Rubens, Preguinho, Castilho… (por Paulo-Roberto Andel)

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Em minha espiada diária no site O’ Tricolor – onde tive a honra de pertencer como escritor da casa -, com muita alegria revi na coluna de Cláudio Vieira meu velho herói, botão e ídolo Rubens Galaxe, hoje com 61 anos.

Os mais novos podem não saber, o que seria natural. Recordar é viver.

Rubens é um dos jogadores que mais vestiu a camisa do Fluminense na história do clube, com 463 partidas e 233 vitórias. Campeão carioca em 1971, 1973, 1975, 1976 e 1980. Depois de dez temporadas consecutivas, recebeu o passe livre e prosseguiu em outros times até encerrar a carreira de jogador. Fez parte da extraordinária e inesquecível Máquina Tricolor, mas também de times mais modestos, atravessou desertos e foi um dos grandes líderes do time campeão de 1980, recheado de garotos da base tais como ele foi um dia. Seus mentores no início de carreira foram simplesmente Zezé Moreira e Pinheiro. Tirando a posição de goleiro e a de zagueiro-central, jogou em todas as outras como profissional, o que demonstra seu espírito de equipe e grupo. Completamente isento de infrações disciplinares.

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Quase uma década à frente, Rubens voltou ao Fluminense, desta vez como auxiliar do treinador Edinho – os dois tinham atuado juntos praticamente durante todo o tempo em Laranjeiras. Eram tempos de escassez econômica, o país sofria a agonia inflacionária da Era Collor e suas decorrências. Trabalhou em duas temporadas, 1991 e 1993. O Flu não foi campeão com seus times “bons, bonitos e baratos”, mas brigou com dignidade pelos dois títulos estaduais daqueles anos – e não é demais dizer que perdeu o primeiro por ter sido prejudicado por Cláudio Vinicius Cerdeira na arbitragem. E disputou a semifinal do Brasileiro/91 contra o Bragantino. O ídolo daqueles tempos era um super-herói operário tal como Rubens tinha sido no passado: Ézio. Nunca é demais lembrar que o Fluminense não surgiu em 1999, 2000 ou 2002 e nem sempre precisou de fortunas monumentais para manter-se entre os gigantes do futebol brasileiro.

Em O´Tricolor, a notícia deu conta da insatisfação de Rubens com o atual estado das coisas no Flu. O principal foco foi o que todos sabem, mas muitos se calam – seja por anemia intelectual, miopia periférica ou pequenos favorecimentos pessoais que nada agregam às Laranjeiras: a ingerência do Sr. Celso Barros em decisões que deveriam ser exclusivamente do clube.  “Há dois gestores, o presidente e o patrocinador, que não sei por que tem tanta influência. É uma relação conturbada”, disse o velho herói. Suas palavras têm muito peso para mim: é alguém que conhece o Fluminense de verdade, que o viveu e reverenciou com seu trabalho e suor, que foi um vencedor mais jamais abriu mão da humildade. A linhagem de Rubens foi seguida por nomes como o de Marcão – que bom que ele pode nos ajudar mais uma vez, agora dentro do clube! – e, no atual time, por Darío Conca. Gum também, dentro do possível. Rafael Sóbis. Gente que não deu beijinho no escudo à toa.

O que se vê hoje no cenário tricolor é de desanimar qualquer pessoa de bem: politicagem chinfrim, discussões fora das ideias e amparadas em ofensas pessoais, ameaças, golpismo hipócrita, chantagem, dilapidação pública da imagem do clube, torcida contra torcida, jogador contra torcida, patrocinador contra presidente e vice-versa, agressões verbais, bajuladores vis em busca de oportunidades particulares diante de uma crise e, dentro de campo, resultados pífios, todos do melhor agrado à imprensa esportiva marrom, ávida por dar um tiro de fuzil na cabeça do Fluminense sempre que possível. Os pilantras das redações nem precisam se preocupar em inventar calúnias e distorcer manchetes: ultimamente o universo tricolor recente já os alimenta no melhor padrão delivery.

Donos das receitas infalíveis para salvar o clube que nunca administraram uma birosca – nunca o fizeram quando tiveram a caneta na mão. Gente que, quando lá esteve, geriu as contas tricolores em total subversão matemática capaz de reprovar qualquer garoto do Ensino Fundamental – ou que acha que todo mundo é suficientemente burro para não ter estudado suas trajetórias ou não se lembrar delas. Donos da licença de como se deve torcer nas arquibancadas. Parlapatões que sabem tudo e não são capazes sequer de raciocinar que não existe progresso dialético sem o contraditório. Gênios das frases mofadas, dotados de empáfia oca e pueril, pinçadas de orelhas de livros que jamais leram. Ah, claro, o dono do dinheiro que, por sê-lo, tem a chancela de alguns para pisar nos ovos de transeuntes e jogar contra o patrimônio histórico de um século, caso necessário. Nada mais anti-Flu do que tudo isso acima. Não cabe o ridículo: diante da grandeza da Terra, cada um de nós é um organismo minúsculo e desprezível que inevitavelmente será carne decomposta no futuro. Querer se considerar maior do que a instituição Fluminense é o desjejum ideal de um completo imbecil, seja rico ou pobre, estudado ou iletrado, seja o que for.

Enquanto isso, os cemitérios do Rio e do Brasil abrigam milhares de pessoas que fizeram muito pelo Tricolor. E continuam fazendo mesmo depois de muito mortos: qualquer criança que aprende as histórias tricolores de Marcos Carneiro de Mendonça, Preguinho e Castilho, dentre inúmeros nomes, apaixona-se pelas três cores imortais para sempre.

Diante disso tudo, um time que precisa de uma vitória expressiva logo mais contra o modesto – mas respeitável – Horizonte. Por que a derrota, mesmo considerada hipoteticamente plausível pelo mais caro jogador do elenco, joga o Fluminense numa rua da amargura ainda maior do que a que tem perambulado desde 2013. Cristóvão merece coisa muito melhor. Assim seja.

Em riste, a palavra simples e direta de alguém que é um dos grandes escudos do clube, caso de Rubens Galaxe, merece toda reflexão. Afinal, no mundo contemporâneo, onde para muitos somente o dinheiro está acima de tudo, um simples arroubo de vaidade do dono da firma pode simplesmente quebrá-la por arrogância e incompetência.

Por ora, se o jogo de logo mais acontecer sem violência dentro e fora do campo, preferencialmente com a classificação tricolor, terá sido a maior vitória de 2014 até aqui. Não pela Copa do Brasil em si, pois seria apenas mais um passo, mas para ajudar a impedir uma verdadeira tragédia, muitas vezes inflada por quem mais deveria combatê-la e defender com unhas e dentes o – colossal – ganha-pão.

Falei aqui de Rubens Galaxe, Pinheiro, Edinho, Ézio, Marcos Carneiro de Mendonça, Preguinho e Castilho. Se há algum Fluminense que precisa ser devolvido à torcida em campo, lembrando bem de meu amigo Celso Mendes, creio que seja esse. O Fluminense da ética, do caráter, do respeito aos companheiros de trabalho, torcedores, dirigentes, treinadores, funcionários, médicos.

O resumo é de cada um.

Nota: 1) meu respeito e solidariedade aos torcedores do Fluminense que foram atingidos dura e injustamente pela nota oficial emitida pelo jogador Fred pela rede social Facebook, dentre os quais me incluo, o que não quer dizer que ele não tenha feito críticas positivas nem deixado de apontar problemas graves, ainda que tenha errado a mão. No entanto, de vagabunda considero apenas a sugestão subliminar do apartheid na torcida dentro da mesma. Ainda conto com o bom-senso do jogador em retificar suas considerações e pedir desculpas aos que não são vagabundos e nem têm nas torcidas organizadas um meio de emprego: 99,9999%. Caso a literatura nas horas de folga lhe seja aprazível, Fred bem poderia navegar em “Do inferno ao céu”, livro de minha autoria em 2010 e o primeiro no Brasil a contar a trajetória do Time de Guerreiros, onde ele foi elogiado com justiça. 

2) Aos que consideraram louvável a atitude de Fred no sábado em relação à lida com os torcedores do clube, seguindo o princípio de versão única da história, sugiro – por questão de coerência e combate à patifaria – a reabilitação de um nome do passado do Fluminense: o goleiro Ricardo Pinto, titular em 225 jogos do Tricolor e com média de 0,93 gol sofrido por partida, – entre as três melhores da história do clube dentre os goleiros que atuaram em mais de 200 jogos. Nas duas vezes, os atos extremamente diferentes de reação das torcidas ocorreram por conta do mesmo gesto (obsceno) por parte dos jogadores, o que não significa qualquer justificativa mas apenas uma explicação. Como se sabe, Ricardo Pinto quase foi estupidamente assassinado em pleno gramado das Laranjeiras em 1996. Felizmente hoje tem paz e está com plena saúde. Felizmente também, Fred não teve um arranhão sequer e pôde escrever – ou ditar – ou reproduzir – a nota que quis. Que cada um possa considerar esta opinião em termos do drama, do rigor histórico e até mesmo da ribalta cabível aqui.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

6 Comments

  1. Precisamos de alguém que realmente pense o Fluminense como instituição, vejo o conselho tricolor como o senado romano, descrença e desconfiança até com as sombras, enquanto isso o clube segue sendo desrespeitado…ST.

  2. Ontem se viu no Maracanã , onde estive presente, o quão oportunista são uma facção de uma torcida organizada qdo ficou claro que , se o Fred tivesse feito uma ótima partida (não fez) e mais gols (fez um) não haveria protesto algum na arquibancada de uma “meia dúzia de um bando á toa”.

    Mas mesmo assim , feito o protesto , que considero legítimo, pois é o local sagrado para o torcedor se manifestar, deu no que deu: tomaram uma vaia do estádio o inteiro, sinal de que a torcida entendeu o ceto.

  3. Local de trabalho de jogador, quer vc goste dele ou não, não é lugar para torcedor fazer o que fizeram com o Fred.

    99,99% da torcida , nesse aspecto, está do lado do Fred.

    Quer ver o Fred fora do time e quer fazer pressão ? vai na casa do seu querido presidente do clube e o faça.

    Não vi ninguém q agora critica o Fred, fazer pressão na casa do Campinho da YOUNG por conta dos inúmeros casos de tentativas de agressão ao Fred nesses 5 anos de clube, pois falta coragem ,mas sobra via…

    1. Paulo-Roberto Andel:

      Caro MSB, ao contrário de você, eu assino o que escrevo. Por sinal, nem é norma do PANORAMA publicar comentários mal-educados de quem utiliza o anonimato como escudo da própria covardia. Foi uma exceção apenas. Abrir espaço para o chilique de um covarde.

      Seu completo desconhecimento a respeito dos fatos confunde-se com o que eu quero ou não. A rua é publica, O Fluminense não é dono dela, não houve agressão alguma e, mesmo que eu não concordasse com o protesto, não sou dono da verdade – ao contrário do que você demonstra – ou pretende ser – nestas linhas que escreveu, cheias de erros de português por sinal.

      Se você é baba-ovo do jogador Fred, o problema é seu. E se não gosta do presidente Peter, idem. Não preciso de nenhum dos dois para continuar trabalhando, embora respeite-os e critique-os quando acho necessário. Não é o meu caso em relação às viúvas de Horcades, geralmente esbaforidas contra Peter… dar gritinhos frenéticos ganhando de 4 x 0 com arquibancada cheia é fácil e oportunista demais.

      Quanto à sua opinião em relação ao meu trabalho, sugiro-lhe um dedão igualzinho ao que o Fred mostrou para os torcedores no sábado, razão da indisposição que gerou a “enorme crise”. Tenho certeza de que se você levar um dedão dele na cara, suas palavras vão mudar muito. Ou não…

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