Sobre a camisa de bolinhas (por Paulo-Roberto Andel)

“Vocês já viram a camisa nova do Fluminense?”

“Não. O que aconteceu?”

“Rapaz, agora está cheia de bolinhas!”

Coisa de trinta anos atrás. Seis anos sem títulos. O time era “bom, bonito e barato”. Brincadeiras à parte, vínhamos de um 1991 de muita luta: o Fluminense tinha chegado às semifinais do Brasileirão, à final do Carioca e fez uma ótima excursão à Europa.

Veio então uma camisa do Flu que dividiu sentimentos. Muitos a odiaram e muitos a adoraram para sempre. Uma novidade na camisa branca, que passou a ser chamada de “camisa de bolinhas” quando, na verdade, se tratava de um conjunto de linhas e figuras geométricas que, à distância, dava certo efeito visual mas que, de perto, causava estranheza pela ousadia artística.

Num primeiro momento, detestei. Cinco minutos depois, achei razoável. No dia seguinte já adorava. Tirando a estranha camisa listrada de 2014, praticamente gosto de todas as camisas do Fluminense. Não é só paixão, mas também porque as cores combinam demais. Agora, essa branca me lembra muita coisa legal: UERJ, Laranjeiras, Super Ézio a todo vapor, Renato, Bobô, Pires, Lira, mais Paulinho, Vica e o saudoso Renê, feras do tricampeonato de volta ao clube. Poucos lembram de Sérgio Manoel no Fluminense, com boa passagem. Alguns se lembram de Vagner Tanque no ataque. Rapidamente de Elói, um jogadoraço.

Naquele tempo, já começava a decolar o mercado alternativo de camisas, um tanto natural porque os grandes times têm milhões de torcedores que, em sua maioria, não dispõem de recursos para as camisas oficiais, sempre caras. Também já havia o problema de falsificação, de modo que a Penalty não somente estudou a questão visual mas também planejou uma arte que fosse mais difícil de falsificar.

Por muito pouco a “camisa de bolinhas” não quebrou o jejum tricolor de títulos. Foi com ela que decidimos a Copa do Brasil, perdida para o Internacional a minutos do fim do jogo, com o pênalti extraterrestre marcado por José Aparecido de Oliveira. Não fomos campeões por causa da garfada, mas o Fluminense foi de uma dignidade enorme.

O tempo passou e a camisa de 1992 envelheceu bem: ganhou admiradores, foi valorizada e agora é disputada em leilões e negociações na internet. Nem é preciso mais de aspas ou de precisão geométrica: a camisa de bolinhas é o que há.

Tempos depois, a Penalty seria substituída pela Reebok, criadora de belas camisas para o Flu, tanto com listras grossas e números bem grandes, como a espetacular branca, que reproduzia no peito e ombros a logomarca da fornecedora.

Fotos campo: Juha Tamminen

1 Comments

  1. Surpreendentemente, eu acho a mais bonita a camisa de 2010, que ficou um pouco abaixo em 2011, que deveria ser mais bonita pois era a do atual campeão.
    A mais esquisita eu ainda acho a da final de 84, com aquele patrocínio estranho no peito.
    Uma conversa de horas se sentarmos para analisar tanta história no tecido

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