Se o Fluminense fosse… (por João Leonardo Medeiros)

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…o Flamengo e/ou o Corinthians…

Fiquei imaginando como seriam as matérias da grande imprensa sobre a campanha do Fluminense neste brasileirão de 2016 se fôssemos o Flamengo e/ou o Corinthians. Arrisco abaixo algumas possibilidades

A REVELAÇÃO DO CAMPEONATO

A revelação do campeonato brasileiro não tem entrado em todos os jogos. Como acontece com as revelações de outros anos, há participações marcantes entremeadas por outras com menos brilho. O saldo, no entanto, é positivo, razão pela qual certamente em dezembro esse jogador subirá ao palco para receber o troféu de revelação do Brasileirão de 2016.

Vindo de um time de série B no início do ano passado, logo nossa revelação foi capaz de demonstrar talento para jogar na série A. Com fôlego que chama a atenção, tem sido capaz de fazer alguns gols e dar muitas assistências. O equilíbrio psicológico também é fantástico.

Aparentemente, não há nada o que o abale, que o remova da concentração e da dedicação ao esporte que pratica.

Não sabemos ainda se quem será o campeão desse ano. Mas a revelação do ano é… o grande Magno Alves. Parabéns artilheiro.

O DEUS DA RAÇA

Não há volante que consiga fazer sete gols num campeonato sem ter muita raça. Não há jogador que faça um gol no minuto final de um jogo contra o Corinthians em Itaquera se não tiver sangue nos olhos, coração de leão. O deus da raça tricolor tem nome: Cícero.
O volante-artilheiro lembra Falcão pela postura, Gerson pela clarividência do jogo e Denílson, o Deus Zulu, pela raça. Corpo ereto, cabeça erguida, coração na ponta da chuteira, Cícero tem feito de tudo um pouco nesse campeonato brasileiro de 2016. Marca, desarma, lança e, claro, faz gols.
Não fosse pelos trinta e dois anos, Cícero poderia estar nas listas de Tite. Aliás, deveria estar, porque seleção é momento e, no momento, nenhum outro volante brasileiro tem aliado desempenho ofensivo e defensivo de modo tão eficiente quanto o camisa sete do Fluminense.

CAIU EM EDSON PASSOS, ABRAÇOS

A Baixada é Fluminense, o grande Rio também. O Fluminense tem, em Edson Passos, a maior taxa de ocupação deste Brasileirão de 2016. No estádio sempre lotado, a torcida tricolor tem brindado o Brasil com seus conhecidos espetáculos.

Que torcida é essa? Quem ainda pensava que o Fluminense fosse um clube aristocrático, da zona sul da cidade do Rio, deve estar boquiaberto com a presença no humilde estádio do município de Mesquita. Os mais favorecidos misturam-se ali com a simpática e receptiva população local num congraçamento social que só um clube como o Fluminense poderia oferecer.

Há rumores que o sucesso na Baixada Fluminense é tão grande que os prefeitos de várias cidades da região enviaram ofícios ao Fluminense para pressionar o clube a estender sua participação na região. Nilópolis, Nova Iguaçu, Caxias e Belford Roxo, além de Mesquita, segundo dizem as fontes, reuniram-se em torno do projeto de expandir o simpático estádio do América para ele transformar-se na Arena dos Guerreiros, com capacidade para 80 mil pessoas. Seria um estádio dimensionado, portanto, para o tamanho da torcida na região.

SURGE UM NOVO MITO

Um novo Pelé, Maradona, Platini? Não, apenas um mito. O camisa dez do Fluminense é o melhor meia-atacante que o futebol produziu desde que Rivaldo e Bebeto aposentaram as chuteiras. Scarpa é o nome do menino.

O futebol extraordinário, que tem rendido vitórias ao Fluminense, já despertou a atenção de olheiros da Europa. Nosso correspondente na Espanha informou, de fonte segura, que Real Madrid e Barcelona disputam o grande camisa dez tricolor euro a euro. E a disputa já ultrapassa os 50 milhões de euros, podendo perfeitamente chegar a cem. Há quem diga que o Fluminense pagará sua dívida à vista apenas com a venda de Gustavo Scarpa.

Não deve estar sendo fácil para o menino prodígio. Dentro de campo, seu futebol tem feito os marmanjos enlouquecerem. Fora dele, seu visual anos trinta, com um discreto bigodinho, tem despertado a cobiça feminina. Menino de família, Scarpa não comenta sua vida privada, mas há quem diga que ele recentemente tornou-se noivo de uma atriz de novela conhecidíssima.

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São textos exagerados, absurdos? Claro que são. Mas é assim que os queridos da grande mídia têm sido interpretados e apresentados, há muito tempo. Gerações de torcedores de Flamengo e Corinthians foram educados no futebol lendo matérias tão estapafúrdias como essas. Com o passar dos anos, formou-se uma espécie de esquizofrenia coletiva, que já há muito tempo leva à aceitação e difusão bovina de “verdades” fabricadas pela imprensa vermelha, preta e branca.
Para ficar num único exemplo, diz-se que Flamengo e Corinthians têm, cada, 40 milhões de torcedores. O Brasil têm cerca de 200 milhões de habitantes, dos quais cerca de 30 milhões têm menos que 9 anos. Qual a chance de que quase metade dos restantes torça para Corinthians e/ou Flamengo? Não precisa muita reflexão para perceber que se trata de uma lenda. Mas não é isso que você escuta por aí?

Já diria o grande Joseph Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.” A nós tricolores cabe reagir à mediocridade e exercitar o senso crítico com relação aos outros clubes e ao nosso. Não, Magno não é uma revelação aos 40 anos (embora seja um fenômeno de longevidade), Cícero não é o deus da raça (embora seja um ótimo jogador), Edson Passos é um estádio acanhado e Scarpa não é o novo Pelé (embora seja um dos melhores meias do Brasil atualmente). O Fluminense não precisa de ópio para ser grande.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

3 Comments

  1. Excelente, João! Impressionante a dimensão dada a tudo que envolve os dois queridinhos da mídia.

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