Por isto, de torcedor comum para torcedor comum: se a instituição Fluminense é importante para você, pense na possibilidade de adesão ao Sócio Futebol. Que ninguém faça sacrifício orçamentário, mas se sua situação financeira permitir, pense nisto. Temos potencial para 40, 50… 100 mil sócios do futebol. Utópico? Não considero. Já vivi muitos momentos com esta torcida que mostrou a força do tricolor, precisamos canalizá-la em um projeto maior.

Associe-se.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: isabela cabral ft

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