Sobre a legalidade e o casuísmo imoral (por Rodo)

rodo red

Tenho certa aversão a mecenas. A quem interessar possa, segundo o dicionário, a palavra “mecenas” significa: indivíduo rico que protege artistas, homens de letras ou de ciências, proporcionando recursos financeiros, ou que patrocina, de modo geral, um campo do saber ou das artes.

No mundo real, ou no reino das Laranjeiras, é aquele sujeito que surge do nada, injeta dinheiro no clube e depois passa a ter funções de investidor, acreditando ser acionista majoritário da “companhia”. Lembrou-se de alguém? Pois é, Celso Barros é um exemplo claro disso, ainda que o dinheiro tenha sido sempre da Unimed, nunca dele mesmo. Vale ressaltar que esse tipo não aparece somente nas Laranjeiras, mas também em outros clubes, vide Paulo Nobre, presidente do Palmeiras, que empresta do próprio bolso ao Clube. O problema,é que uma hora a conta chega.

Pensei que, com a saída da Unimed, estaríamos livres do nosso. Ledo engano. A torcida que já fez até bandeira para o Celso Barros e depois passou a odiá-lo no momento do rompimento da parceria, quando até no Flamengo ele tentou colocar o Conca, parece que já se esqueceu dos males de ter um mecenas. Assim como dirigentes, e diria até mesmo como o brasileiro de uma forma geral, adoram um dinheiro fácil, aquele que vem sem muito esforço, sem trabalho de marketing e sem capitação, o dinheiro que cai do céu. Como diz o ditado, não existe almoço grátis, mas existem aqueles que acreditam nisso.

Frequento o clube desde 1998. Após o segundo rebaixamento consecutivo, eu passei a frequentar as reuniões da Vanguarda Tricolor, acreditando que poderia fazer alguma coisa para impedir que levassem o Fluminense à falência. Muita água rolou de lá pra cá, conheci muitas pessoas e falo com muitas delas, independente de poder ou não estar presente fisicamente na vida social do Fluminense, já que não moro no Rio de Janeiro. Nesse tempo, jamais ouvi o nome do Pedro Antônio por lá. A primeira vez que isso ocorreu foi quando o Fluminense tentou adquirir o clube de golfe Banana Golf para a construção de seu Centro de Treinamento, que pertencia ao Pedro Antônio.

Tudo parecia caminhar bem, quando soube que houve uma proposta mais interessante e o Pedro Antônio desistiu do negócio. Faz parte; mesmo sendo torcedor, é um homem de negócios e deve sempre fazer o melhor negócio para seus empreendimentos. Sem o Banana Golf, o presidente Peter Siemsen teve que buscar uma alternativa, pleiteou junto à prefeitura um terreno para que pudesse construir o CT, e conseguiu. De quebra, ainda arrumou investimentos no centro de treinamento do Flamengo, e um terreno para Vasco da Gama e Botafogo. Sim, a luta não foi dos clubes, foi do Peter, e isso não pode ser ignorado. A prefeitura permitiu ao Fluminense escolher entre três terrenos disponíveis o que lhe interessava, já que foi o clube que ofereceu o projeto. Em troca, o centro de treinamento, quando pronto, dará apoio às crianças da comunidade da Cidade de Deus e Gardênia Azul, próximas ao terreno.

Mesmo com a negociação pelo Banana Golf fracassada, Peter Siemsen e Pedro Antônio se tornaram próximos. Da proximidade surgiu a oportunidade de o Pedro Antônio se tornar Vice Presidente de Projetos Especiais, um cargo criado exclusivamente para tocar o projeto do Centro de Treinamento, já que ele tem experiência como empreiteiro e em administração de ambientes parecidos. Até aí nenhum problema, tem experiência, contatos com empreiteiras e poderia muito ajudar o Fluminense, até porque o cargo de Vice-Presidente nem remunerado é. Abnegado é diferente de mecenas, não age por interesse. Bom para o Fluminense.

Pedro Antônio não se limitou a tocar o projeto, passou a investir no mesmo. Investimento financeiro, administração total, com carta branca para gastar o que achasse necessário. Claro, o Fluminense pagaria depois, uma espécie de empréstimo, afirmam até que já pagou o que deve, ainda que eu não acredite muito nisso. Pra mim uma faca de dois gumes; se eu dou carta branca ao investidor que toca o projeto inteiro como bem lhe interessa, corro o risco de pagar um valor acima do necessário depois. Não se trata de confiar ou não nas pessoas, mas em não criar a oportunidade de ser lesado. Até porque quem toca a obra pode fazer escolhas que gerem um custo mais elevado, como contratar pessoal para trabalhar 24h, como fez o Pedro Antônio – o CT sairá mais rápido, mas também onera absurdamente o projeto. Uma questão de escolha somente, mas como ele tem o dinheiro, pode se dar ao luxo de fazê-lo. A conta depois não vai sair de seu bolso, mas do bolso do clube.

Se o problema fosse apenas esse, que já não é pouco, temos outro ainda maior. Pedro Antônio passou a negociar coisas que não eram de sua alçada, como patrocinadores, quando quem deveria fazê-lo era o marketing do clube. Uma de suas negociações foi a Viton 44, que estampou o Matte Viton e o Guaravita em nossas camisas. Nessa negociação, acabamos por ceder as mangas da camisa para a empresa colocar os seus produtos sem ganhar nada com isso, e ainda tomamos uma volta do patrocinador que decidiu de forma unilateral não cumprir com o contrato. Isso foi bom para o Fluminense?

Agora estão inventando a possibilidade de se mudar o estatuto, que prevê o mínimo de cinco anos como sócio (proprietário ou contribuinte, sócio torcedor está fora) para se candidatar a presidente. O objetivo? O Pedro Antônio concorrer à presidência já na próxima eleição que ocorre esse ano. Um golpe? Não, já que não seria uma mudança durante a eleição, mas um casuísmo conveniente e minimamente imoral para beneficiar exclusivamente uma pessoa. O tempo de associação é grande para ser presidente? Talvez, acredito que seja, mudou há pouco tempo, em 2012. Que tal propor à mudança para o ano que vem? Aí sim, poderia ser o melhor ou não para o Fluminense e não o melhor para o Pedro Antônio.

Os boatos são que agora o Pedro Antônio partirá para a construção de um estádio para o Fluminense. Não duvido, existem projetos REAIS para isso, não entrarei em maiores detalhes, mas é um fato: o Fluminense terá um novo estádio, com ou sem a ajuda do Pedro Antônio. E se ele realmente quer ajudar nesse projeto e pode ajudar, porque não fazê-lo em uma próxima gestão? Só o faria se fosse o presidente? Se não for, ele perde o interesse de “ajudar” o Tricolor?

Se mudarem o estatuto unicamente para favorecer o Pedro Antônio, eu cancelo imediatamente o meu sócio torcedor. Como morador de São Paulo, tenho quase nenhum benefício, sou sócio porque amo o Fluminense, diria até que porque sou bobo. Sou bobo, mas não sou palhaço. Imagina se fosse o Celso Barros tentando o mesmo? Aqueles, que não veem nenhum problema no favorecimento ao Pedro Antônio, não estariam tão simpáticos assim à ideia de alteração no estatuto.

Panorama Tricolor

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Imagem: rod

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