Sobre Celso Barros (por Eric Costa)

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Quarta de manhã. Ao sabor do primeiro de vários goles de café na enfermaria de clínica médica do hospital universitário, escuto versos de um poeta gaúcho aos fones de ouvido:

“Você olha a seu redor e acha melhor parar de olhar”, diz Gessinger.

Em sequência, “por acaso, por engano, só para contrariar”, abro as notícias do Fluminense do dia.

Solenemente, leio uma das manchetes. Logo, ela me chama atenção e dou-me ao dever de ler a notícia. Uma, duas, três vezes.

Em poucas ocasiões, um verso de música havia sido tão imediatamente profético.

Dez linhas destilaram ódio, preconceito e covardia, em um momento para o clube no qual o alto nível de discussão deveria ser prioridade.

Gostaria de conhecer os envolvidos em noticiar estrategicamente que o candidato Celso Barros esteve recentemente internado em uma clínica de reabilitação para tratar de sua possível dependência do álcool.

Neste papo, que pode ser justamente este texto, gostaria de dizer aos envolvidos que, em primeiro lugar, sequer tenho preferência política por este candidato.  Minha profunda indignação e repulsa neste instante é por se utilizarem de uma causa, real ou suposta, de saúde mental para incutir às mentes dos torcedores uma eventual incapacidade de Celso Barros em dirigir o Fluminense caso vença.

O alcoolismo, condição atribuída pela reportagem ao candidato, é uma das doenças mais comuns e prevalentes de nossa sociedade. A dependência do álcool, muitas vezes, desenvolve-se nos indivíduos ao longo de anos, de forma sorrateira e trazendo consequências ao convívio social e ao estado mental dos indivíduos acometidos por ela.

No Brasil, mais de 70 por cento dos adultos já realizaram uso de álcool na vida.

Você, que está lendo, provavelmente o fez. Aquele que plantou informações, provavelmente também. Estima-se que parte importante destes indivíduos que já utilizaram álcool, tenham este hábito de etilismo como frequente e que parte deles desenvolva a dependência do álcool.

A dependência do consumo frequente e em geral em grandes quantidades de álcool para a manutenção daquilo que o indivíduo entende distorcidamente ser seu bem-estar, trazendo consequências ao seu estado mental e de convívio social configura o alcoolismo: uma doença crônica, com causas multifatoriais.

Dados da última década estimam que 14,5% dos que fazem uso regular de álcool sejam dependentes da droga.

O alcoolismo é uma doença tão enraizada em nossa sociedade quanto o preconceito em relação à saúde mental. Ao leitor atento, perceba que em parágrafos anteriores sempre me referi aos percentuais de alcoolismo na sociedade com o verbo “estimar”.

Estima-se e não se afirma, amigos, porque o alcoolismo é uma doença que tem como principal barreira em sua aceitação e abordagem pelos serviços de saúde dois elementos: a falta de aceitação do indivíduo e o preconceito social.

Daí, lanço aos responsáveis pela covardia dois questionamentos. Primeiro, em que interferiria um candidato no processo eleitoral de nosso clube um indivíduo eventualmente acometido por um transtorno de ordem mental para o qual existem diversas abordagens de tratamento estar admitindo o seu problema e buscando tratamento adequado? Segundo, gostaria de compreender se o caráter das propostas de quem eventualmente está ligado a plantação desta notícia na imprensa é de fato tão vazio assim para que se necessite apelar a covardias quanto a saúde de um indivíduo, cujo direito à informação é dele e somente dele.

O Fluminense, como bem dito por Paulo Roberto-Andel, é um clube fundamentado há mais de um século em princípios éticos. Em certas páginas da história, acabamos reproduzindo erroneamente preconceitos arraigados na sociedade, mas lutamos há incontáveis décadas para nos livrarmos das amarras destes primórdios do clube. Somos um clube que sempre buscou a formação integral de seus atletas como seres humanos e, inclusive, abraçando-os nas situações em que sua saúde mental necessitava de auxílio, como no caso Maicon.

A quem for responsável por proferir tal tipo de injúria à integridade do candidato Celso Barros ou de qualquer outro tricolor de forma carregada de preconceitos, o meu mais profundo repúdio.

Por fim, aconselho, inclusive, a candidatos, sócios, conselheiros e torcedores que fundamentam suas discussões neste tipo de acusação que, talvez mais do que o eventual consumo de álcool, a produção voluntária e compulsiva de mentiras de fato configura um ser humano que necessitaria de atenção psicológica.

Como médico que serei dentro de seis meses, sinto-me na obrigação de posicionar-me diante deste ocorrido.

Que nestas eleições vença o Fluminense.

Saudações tricolores.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @ericmcosta

Imagem: ec

 

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