Respeito à vida (por Paulo-Roberto Andel)

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Acabei de acordar cheio de dores físicas. Elas têm feito parte da minha vida, conforme a rápida passagem do tempo vai acontecendo de maneira cada vez mais injusta nessa terra louca.

Cinco da manhã, fico sabendo da passagem de um nobre torcedor do Fluminense em plena Allianz Parque (Antarctica), o palácio da modernidade futebolística do Brasil. A perda de um companheiro de arquibancada talvez fosse inevitável, mas inúmeros relatos de amigos e conhecidos presentes ao jogo contra o Palmeiras vaticinam: houve uma enorme demora para a remoção do paciente, além da mesma ter se realizado de forma precaríssima.

Longe da postura fascistoide típica de quem diz “se você não concorda comigo, você é um idiota”, não venho aqui às pressas e com dor para apontar o dedo e mandar quem quer que seja às masmorras. Mas a gravidade do tema faz pensar.

Hoje somos uma sociedade deslumbrada com o ter em lugar do ser. O futebol deixou de ser a casa das tradições populares para abrigar as classes economicamente mais abastadas. Afinal, no mundo é assim e a Fifa determinou o padrão. Como se sabe, em breve pesquisa sobre notícias da entidade mundial, é possível verificar que o bem comum tem passado longe dela.

Já que a Copa de 2014 e a “modernidade” do futebol exigem arenas em vez de estádios, com gourmetização e outras quinquilharias, esperava-se que o bem estar do torcedor não estivesse limitado a aquisições de bens e serviços. Num ambiente com cinquenta mil pessoas reunidas, segurança, saúde e socorro são itens essenciais.

Talvez, e apenas talvez, um atendimento mais rápido pudesse ter salvo o bem mais precioso que se tem neste planeta: a vida. Talvez, e apenas talvez. A única coisa certa é que centenas de milhões de reais foram investidos numa obra privada que atende ao público em geral, mas num momento de gravidade ela se mostrou absolutamente precária.

Antes do jogo, houve a inacreditável atitude de se restringir a quantidade de ingressos para os torcedores tricolores, que não se fizeram de rogados e dominaram o canto nas arquibancadas. A morte em questão poderia ter sido a de um palmeirense. Tanto faz: a vida precisa de respeito independentemente da cor da camisa.

Um homem ainda jovem, com pouco mais de 50 anos, perdeu sua chance por aqui. Pode ter sido o imponderável, mas há desconfiança de negligência sobre o que deveria ter sido feito adequadamente para tentar salvar sua vida. Meia hora de demora num atendimento de emergência é inaceitável em qualquer arena, estádio, ginásio ou campo de várzea.

Espero um dia poder escrever que situações como essas tenham sido banidas do futebol e do cotidiano brasileiro. Estou com dores e poucas esperanças a respeito, mas lá no fundo ainda sonho com que o torcedor possa ser tratado como um digno cidadão num estádio – ou arena – de futebol. Já vi gente morrendo com tiro de fuzil dentro do Maracanã, mas isso foi em 1995. Em vinte anos, já dava para o futebol ter mais apreço pelos seus entusiastas. Mas só se pensa em dinheiro e poder. O ocorrido não é exclusividade da Allianz Parque; poderia ter acontecido em trocentas praças de futebol no Brasil, modernas ou arcaicas.

Acontece que a vida não tem preço. Diante dela, tudo fica pequeno, inclusive o futebol. O ocorrido em São Paulo na quarta-feira passada não deixa dúvidas: por trás de uma fachada de luxo e aparência no “novo” futebol, o torcedor brasileiro continua sendo tratado como o gado de sempre.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: pra/exulla

LANÇAMENTO O ESPIRITO DA COPA RJ

capa o fluminense que eu vivi lado b são paulo e brasilia

2 Comments

  1. Perfeito!!!!!

    Solidariedade e minhas preces ao Tricolor que se vai, torcer de lá agora.

    ST

  2. Sim, Paulo, a cada dia, há menos amor em (minha pobre e plúmbea) SP. respeito à vida? algo raro ao longo das fétidas marginais, de mais Reinaldos que Arnestos, de arenas e não malocas.

    meus pêsames à família do tricolor que passou. E que a diretoria (?) do FFC não deixe de expressar nossa – dos tricolores e de que todos os que ainda acreditam no respeito ao próximo – mais veemente indignação em relação a (mais) este episodio de desprezo pela vida.

    abraços do tricolor (do…

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