Sobre Artur da Távola e a essência tricolor (por Aloísio Senra)

Tricolores de sangue grená, a vitória maravilhosa contra o Palmeiras, sem dúvidas, merece destaque nesta coluna, bem como o jogo contra o Avaí, mas não posso deixar passar algo talvez mais importante que isso: o reencontro de parte da torcida com a identidade tricolor. Sim, digo “parte” porque existe uma parcela significativa da nossa torcida que, devido à carência de vitórias e títulos, promove um verdadeiro “topa tudo por dinheiro” em sua lista de desejos. Nos últimos tempos de dominância mulamba, em que os modinhas têm pulado a cerca – e já vão tarde -, é importante recuperar os valores que fazem do Fluminense um clube, de fato, especial e gigante. Do contrário, arriscamo-nos a sofrer uma metamorfose que nos colocará cada vez mais parecidos com aqueles que tanto desprezamos. Essa questão sempre me remete ao texto “Ser Fluminense”, de Artur da Távola. Muitos dos valores que, como tricolor, absorvi durante a minha vida, estão contidos nesse texto. Quem quiser lê-lo na íntegra, pode fazê-lo CLICANDO NESTE LINK:

O texto, uma obra-prima, trata, entre outras características tricolores, de lealdade, de limpeza, de sentimento racional e emoção digna e discreta. Fala de modéstia, de calar o orgulho sem perdê-lo, e de reconhecer a qualidade alheia, mas também de rejeitar abuso, soberba, arrogância, suborno ou hipocrisia. Artur sabia que os tricolores gostavam de talento, honradez, poesia, trabalho, justiça e criatividade. E que o mais importante não é ser o melhor, mas ser certo; não é vencer a qualquer preço, e sempre colocar metas mais altas, jamais perdendo a esperança até o minuto final. Tudo isto e muito mais é a síntese do que realmente é torcer para o Fluminense. Escolher um time de futebol, para a maioria das pessoas, é um ato superficial: você simpatiza com as cores, com o hino, com as conquistas, com os ídolos… mas raramente com os valores. A maioria sequer se importa. E este é mais um diferencial que nos separa do resto: muita gente se importa. Ou, pelo menos, se importava.

O fenômeno do qual trato está longe de ser recente, mas intensificou-se e começa a ameaçar nossas fundações. Se antes tínhamos apenas alguns torcedores não representando esses valores, ao longo das últimas décadas tivemos dirigentes e jogadores, e a coisa banalizou-se de vez nos últimos anos. Vimos tricolores indo até as últimas consequências para defender seus “lados”, seja por simpatia à causa ou interesses escusos. De estouro de champanhe por rebaixamento não consumado por culpa de outrem, passando por patrocinador querendo mandar mais do que o presidente do clube e culminando com presidente do clube acionando o Fluminense na justiça para impedir que suas contas já aprovadas fossem auditadas, passamos por momentos que não condizem com os valores apregoados pelo Fluminense Football Club. A sequência vitoriosa durante certo período também inebriou a muitos: passaram a valorizar mais as vitórias do que qualquer outra coisa. E isso é um problema.

É óbvio que uma equipe que tem o futebol em seu nome precisa jogar para vencer e conquistar títulos. Mas, a cada temporada, são poucos os títulos em disputa, e muitos aqueles que os perseguem. Desde 2012, só faturamos um título, a Primeira Liga em 2016, que nasceu infelizmente morta pela empáfia de muitos dirigentes – entre eles o mandatário do Flu à época. Então, se você torce pelo Fluminense apenas para vê-lo campeão, o que fará se ele não consegui-lo? Trocará de time? Virará a famosa casaca? Desistirá do futebol? A resposta é de cada um, mas há um slogan famoso que lhes dará o motivo fulcral: nós somos a história. Mais importante do que quatro Brasileiros, uma Copa do Brasil e os trinta e um Cariocas, além do título Mundial e os Torneios Rio-São Paulo, é tudo o que o Fluminense representou e representa. Os valores supracitados são complementados com o pioneirismo histórico, a participação na Segunda Guerra, o título devolvido por irregularidade descoberta, o recebimento do Prêmio Nobel do Esporte e muito, muito mais. Nossa história é riquíssima.

Nenhum outro time teve Preguinho ou Castilho. Que outro presidente foi mais importante que Arnaldo Guinle e Marcos Carneiro de Mendonça? O berço do futebol do Rio de Janeiro é nosso. Sem poder jogar nele em seus primeiros suspiros, todos os demais clubes importantes do Rio de Janeiro estariam remando até hoje. Eu poderia falar mais, mas acredito que já me fiz entender. Ser Fluminense também é beber de uma fonte inesgotável de glórias e realizações, muitas das quais são abstratas e não são representadas por taças ou medalhas. E entender isso é se conectar profundamente com o que representa o clube da Álvaro Chaves e realmente sentir que o Fluminense é e será eterno por tudo o que já fez, faz e fará. É de urgência extrema que ensinemos esses valores não só aos nossos filhos, sobrinhos e netos, mas também aos amigos, aos desconhecidos e aos leitores. Espero ter contribuído, nem que seja um pouquinho, para tornar isso possível.

Curtas:

– Mais uma vez o Fluminense frustrou uma galera, principalmente os caras que faturam uma grana fácil nos veículos de mídia falando o óbvio. Os 31.000 que foram ao Maracanã já sabiam no que ia dar.

– Bela atuação de Dodi. Quem diria. Digão monstruoso. Marcos Felipe seguro (ainda bem!). Até o Gilberto me fez passar um pouco menos de raiva. E que cagada do menino Marcos Paulo. Foi cruzar e entrou. Sorte de artilheiro.

– O Avaí perdeu outra. Só o Cruzeiro (que perdeu pro CSA e tá na ladeira pra ser rebaixado) não conseguiu ganhar deles. Apesar dos desfalques que teremos (Digão e Daniel suspensos, Airton e Ganso lesionados), temos todas as condições de acabar com essa conversa de rebaixamento de uma vez por todas nesse domingo. Basta jogar o que temos jogado e calibrar o pé e a cabeça nas finalizações.

– Continuamos a um pontinho da vaga para a Copa Sul-Americana e, mesmo se Ganso não conseguir retornar ao time, temos plenas condições de buscá-la. Se vencermos Avaí nesse domingo e Fortaleza na quarta-feira, ficaremos muito perto de atingir este objetivo.

– Guia do secador: 36ª rodada (jogos do domingo) – Goiás x Fortaleza (Goiás), Atlético-MG x Corinthians (Corinthians), CSA x Bahia (CSA), Vasco x Cruzeiro (empate); 37ª rodada – Atlético-MG x Botafogo (empate), Ceará x Corinthians (Corinthians), Chapecoense x CSA (Chape), Grêmio x Cruzeiro (Grêmio), Bahia x Vasco (empate).

– Palpites para as próximas partidas: Avaí 0 x 2 Fluminense; Fluminense 2 x 1 Fortaleza.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

#credibilidade

2 Comments

  1. Discordo do seu comentário sobre a cagada do Marcos Paulo. Na minha opinião, ele quis fazer o gol. Olhe como ele tocou na bola, que vc perceberá que a intenção dele era mesmo cobrir o goleiro. ST

    1. Marcos, pode discordar à vontade, querido. Meu comentário se baseou no replay do gol, no qual se vê claramente ele batendo de chapa na bola visando cruzá-la. Ele nem olha pro goleiro direito. Mas o que importa é o gol e os três pontos, não importa a fonte. Abraços e ST!

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