Racismo no futebol do Rio – III (por Alexandre Berwanger)

(Continuação)

No entanto, o próprio Lovisolo nos lembra que o tema exige muito cuidado. Para ele, uma das principais armadilhas que ameaça os pesquisadores é o erro comum de apenas repetir a imprensa esportiva, ao invés de fazer uma investigação mais profunda sobre o tema.

De fato, quando os cientistas sociais passaram a falar do futebol com as categorias organizadoras de cultura e identidade também começaram em grande parte a traduzir, quando não meramente a repetir, aquilo que os jornalistas vinham dizendo na linguagem inventada para tratar dos esportes e, sobretudo, no nosso caso, do futebol. (LOVISOLO, 2001a, p.10)

Ed.15 | Vol.8 | N2 | 2010
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1923: investigação sobre a existência de racismo no noticiário esportivo carioca

É exatamente neste dilema – repetir a imprensa sem questioná-la – que está situado o eixo central do nosso trabalho. A partir das narrativas construídas sobre a conquista do título do Vasco da Gama, no ano de 1923, queremos retomar o debate acrescentando novas informações a partir do que coletarmos nos jornais da época. A história desta vitória vascaína foi recontada várias vezes, tanto pela imprensa como pelos estudiosos, como um dos principais feitos que marcaram o início da participação do negro no futebol do Brasil.

No entanto, um debate acadêmico passou a ser travado para se discutir a veracidade e a intensidade dos fatos. Antônio Jorge Soares (1998, 2001) garante que aconteceram distorções na narrativa dos pesquisadores, a quem ele chama de novos narradores, uma vez que todos eles se utilizaram exclusivamente do livro de Mario Filho, O negro no futebol brasileiro. Em resposta, alguns desses novos narradores, principalmente Ronaldo Helal e Cesar Gordon Jr. (2001) ressaltam que a utilização do livro pode ser produtiva para se construir um retrato da época. Eles, no entanto, não negam a idéia de que é preciso tomar alguns cuidados para se trabalhar com o autor.

B) Nunca houve racismo como manifestação coletiva no futebol carioca, mas sim elitismo e amadorismo em seus primórdios.

– O Bangu, time de fábrica, foi o primeiro clube carioca a aceitar negros e pobres em seus times, mas isso aparentemente se deu mais por falta de britânicos para recompor o seu time (ver livro indicado acima), do que por idealismo dos britânicos, dirigentes da fábrica. A Ponte Preta já tinha em 1900 um jogador negro em seus quadros, assim como o América-MG, talvez tenha sido o primeiro clube brasileiro a ter um jogador negro campeão em seu elenco, todos muito antes dos jogadores do Vasco.

– No início do século XX quando bem mais de 90% da população brasileira era analfabeta, os jogadores do Fluminense eram homens letrados, de altíssima renda para os padrões da época e que se comunicavam em inglês nos gramados e eventos sociais, sendo o futebol um elemento marcante da cultura inglesa, país de onde muitos deles tiveram as suas origens étnicas ou estudantis, havendo um desnível incomensurável entre eles e a grande maioria da população de então, algo difícil de se avaliar nos dias de hoje, quando o analfabetismo é destino triste de uma minoria e os meios de comunicação alcançam a quase todos os habitantes do mundo. Avaliar a falta de homens negros entre os sócios dos grandes clubes de futebol da zona sul de então como racismo, é prova de extrema ignorância ou de má fé, algo que ninguém faz abertamente com os clubes e instituições mais exclusivos por exigirem alta renda nos dias de hoje, onde os negros ainda são minoria, se não inexistentes em certos quadros, o que não acontece com aqueles negros que tem situação financeira e intelectual semelhantes aos outros sócios, pois não é a côr da pele que define esses relacionamentos. Havia um sócio negro do Paulistano, culto e riquíssimo, que era figura recebida pelos sócios do Fluminense como um igual, pois tinha a mesma cultura e condiçao financeira que eles, para poder participar dos evntos sociais de então.

– O Fluminense já tinha jogador negro em seu time de amadores em 1910 (vejam a foto em nossa magnífica Sala de Troféus) e no time principal em 1914, Carlos Alberto, que sofreu perseguição por conta de eventualmente ter passado pó-de-arroz no rosto, pela torcida do America, seu ex-clube, para onde Carlos Alberto tinha debandado com cerca de setenta outros sócios e atletas americanos, como Marcos Carneiro de Mendonça. A torcida do America, que já o conhecia, certamente mostrou o seu rancor contra um dos dissidentes rubros, em um momento político anterior extremamente conturbado no clube de Campos Salles. Em 1945, quando a maioria dos clubes do mundo ainda nem sonhavam em ter um treinador negro, o Fluminense tinha em Gentil Cardoso, o seu treinador, um negro no comando.

– A presença do Vasco nos gramados cariocas em 1923 e daí por diante, com o seu falso amadorismo, inspirou outros clubes a seguirem esse caminho e acabou por apressar a instalação do profissionalismo do futebol brasileiro em 1933, movimento esse liderado pelo Fluminense, que preferiu colocar em prática o que diversos clubes já faziam às escondidas e lhes davam vantagens nos confrontos. A propósito, seguem trechos de O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO, que explicam bem a idéia central que Mario Filho tenta dar em seu livro, um clássico sobre a participação dos negros no futebol carioca, pois, como também identificam os trabalhos universitários acima, a questão não era racial, mas sócio-econômica, cultural e amadoristica :

Capítulo 1, 4ª edição, Editora MAUAD, 2003.

“O Bangu não podia contar com ingleses que chegavam, todos eles com lugar garantido no Paissandu ou no Rio Cricket. A colônia inglesa de Bangu, lá longe, isolada por assim dizer, pequena. Quantos mestres tinha a Companhia Progresso Industrial do Brasil? Por isso o Bangu nunca foi um clube fechado no sentido do Paissandu ou do Rio Cricket, pelo menos em futebol (página 31).”

“Para se entrar no Fluminense o jogador tinha de viver a mesma vida de um Oscar Cox, de um Félix Frias, de um Horácio da Costa Santos, de um Waterman, de um Francis Walter, de um Etchegaray, todos homens feitos, chefes de firmas, empregados de categoria de grandes casas, filhos de papai rico, educados na Europa, habituados a gastar. Era um vida pesada. Quem não tivesse boa renda, boa mesada, bom ordenado, não aguentava o repuxo (página 34).”

“Não se tratava só de ser branco legítimo (referência aos brancos do Colégio Alfredo Gomes, no parágrado anterior, mas ainda jovens demais para ingressar no Fluminense). NINGUÉM NO FLUMINENSE PENSAVA EM TERMOS DE COR, DE RAÇA. Se Joaquim Prado, winger-left do Paulistano, quer dizer, extrema-esquerda, preto, do ramo preto da família Prado, se transferisse para o Rio, seria recebido de braços abertos no Fluminense.. Joaquim Prado era preto, mas era de família ilustre, rico, vivia nas melhores rodas (páginas 36 e 37).” (Seguem mais cinco parágrafos falando da relação de Joaquim Prado com o futebol e com o Fluminense, além de sua condição econômica privilegiada)

A declaração de Robson, jogador negro do Fluminense na década de 1950, explica bem esta relação :

“Eu já fui preto e sei o que é isso.” Robson não mudou a cor de sua pele, mas agora, no Fluminense, tinha dinheiro e prestígio, o que não tinha antes. A questão básica não era em nenhum momento no passado da cidade do Rio de Janeiro no século XX (não como manifestação coletiva, embora em alguns outros estados~brasileiros, a situação fosse outra), como ainda não é nos dias de hoje, a côr da pele da pessoa, mas a sua condição sócio-econômica e cultural.

C) Essa história absurda do racismo no futebol carioca como manifestação coletiva, que aparentemente existiu mesmo em alguns outros estados nas primeiras décadas do século XX, divulgada nos dias de hoje com o clato objetivo de arregimentar torcedores mal informados para as fileiras do clube que no passado era dirigido pelos portugueses, a maioria dos quais já muito idosos ou já tendo desencarnado, ajuda a estimular a violência nos campos de futebol, ao dar argumentos para que espíritos frágeis e desequilibrados possam olhar para o torcedor de outro clube, no caso específico desta estorinha do Vasco, para todos os outros clubes que faziam parte da Liga Carioca de então, como inimigos, algo que todo o cidadão de bem deve lutar para acabar, pois como foi escrito em faixa da torcida do Fluminense para o jogador Grafite, então no São Paulo, vítima de racismo há alguns anos atrás, “A ALMA NÃO TEM CÔR”. O resto é estorinha e pode ter sérias consequências, ajudando a estimular ainda mais as divisões na sociedade e dando alimento espiritual para os desequilibrados ferirem e matarem nos campos de futebol.

Leia também:

http://www.panoramatricolor.com/racismo-no-futebol-do-rio-ii-por-alexandre-berwanger/

http://www.panoramatricolor.com/racismo-no-futebol-do-rio-i-por-alexandre-berwanger/

Alexandre Berwanger

Panorama Tricolor

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