Uma guerra onde o Fluminense sempre perde (por Paulo-Roberto Andel)

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Ė a última vez que falarei sobre o assunto por um longo tempo. E só escrevo agora por considerar muito importante neste momento delicado – mas, pensando bem, quando não é? A verdade é que estou de saco cheio disso tudo.

O mais novo – e grave – problema do Fluminense na praça nada tem a ver com o campo, embora o tenha atingido nos últimos tempos de forma muito perigosa.

O balanço, incompleto, publicado no último dia 30 de abril – e grave pelo que o cerca -, nada mais é do que o reflexo de toda uma época tricolor.

Embora ele seja fruto direto das duas últimas gestões do clube, sem terceirizar responsabilidades de forma alguma, é mais um capítulo de uma longa e deprimente história que vem atravessando décadas.

Primeiro: no Fluminense, os grupos políticos ficam acima do clube para seus integrantes e simpatizantes. “O meu candidato é bonzinho, o seu é uma merda”. “O meu faz tudo, o seu não sabe nada”. “O meu grupo sabe tudo, o seu não é nada”. “Teu amigo é da Série C”. Que bosta de argumentação, hein? Bom, os resultados ao longo do tempo aí estão, para quem quiser encarar a realidade ou viver num mundo psicodélico próprio, à parte. Ser situação e oposição, salvo raras e honestas exceções muito conhecidas, faz pouca diferença ou quase nenhuma: descontando-se uma minoria, todos os que fizeram parte do processo político contemporâneo ativo do Flu, em algum momento, estão agora de um lado ou de outro (ou dos dois…). Não há novidades. Muitos dos que hoje apedrejam estavam aí rindo outro dia, de braços dados com os apedrejados. Todos os que hoje contemporizam, anteriormente tacavam pedra. E assim o clube vai, se esgueirando a cada três anos, revezando e sortindo apedrejadores e apedrejados, num enredo que só muda da boca para fora.

Segundo: na prática, o que é a disputa política do Fluminense? Uma briga de reunião de condomínio no playground. Ou a “Feira da Providência” das panelinhas, um monte delas, cada uma em sua barraca.  A diferença é que os efeitos dessa briga atingem a milhões de pessoas, mas na prática mesmo, o processo decisório está na mão de muito pouca gente. Sócio Futebol vota, mas não pode ser votado.

A vulgarização da política.

I

Nem todo mundo sabe, mas poucos anos depois de conquistar a Taça Olímpica e o Mundial de 1952, o Fluminense vivia numa pindaíba tão grande que literalmente esteve para fechar as portas – e foi nessa época que surgiram as famosas suplementações de caixa. Pouco tempo depois, ganhou dois Rio-São Paulo (o principal campeonato da época) e um Carioca. Naquele tempo, recuperar as contas era menos difícil.

Do final dos anos 1960 até a metade dos 1980, com intervalos, o Tricolor foi absoluto. Foram nove títulos do Carioca – a mais valorizada conquista do país à época -, dois campeonatos brasileiros – fortíssimos – e, por duas temporadas, teve o mais emblemático e conhecido onze de sua história – a Máquina Tricolor. O sonho custou caro aos cofres do clube e desalinhou as contas, mas é impossível calcular quantas centenas de milhares de crianças ficaram encantadas para sempre com Rivellino e grande elenco – eu sou uma delas e, cá para nós, o Fluminense não pode se queixar do meu trabalho voluntário. E, por mais que o sonho do Dr. Horta tenha naufragado financeiramente, basta dizer que naquele tempo o Flu teve a maior média de público pagante de toda a sua história, e que teve tempo suficiente para se reorganizar, quatro décadas mais precisamente.

É duro reconhecer também que, apesar da criatividade na montagem do timaço 1983-1988, Horta foi o nosso penúltimo grande empreendedor, quando não havia patrocinadores nem cotas de TV, apenas os ingressos para pagar as contas. Depois do eterno presidente, só Celso Barros chegou perto, com outro modelo, sem montar nenhuma Máquina, mas colocando prestígio no Flu, a seu modo, inegavelmente, por meio da marca que dirigia.

Tirando Horta e Celso, o Flu viveu sempre equipes modestas nestas quatro décadas, mesclando jogadores desconhecidos e apostas com a prata da casa. O time operário entre 1989 e 1995 era fincado no carisma de Super Ézio e, efêmera, mas definitivamente, em Renato Gaúcho – em 1994, até houve a ousada contratação de Luis Henrique, que fracassou. A Era Celso teve vários craques, mas muitos veteranos no apagar das luzes e os Ademilsons da vida. Investimento pesado mesmo – em jogadores, não no clube -, a partir de Romário e especialmente entre 2007 e 2014.

Aos trancos e barrancos, desde o fim da parceria com a Unimed, o Flu sobreviveu até em algum momento de 2016, quando o vazamento finalmente apareceu na parede. E assim seguimos, mas com um problema grande: devemos trocentos milhões, o avião sua sangue para não sucumbir a turbulências, ninguém de fora – exceto quem já esteve lá, e talvez nem sempre – sabe exatamente qual é o tamanho exato da laranja ou melancia, não se vê ações concretas para que o clube recupere seu patamar financeiro perdido. A grande promessa ao final da temporada retrasada era a recuperação das contas, num processo de relativa união política dos vencedores. Logo depois, a revelação – parcial – do rombo tricolor impediu contratações de peso e o time, que parecia promissor, não decolou ano passado, chegando até a assustar. Agora, em 2018, o bom começo no Brasileiro é uma esperança, mas vista com ressalvas: há o senso comum – ou quase – de que o Fluminense precisa de reforços, especialmente na ligação de meio de campo, se não quiser passar sustos no segundo semestre.

Temos vivido uma guerra sem vencedores, ou melhor, onde o Fluminense sempre perde. Fala-se pouco e vê-se menos ainda as ações de impacto. Dentro e no entorno do clube, continuam os bombardeios – cobrar e criticar é muito justo, ressalte-se. Parte da internet oficiosa do clube é um abominável soldado inimigo.

Quem ganha com isso? Uns poucos pobres diabos. O Fluminense, não.

II

Há dois Fluminenses no mínimo: o do campo, lúdico, demolidor de obviedades, que há muito tempo escreve grandes histórias do futebol, paixão que a tudo inspira, que nos faz insistir em persegui-lo. E o outro, do mundo real: político (desastrado), econômico-financeiro (idem), administrativo (idem). Por mais que os últimos meses tenham hospedado acontecimentos bizarros, o problema geral é muito maior e de muito mais tempo.

Nos últimos anos uma onda de ódio tomou o clube de assalto, com reflexos graves em todos os sentidos: crise de identidade nas arquibancadas, afastamento da torcida, dos sócios. E junte a isso a grande era das cruzadas medievais da internet, onde senhores das verdades do papel higiênico usado estimulam o rancor por questiúnculas. A indigência financeira que se acentuou nos últimos anos, bem como a incapacidade de driblá-la com eficiência. A falta de carisma – quem hoje se interessa em promover o diálogo entre as correntes tricolores e sinceramente abdicar do particular em prol do coletivo? A incapacidade de capitalizar positivamente os grandes momentos vividos entre 2005 e 2012 (logo em 2013 já deu eca) para gerar receitas, promover o crescimento devido da torcida, a nossa capacidade de oxigenação.

III

Quando se fala do Fluminense na sua política, vem de imediato o conceito de turma: a da situação, a da oposição, a que alterna conforme a dança dos números eleitorais, a dos pela-sacos que orbitam em torno desses subconjuntos (não em prol do Flu, mas para a própria autopromoção). A turma que quer eugenia na arquibancada, decidindo como se deve torcer. A turma que acha que o torcedor deve simplesmente comparecer porque é sua obrigação. A turma que nunca deu certo em porra nenhuma e quer usar o Fluminense para sua vaidade pessoal. Há um desalinho completo entre os discursos e o que se vê a olhos nus.

Então os anos passam, o torpor permanece e, a cada três anos, vamos procurando novos culpados – não que eles não existam, mas as entranhas têm mais de 30 temporadas. No terceiro ano de cada gestão, o de eleições, a porrada verbal come, as acusações viram tiroteio e, quando alguém mais atento espia, vê que todo mundo de dentro ou de fora – ao menos todos os atores principais e seus séquitos – veio da mesma ciranda, em momentos diferentes.

A cada três anos, os mesmos velhos erros são cometidos, as obscuridades vão e vêm, a desinformação prevalece e tudo isso só serve para aumentar ainda mais a verdadeira TV Fama em torno do clube, com galhofeiros e anônimos tentando buscar vantagens a todo instante com as famosas “infos” ou “furos” (95% delas não dão em absolutamente nada, exceto para quem lucra com cliques). Bom, o Fluminense tem uma página oficial com um milhão e meio de seguidores: bastava fazer dela um canal de comunicação transparente e permanente. Era só querer. Vontade política, que não houve nem há.

Temos uma das sedes mais bonitas do mundo. Mesmo com pouco dinheiro, mas muita criatividade, seria fácil atrair visitantes e turistas do mundo inteiro. Quem não quer conhecer um polo de cultura de futebol que fica no estádio onde nasceram o futebol do Rio de Janeiro e a Seleção Brasileira? Poucos times do planeta têm tantos torcedores que são artistas consagrados nas mais variadas áreas. Sabem o que se faz com isso em termos realmente úteis para o Fluminense? Nada. Absolutamente nada.

IV

Eu mesmo ofereci modestamente ao clube – de graça, repito, DE GRAÇA e mais de uma vez – diversas ideias. De livro eu entendo; de política cultural também; de agregar gente, idem. Todas, absolutamente todas, viraram forro da gaiola do papagaio no dia seguinte, ou até mesmo tratadas com sarcasmo, o mesmo que antigos dirigentes do clube – como a ex-dupla “Bittensen” – também me dedicaram.

É o fulano que sabe tudo e não aceita sugestões (mas não faz nada de útil), o sicrano que tem medo de perder o emprego, o beltrano que entrou pelo janelão etc. Já ouvi e testemunhei tantas histórias que chega a dar nojo.

Ok, já estão fazendo coisas fantásticas, não é mesmo?

Vamos aguardar… sentados.

Enquanto isso, muita coisa que poderia fortalecer a imagem do Fluminense em caráter nacional não sai dos papéis da Taça Olímpica…

V

Nossa torcida é gigantesca em vários bolsões populares da cidade do Rio, também espalhada em N municípios Brasil afora. Gente nossa a ser cativada, aproximada, participada, jogando junto. Mas a mentalidade de “elite” (cafona e atrasada, presente dentro do clube) sempre inibiu essa aproximação. Resultado: há quatro anos não colocamos 50.000 tricolores numa partida. Pelo contrário: neste ano mesmo jogamos para 200 ou 300 apaixonados no cafundó… Chegou a ser emocionante ter quase 20 mil contra o São Paulo.

Agora, uma coisa é fazer do Fluminense um clube de efetivas arquibancadas populares. Outra é trazer o zé ruela da internet que fala “nóis vai” e “déis merreis” para ter cargos no clube, caso seu candidato de estimação vença o pleito.

VI

Com tudo isso, que não chega a 10% dos problemas, o Fluminense ainda consegue sobreviver, ficar de pé e lutar. O problema é que só a luta não basta para os próximos anos.

O futuro do clube depende do fim do feudalismo enrustido, da busca real por parcerias, pela transparência que favoreça investimentos relevantes, mas também sem cair na esparrela corporativa fria, indiferente, estilo banqueiro. Pode dar certo para uma indústria, um grande escritório, não para um clube que carrega o futebol em sua certidão de nascimento.

VII

Se nada de novo, bom ou ruim, for feito e nenhum grande desastre acontecer, teremos um 2018 digno e, a seguir, é ano de eleição. Gente que não se fala desde 2016 começará – ou voltará – a trocar mensagens, auditórios serão ocupados, panfleteiros virtuais ficarão ouriçados, os ranços de sempre serão desnudados, as redes sociais vão virar praça de guerra a cada resultado positivo ou negativo do time, até que chegará o final do ano e teremos um novo presidente, que prometerá tudo o que já foi prometido – e não foi feito. Em suma, jogo político de reunião de condomínio no playground. Ah, sim, e os caras que mais lutam pela política são os primeiros a serem postos de lado e ridicularizados pelas costas. Este é o cenário patético da vida política do Fluminense.

O resultado disso tudo? Em 2022 teremos jogado mais três anos no lixo, se lixo houver.

VIII

Desde já, declaro meu total respeito aos amigos que tentaram – ou ainda tentam – mudar as coisas para melhor no Fluminense, com cargos, no Conselho ou em outros postos, independentemente de concordarem comigo. Por vezes, a míope visão panorâmica e as paixões incendiárias fizeram com que muitos se afastassem uns dos outros, cortassem relações ou até se tornassem inimigos(as), o que é uma pena.

Mas a mentira não faz parte da minha lida, nem para com os outros e muito menos para comigo.

Não acredito que esse modelo de fazer as coisas possa dar certo. Melhor dizendo: acho impossível, seja qual for a futura nova gestão do clube, agora, amanhã, ano que vem.

Quem me respeita, me tem em consideração ou desfruta de minha amizade entenderá minhas opiniões aqui expressas. Quem está ao contrário disso simplesmente não me interessa.

Há mais de 30 anos, perdemos o protagonismo político no futebol do Rio e do Brasil. É tempo suficiente para se perceber o erro e corrigi-lo. Ganhamos alguns títulos, tivemos momentos luminosos, mas fomos opacos na maior parte deste período.

Falta carisma, falta atitude, falta a capacidade de agregar, falta colocar a baixeza no lixo, falta priorizar o coletivo em vez do particular.

IX

Espero em 2019 ter motivos para pelo menos ir ao clube votar numa mudança de verdade: de paradigma, de patamar, de atitude, de agregar, de mentalidade. Porque se não houver, nem perderei meu tempo.

Chega de política requentada, sem gosto e com mais do mesmo. Chega de ir votar no menos pior para evitar o desastre. O Fluminense precisa de renovação de verdade, a começar pelo fim desse modelo político dos tempos do “Café com leite”, cafona e obsoleto.

Chega de ser chamado a cada último ano para fazer claque em reuniões ou aparecer em fotos protocolares. Não contem comigo para o papel de panfleteiro eleitoral. Nem minha coluna, nem meu blog.

Quando quiserem colocar o Fluminense na vanguarda cultural do futebol brasileiro, trabalhando firme, em EQUIPE, sem peitos de pombo estufados e inúteis, sem a empáfia oca do mundo corporativo que não entende PORRA NENHUMA de Fluminense, sabem onde me achar. Se não quiserem, vida que segue.

No mais, esta é a minha palavra, a de quem nunca fez conchavo com candidatos do clube, não fez e não fará, o que nem todos podem dizer por aí, ao menos se passarem por um detector de mentiras em funcionamento pleno. Eu topo passar numa boa. Alguém mais?

X

Cheguei até aqui e não falei de Samorin, de farra dos ingressos na Libertadores, do cambismo ano passado, de Seu Bismark, da “limpeza étnica” que se tentou fazer na arquibancada, das contratações estapafúrdias que fizemos nos últimos 20 anos, de gente que entrou fudida no Fluminense e saiu milionária, de “tricolor” que faturou grana indevida do clube etc. Um caixão preto que sempre fica de lado, recheado de velhas novidades. Não dá tempo para escrever um livro e, de processos, já me basta o que me moveram covardemente com a total leniência dos Srs. Peter Siemsen – ARGH! – e Márioi Bittencourt, mas nunca é demais lembrar: quem é processado também pode processar…

XI

O campo é outra coisa, separo de toda essa tralha acima. Não me interessa nenhuma guerra estúpida.

Mesmo com todas as dificuldades, só penso numa vitória domingo em Salvador.

Apesar de muito triste com a ressonância magnética do Fluminense e os seus arredores, o que me move é a velha paixão de menino – e com ela eu vou até o fim, mesmo que seja cada vez mais uma experiência individual.

Desculpem o desabafo. Há meses evitei falar do que está nessa coluna, mas o saco encheu.

Já ensinava o monumental jornalista Tarso de Castro, fundador do Pasquim: “É preciso ter amigos, mas poucos”.

Tarso foi certeiro do começo ao fim.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

9 Comments

  1. É muito ruim constatar que o Fluminense é refém dele mesmo, de uns poucos. Você deveria estr lá comcargo brigando dentro. ST

  2. Voc~e diz que todo mundo já esteve lá, mas quem manda hoje é a Flusocio. Não dá para aliviar ninguem nisso.

  3. Tudo certo e desanimador. Será que nossos filhos e netos terão que ser torcedores do Real Madri ou do Manchester ou Bayern. Porque não dá pra continuar do jeito que está.

  4. Maravilhosa a análise. Tive o prazer de acompanhá-la pelo Observatório e acabei parando aqui procurando mais sobre o autor.

    O que o autor acha da possibilidade de termos uma gestão ‘privada’ do FutebolClube ?

    Seria possível legalmente falando dentro do estatuto o futebol ser gerenciado por uma empresa (injetando recursos e eficiência) nos processos ? Na Europa vemos a figura do investidor que tem o clube como uma fonte de investimentos e retorno.

    Seria possível e viável algo assim no…

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