Podemos ter um Fluminense magnífico no segundo semestre (por Marcelo Savioli)

Amigos, amigas, eu já devo ter dito que meus primeiros passos na arquibancada do Maracanã foram na época da lendária Máquina Tricolor. Estarei mentindo se disser que minha memória guarda inúmeras imagens daquela época. Posso dizer, no entanto, que a sensação de ver jogar feras como Rivelino, Edinho, Dirceu, Gil, Paulo César, Carlos Alberto Torres e tantos outros monstros é algo que carregarei para sempre.

O mesmo posso dizer do time de 1980, aparentemente modesto, que vi empurrar o Flamengo de Zico e Cia. para as cordas no Maracanã. O mesmo time que conquistaria, em cima do Vasco, com aquele gol de falta do Edinho, o Campeonato Estadual. Entre muitas lembranças, uma vitória sobre o Vasco numa quinta-feira, seguida de uma virose das brabas, que não me impediu de, três dias depois, rumar para o estádio Mário Filho para o clássico com o Botafogo. É que aquele time jogava muito e bonito.

Em comum, guardadas as devidas proporções, aqueles times me faziam vibrar, sonhar e ter esperança. Assim foi após a chegada do casal 20 em 1983, mais ainda com a chegada de Romerito durante o Brasileiro de 1984, cuja conquista pude presenciar num Maracanã lotado de tricolores e vascaínos.

No começo do século XXI tivemos uma sucessão de times que chegaram às fases decisivas do Campeonato Brasileiro. Marcão, Róger, Magno Alves, Carlos Alberto, Romário, Fernando Diniz e Cia. Nada ganharam, mas as sensações ficaram entranhadas da pele à memória. Perdemos a Libertadores de 2008, mas eu posso sentir até o sabor daqueles dias memoráveis, daquela goleada de seis na estreia, das partidas imortais contra São Paulo e Boca, da mesma forma que o choro convulsivo ao apito final da daquele Fla-Flu de 1995.

Foi assim em 2009 com o Time de Guerreiros. Ainda me lembro do Fluminense encurralando La U e Cerro fora de casa, aquela virada épica contra o Cruzeiro em Minas, as tardes eufóricas no Maracanã, a inesquecível final da Sul-Americana e a viagem a Curitiba para ver o Flu escrever o último capítulo da mais espetacular saga da história do futebol mundial. O que dizer dos títulos brasileiros de 2010 e 2012?

De lá para cá, as únicas coisas que me marcaram, os últimos times que me fizeram vibrar, sorrir e me arrepiar foram os da Libertadores de 2013 e a passageira Alemanha Brasileira de 2014. Tirando isso, a essência do Fluminense só deu as caras em breves e furtivas aparições.

Toda essa introdução é para dizer que um time de futebol tem que fazer sua torcida vibrar, se arrepiar, sonhar e ter esperança. Um grande time de futebol é aquele que entrega momentos marcantes. Eu vi o time do Diniz massacrar o Vasco na final da Taça Guanabara e perder sem que o adversário houvesse dado um único chute a gol. Eu vi o primeiro tempo de Fluminense e Santa Cruz pela Copa do Brasil. Impecável. Vi três exibições de time grande contra o Cruzeiro, incluindo a de ontem. Vi o Fluminense virar de forma cinematográfica contra o Grêmio, metendo cinco na casa deles. Vi João Pedro sacudir o Atlético Nacional com três gols e uma assistência em 30 minutos de jogo.

Um time que é capaz de fazer o que já fez o Fluminense do Diniz é capaz de fazer muito mais, de ir muito longe. É um time guerreiro, que não se entrega, que luta, que busca a vitória e que dá espetáculos inesquecíveis. É por isso que eu prevejo um grande segundo semestre. Há quem diga que não temos elenco, que o nosso time é fraco e que o Diniz é louco. Cada um enxerga o que pode ou o que quer. Eu só vejo um time que me faz vibrar, que pratica um futebol bonito, ofensivo e, ao mesmo tempo, aguerrido. São ótimos ingredientes para uma receita de sucesso.

Quando parece que a gente já viu de tudo, surge um Miguel Silveira pelo caminho, comendo a bola com apenas 16 anos. Quando a gente pensa que mais nada vai passar pelo Fábio depois daquela cabeçada do Ganso, já aos 47 minutos, surge um gol de placa do João Pedro. Diniz fala que a sensação é de frustração e orgulho. Bastava isso e não há mais nada a dizer. Se estamos frustrados, é porque sabemos que o Fluminense merecia ter passado para as quartas de final e que tinha cacife para ser campeão. Se estamos orgulhosos, é porque esse Fluminense tem cara de Fluminense.

O Fluminense está entre os times que mais se beneficiarão da parada de um mês para a Copa América. Diniz terá tempo para sedimentar seu modelo de jogo, definir qual é o time titular e quais são aqueles cinco ou seis jogadores que sairão do banco de reservas para mudar o rumo das partidas. Eu espero que opte realmente pelos melhores, aqueles capazes de executar sua proposta tática e conceitual, algo bastante parecido com o que vimos ontem. Caso Diniz cumpra bem essa tarefa, pararemos de oscilar na temporada e nos tornaremos uma das agendas mais temidas do futebol brasileiro e sul americano.

Só que tem um porém. Sempre tem um porém. Três meses de salários atrasados e janela europeia surgindo no horizonte. Eis a ameaça que pode pôr tudo a perder. É preciso que o próximo presidente comece sua gestão resolvendo de uma vez o grave problema de fluxo de caixa. Já escrevi aqui milhares de vezes que só há uma alternativa para solucionar o problema no curto prazo sem precisar desmontar o elenco com a venda mal feita, porque feita açodadamente, de nossos melhores jogadores.

Tem que atrair investidores e usar o que temos de mais valioso para isso, que é o potencial de geração de receitas com transferências de atletas. Se fizermos uma dívida a longo prazo, poderemos vender no médio e no longo prazo, por valores muito mais expressivos. Não precisa ir muito longe. Caso tivéssemos lastreado uma dívida na venda do Richarlison, estaríamos hoje contando mais de R$ 100 milhões. Não teríamos vendido João Pedro por uma mariola, duas balas Juquinha e um pirulito Zorro. Imaginem quanto os europeus já não estão dispostos a pagar por João Pedro hoje. Como dizia Nelson Rodrigues, é o óbvio ululante.

Os sonhos e a esperança estão na mesa. Temos Matheus Ferraz, Nino, Frazan, Digão, Gilberto, Mascarenhas, Caio Henrique, Allan, Daniel, Paulo Henrique Ganso, Pedro, João Pedro, Marcos Paulo, Luciano, Yony, Miguel, Léo Artur, Bruno Silva e outros que podem contribuir para que tenhamos mais que um timaço. Nós teremos elenco para obter vitória atrás de vitória. Tudo depende das primeiras ações do futuro presidente, que precisará conciliar ousadia e bom senso.

Podemos ter um Fluminense magnífico no segundo semestre. Simplesmente magnífico, jogando o futebol mais bonito do Brasil, competitivo e capaz de atrair multidões, assim como a atenção dos investidores. Podemos viver um sonho duradouro, pavimentar uma era de ouro, com feitos magníficos. É preciso somente romper com o pensamento paupérrimo que vem permeando o clube nos últimos anos, esse jogo mesquinho de interesses, essa mediocridade e essa falta de visão, responsabilidade e ambição.

Saudações Tricolores!

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

#credibilidade

8 Comments

  1. CASO NÃO PERCA A AÇÃO DO TEMPO CERTO NA MUDANÇA A SUCEDER UMA ESCALAÇÃO ONDE UM CONJUNTO BLINDADO A ERROS DEFENSIVOS INFANTIS NÃO COMPROMETA A RÁPIDA E NECESSÁRIA LIGAÇÃO DE UMA PASSAGEM DO MEIO AO ATAQUE A NÃO NOS DECEPCIONAR NO ARREMATE FINAL..

    1. Diniz precisa aproveitar essa intertemporada para arrumar melhor esse sistema defensivo.

      ST

  2. Adoro sua crônica. Penso da mesma maneira. Vejo um time campeão se formando. A dois anos atrás também tinha a mesma impressão, quando tínhamos Wendel, Scarpa e Richarlison e jogamos fora. Mas o Fluminense consegue se recriar, é realmente extraordinário.

    1. Eu já vi vários times campeões se formando, mas a má gestão e a falta de propósito rapidamente os destruiu. Tomara que o próximo presidente reúna os valores que precisamos. Falam muito do Abad, mas, apesar de algumas trapalhadas imperdoáveis, vai deixar um bom legado, muito melhor que o que recebe.

      ST

  3. Parabéns pela crônica. Penso exatamente como você. Tenho 53 anos e a máquina tricolor de Rivelino e cia me encantou tbm. Esse time do Diniz me faz vibrar ,apesar de achar que precisamos de um goleiro e lateral direito pra ontem. Tenho prazer quando vejo os times grandes com medo do Flu. Esse é o nosso Fluminense.
    Um abraço e saudações tricolores
    Márcio

    1. Esse problema do goleiro realmente é uma dor de cabeça, principalmente porque precisamos de um que não falhe e, ao mesmo tempo, tenha as habilidades para se encaixar no modelo de jogo do Diniz.

      ST

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