Polarização tricolor (por Crys Bruno)

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Oi, pessoal.

Após onze dias sem que minhas glândulas suprarrenais sofressem o ataque de mais uma irritante atuação – e vergonhosa derrota – o Fluminense voltará aos gramados amanhã, visitando o Grêmio, para iniciar o seu fim de temporada ou os quatro últimos jogos.

O jogo contará com o retorno do capitão, Fred. Repito o que pedi semana passada aqui, após 11 derrotas nos últimos 15 jogos: “É absolutamente deselegante e constrangedor, Dr. Mário, o senhor – que tem sido um advogado sensacional para o clube nos últimos anos – que enfrenta o primeiro ano apenas na frente do departamento de futebol, lidar com onze derrotas em quinze jogos de forma natural, tranquila.” 

Durante a vazia semana, Fred e Cavalieri seguiram as palavras do vice de futebol. Não me diz nada a opinião bovina dos jogadores do Fluminense. Eu não me lembro, nem nos anos 1990, ver meu time de coração perder tanto num espaço de tempo equivalente. 

Eu não sou uma torcedora que veja o Fluminense do tamanho de uma formiga ou linhaça. Por favor, acabem com esse Brasileirão e não percam para o Grêmio. Mas por que ainda me irrito? Por que ainda me incomodo em ver o Fluminense ser derrotado? Por que o desejo ver autônomo, independente, digninamente auto sustentável? Por que ainda me presto a servi-lo como torcedora? 

Tenho me perguntado sobre isso nessas últimas longas semanas… Sabe aquela coisa que Etienne de La Boétie questionou e respondeu tão bem na sua clássica obra “O Discurso da Servidão Voluntária”: por que eu aceito abrir mão da minha liberdade para lhe obedecer, Fluminense?

Mas a que me entregar se me libertar de você? Aos games? Às redes sociais? Ao mundo maravilhoso e mentiroso das aparências onde não somos mais quem somos e, sim, o que devemos aparentar como o marketing determina, num mundo onde haja somente felicidade, seja estética: – “Olhem! Estou bebendo um Richebourg!”,  “Reparem nos meus novos sapatos Jimmy Choo! Minha saia Channel! Meu relógio Cartier! Minha bolsa Louis Vitton! Meus vestidos e perfume Dior.”

Seja a felicidade ética: “- Eu doo sangue”, doou uma vez; “Eu amo ler Camões”, mas nunca leu; “Eu corro cinco quilômetros, dias sim; e malho duas horas, dias não”, é magra e mais nada; “Estou vendo Hamlet!”, mas prestou mais atenção no Thiago Lacerda que no texto. Ou mesmo postando a foto do Big Ben para dizer que está em Londres, consumindo cultura e arte sem emoção e, assim, sem adquirir cultura, conhecimento, novas visões, porque pensar, refletir e ponderar não tem mais espaço nessa rotina contemporanea.

Enfim, essa corrida maluca, desenfreada, sem intervalos, sem silêncio, sem pensar, sem ouvir, assistir e, então, sentir; essa corrida maluca por parecer bem-sucedida, bem resolvida, bem informada, com personalidade mesmo sem que essa esteja minimamente, em termos, educacionais, formada, e em absoluto bem-estar incessante, nao me atrai. Eu “gooosto” mesmo é de ser humana.

Minha paixão pelo Fluminense me mantém no mundo do ser humano. É genuína porque é algo que vivo completamente; afinal, porque eu presto atenção nele, ouço, vejo, reflito, sinto. Com os necessários intervalos, que no meu caso são longos, porque “sou um automóvel” cuja velocidade máxima não ultrapassa os quarenta, num mundo veloz como uma Ferrari, apressado como a ansiedade. 

Essa polarização, no caso do Fluminense, é rasa porque só admite a existência do preto ou do branco e gera um diálogo cíclico, repetitivo, onde um joga sobre o outro acusações, adjetivações: “se você critica um ponto na gestão do Peter, você é oposição e quer derrubá-lo para ter o lugar dele.”; “se você o defende, você está ganhando benefícios por isso.”

Essa polarização, historicamente, destruiu e destrói, porque como bem nos mostrou Étienne, lá por volta de 1560, preocupado com o confronto entre católicos e huguenotes (calvinistas), a polarização, o confronto entre apenas dois pontos, esvazia o debate, some com o raciocínio, limita-nos, porque se acusa e se condena o tempo todo.

Minha paixão pelo Fluminense é um lar para mim. Por que escrevi isso tudo? Porque tive vontade de dividir com meus treze leitores – acho que voltei para doze, aliás! – o quanto nesse atual e insadecido cenário, ser, torcer, acompanhar e servir voluntariamente o Fluminense, à beira dos meus quarenta anos de idade, traz sentido estóico e humano à minha vida, como minha família e amigos. É por esse sentimento que escrevo sobre ele para vocês.

E como diria Hamlet: “O resto é silêncio”. Porque tudo já foi dito. 

TOQUES RÁPIDOS:

– Atenção: se alguém leu e pensou que me referi aos últimos trágicos acontecimentos no Brasil e, especialmente, na França, se engana. Apenas porque não acho certo o uso de um canal esportivo, clubístico, futebolístico, para tratar de outros assuntos senão estes, por entender que quem quiser ler sobre a tragédia em Mariana e os assassinatos terroristas na França, estaria em outra página da Internet, especializada.  Falei do Fluminense mesmo. Da patrulha entre tricolores.

– IMPORTANTE: CONSTRUÇÃO DO CT – no próximo dia 28 de novembro, teremos mais uma chance de participar de algo que, certamente, “os tricolores de antigamente” participariam. Falo do almoço promovido por um guerreiro, o vice de projetos especiais, Pedro Antonio, para angariar mais recursos para a conclusão do Centro de Treinamentos do clube.

Quem participar, será levado, num ônibus, até o local para ver as obras. O encontro será no Baby Beef Barra, na Avenida das Américas, e custará R$ 140,00. Já a contribuição terá que ser de R$ 500,00. Se puder, o valor ou valores deverão ser depositados no Bradesco, agência 447, conta 617-3, em nome do Fluminense. O comprovante do depósito deverá ser usado para sua inscrição e enviado para o e-mail: ctfluminense@fluminense.com.br 

Orgulho – bom e salutar – de ser tricolor. Porque, apesar de todas as coisas difíceis e ruins, erradas e absurdas, há muita coisa boa feita, plantada; há muita coisa boa por fazer. Mãos à obra!

– ELENCO 2016: além de achar fundamental que Cícero fique, por seu estilo de jogo e qualidade, espero que antes de sair contratando “Zéis”, deem espaço para os meninos de Xerém que estão lá – além do que retornam, como Biro-Biro e Eduardo.

– Não percam para o Grêmio! 

– Acaba, Brasileirão, acaba!

Abraços fraternos.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @CrysBrunoFlu.

Imagem: google

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6 Comments

  1. ST**** Crys.

    Muito obrigado pelo enquadramento de uma situação que extrapola o torcedor e alcança o humano.

    E essa de buscar o Etienne de la Boetie… só um tricolor mesmo !!!

    1. Balbino, quanta honra e alegria ver o amigo lendo meu texto! Um super abraço!

      Gaia, muito me alegra saber que foi bom ler algo que escrevi mas sua fidalguia se superou agora. rs Muitíssimo obrigada pelo gesto de apoio. É motivador. Obrigada.

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