“Pra que ficar tão nervoso?” (por Zeh Augusto Catalano)

postCatalanoComo é chato o derrotismo. Como é insuportável aturar gente falando na sua orelha sete, oito, dez rodadas antes do fim do campeonato. Conheço um (dane-se se é vascaíno ou tricolor, é a mesma chatice) que repete, desde que faltavam doze rodadas pro fim do campeonato, que o Vasco já caiu.

Certeza de que você, que está lendo agora, conhece alguma(s) dessa(s) carpideira(s) futebolística(s). Gente que parece sentir prazer na derrota ou que tem tanto medo dela que não consegue vencer. Parece que o esporte foi feito para que só o time desses cidadãos vença.

Gente chata que tira o prazer dos outros de torcer por seu time. Se você é um desses, ainda está em tempo de aprender que não existe vitória sem derrota. Que não se morre de véspera.

O futebol não pode perder o seu prazer. O seu lado de diversão. Isso transcende o resultado e se aproxima do amor. Da felicidade de ver seu time em campo, de se sentir parte de um todo, seja num estádio, seja pela tv. Se isso acabar, sobrarão dezenove torcidas enfurecidas e uma, cujo time não fez mais que sua obrigação. Será o fim.

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E aí você se senta para ver o jogo. Sala. Três crianças, dentre as quais sua filha de quase quatro anos, correm e berram no ambiente. Você tentou se acalmar o dia inteiro. Não pensar muito no jogo. Sim, há tempos em que o futebol é uma coisa irritante. Vontade de ir pra Lua, Ganimedes ou Io passar uns meses e esquecer completamente da existência de futebol. Sumir. Sublimar como um gás qualquer. Mas não… Começa o jogo e você está ali, prestando atenção. Otimista.

Em cinco minutos, o otimismo desaparece. Dá tempo de esfregar o rosto e olhar pro notebook. Claro, há um imbecil falando besteira na rede social. Não dá tempo de bufar. Incrédulo, você vê a bola outra vez dentro do seu gol, quarenta segundos depois.

Vontade de tacar um troço na tv. Espatifar aquela merda. Má ideia. A tv é da sogra. Além de ter de comprar outra, iria ter de suportar uns 15 dias de calça jeans da filha da sogra.

Palavrões. Todos. Aqueles mais cabeludos. Outra má ideia, não posta em prática. Sábado à noite, andando pela casa, ouço um “porrrra” exatamente igual ao que falo, com todos os errrrrres possíveis. Minutos depois, chega a figurinha: – Papai, “porrrra” é uma palavra muuuuuuito feia! Você não pode mais falar isso, tá bom?

Bater com a cabeça na parede me parece o mais sensato a fazer. Me falta energia. Fico no muxoxo, na indiferença superior. Penso em Buda. Sou católico. Francisco tem time. Até ele se enfureceria e xingaria no Vaticano.

Sobrinha de dez anos, na aborrescência provocativa: – Zé, mas esse Vasco é muito ruim, né? Fumaça pelas ventas. Fuzilo com os olhos.

Intervalo. A desgraça final, a hecatombe não se materializaram. Não estou no Maraca para ir dar aquela mijada (perdão pelo termo chulo, mas quem vai a estádio de futebol não vai ao toalete) e voltar ao lugar xingando com cidadãos desconhecidos que estão sofrendo do mesmo mal. Então, vou caminhar na rua. Tarde bonita e silenciosa de um domingo de início de horário de verão. Viv’alma na rua. Vontade de largar aquele espetáculo deprimente e ir catar amoras, cajus do cerrado, limões, que seja. Chupar um limão deve ser melhor do que testemunhar aquilo.

Mas, claro, o idiota masoquista volta pra frente da tv. Para o segundo tempo, além das substituições de praxe, surge a companhia da cunhada, que não tem time mas ali está para tecer comentários jocosos para mim e seu irmão, que sofre quieto no outro canto da sala. Penso de novo nos palavrões.

Mulher passa na frente na hora de lance de perigo. Não reclame. Abstraia. Você corre o risco de dois minutos de blablablá em plena tensão…

A torcida vocifera nas redes sociais. Para deprimir um pouco mais, 80% dos comentários parecem ter sido escritos por um ghost writer framenguista e semi-analfabeto. Um “tristeza com S” é a gota d’água. Abandono o pc.

Penso na tequila no congelador. Não. Ela não merece final tão inglório. Tequila é para momentos alegres. América do México. Cabañas. Deixo ela lá. Até porque se fosse afogar as mágoas no goró, estaria nalguma clínica de reabilitação. Ou, a essas alturas, teria passado a drogas mais pesadas. Crack. Que crack? Só pernas de pau…

O tempo passa, o time reage. O adversário, como sempre, em se tratando de quem é, se acovarda. O time, não jogando nada, consegue um empate. Um ponto ganho? Não. Dois perdidos.

Comemoro o quanto posso. Fundamental criar a noção, na mente infantil, de que o seu time e o futebol são coisas boas. Pelo menos isso, a duras penas, parece que conseguirei…

Duas horas de sofrimento. Pra que isso? O dinheiro “deles” tá ganho. E a gente se martirizando. Viva o futebol!

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Felipão está pensando em convocar o tal Diego Costa, atacante do Atlético de Madrid, naturalizado espanhol, só para impedir o cara de atuar pela seleção espanhola. Que se dane a pessoa em sua justa vontade de servir a pátria que o acolheu há anos. O que importa é defender a Seleção Brasileira, mesmo que passando por cima das pessoas.

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Assistindo aos melhores momentos da vitória do Uruguai sobre a Argentina, vejo, estarrecido, que o árbitro do jogo foi… Flamengo de Lima Henrique! Na FIFA! Apitando o jogo mais importante das eliminatórias sul-americanas. Preciso mesmo ir pra Europa. No caso, a lua de Júpiter…

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Então seu time está no famoso G4, vai enfrentar adversário local que está em profunda crise, vitória muito provável e você coloca cerca de sete mil pessoas no Maracanã? É o fim…

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @zecatal

Foto: reprodução

4 Comments

  1. “Estimat” Catalano,

    obrigado pelo texto!!

    (certamente não fui o único a quebrar cadeiras na sala ao acompanhar pela TV o sofrível escrete do Flu em 2006… e outras cadeiras em outros tempos…)

    como explicar tudo isso a quem prefere competições de pelota basca ou ciclismo?

    mas.. encarar a dura tarefa de assistir uma partida de futebol na casa da sogra, com cunhada e crianças na sala… nem o santo Dalai Lama resistiria!

    forte abraço.

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  2. Muito bom!

    Tô rindo aqui com o teu porrrrrrrrrrrrrra e o pitaco da filha. kkkk

  3. Andel: biscoito fino da casa. Ivan Lessa aplaudiria, tenho certeza. Eu aplaudo por ele.

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