Pelé (por Paulo-Roberto Andel)

Esqueço por ora de Edson.

Quem sou eu para julgar os eventuais erros de um ser humano? Também os cometo.

Outros na verdade foram acertos, mas quem é de fora nem sempre tem ampla visão de tudo. Geralmente caem no esquecimento.

Estranha a ingratidão que o ser humano às vezes se apega: não elogiar o amplamente elogiável, não reconhecer qualidades e talentos no outro.

Hoje é dia de Pelé.

O gênio que transcende Edson. O atleta do século XX. O Rei do futebol.

O maior jogador de todos os tempos.

Setenta e dois anos de arte.

O futebol brasileiro sempre teve grandes craques, mas ele é dividido em AP e DP: antes e depois de Pelé. Quando Edson incorporou o personagem de vez para nunca mais deixá-lo, nosso jogo de bola passou a ser outro. E o mundo inteiro se curvou. O Rei já chegou a interromper uma guerra para que todos pudessem vê-lo e respeitá-lo.

Felizmente, naqueles tempos ninguém tinha a audácia de dizer que os números de Pelé eram beneficiados pela arbitragem. O meu amado Fluminense sofre desde sempre com o implacável ódio dos meios de comunicação, assim como sofreu muitas vezes contra Pelé em campo – numa delas, ele driblou nosso time inteiro e, com isso, inventou o “gol de placa”. Em 1970, nosso grande campeonato brasileiro foi conquistado contra Pelé e seu galáctico Santos: quantos times do mundo podem se orgulhar de uma façanha assim?

E o Corinthians? E o Palmeiras? O Flamengo? Sofreram? Todos, amigos, todos os torcedores do mundo sofreram quando Pelé estava do outro lado do campo, defendendo o adversário. Para sorte do povo brasileiro, foi com nossa camisa que ele levantou três campeonatos mundiais de futebol.

Qualquer coisa que se fale sobre Pelé hoje será pouca. Livros já foram escritos, documentários produzidos, teses, conversas, programas de rádio e tv. Tudo é pouco para descrever a genialidade do Rei.

Vi Pelé na tela da televisão uma única vez ao vivo, ou quase, em sua despedida do New York Cosmos. Eu era pequenino e já sabia de sua importância. Lembro-me de ver meu pai com os olhos fixos à tela; logo ele, tricolor como eu e também são-paulino, que quase não expressava grandes emoções, ficou com os olhos marejados. Fiquei com medo, perguntei o que era, ele disse “Nada, filho”, foi ao banheiro e voltou para ver o jogo. Na verdade, secou as lágrimas que lhe nasceram à vista; ele foi um garoto e viu toda a carreira de Pelé. Sabia o que tudo aquilo significava. O fim de uma era.

Tempos depois, meu pai começou a me levar a vários jogos e fiquei com esse gosto para sempre. Lá se vão mais de trinta anos. E será assim até a morte. Pude ver muitos craques, já chorei muitas vezes em grandes vitórias e derrotas, sou um torcedor apaixonado por futebol e principalmente pelo meu amado Fluminense, amor que é inesgotável.

Mas nunca mais vi nada tão simbólico quanto naquele dia na televisão ao lado de meu pai.

Fiz vários times de botão, mas nunca tive um Pelé: para mim, era fora do ambiente terrestre.

O homem com o soco no ar. O homem de mais de mil gols, perfeito em todos os fundamentos e que, nas horas vagas, divertia-se defendendo pênaltis. O homem que fez um planeta inteiro respeitar para sempre seu time de camisas brancas, todo de branco da paz. Em caso de dúvidas, as bibliotecas e o Youtube não me deixam mentir.

Todo respeito a Zizinho, Puskas, Garrincha, Domingos da Guia, Rivelino, Ademir da Guia, Reinaldo, Beckenbauer, Maradona, Messi, Rummenigge, Careca, Paulo César Caju, Dicá, Sócrates, Falcão, Romário. Dezenas. Centenas de outros. Messi e Neymar, jovens ainda. Os outros jovens que ainda virão. Mas Pelé foi Pelé.

O Rei.

O maior jogador de futebol de todos os tempos, que jamais será igualado.

Qualquer coisa que tente negar esta última frase tem o sopro da ingenuidade.

Lembro daquela cena da televisão e choro: onde está meu pai agora?

Pelé, obrigado por tudo. Se hoje estou aqui, com seu futebol num único e derradeiro dia, você me ajudou muito sem saber. A mim e a um mundo inteiro.


Paulo-Roberto Andel

Panorama Tricolor/ FluNews

@PanoramaTri

Contato: Vitor Franklin

5 Comments

  1. Paulo, que bacana esta crônica! Emoção concentrada e em estado puro. Parabéns! Não esqueçamos que por coincidência foi indiretamente através de Preguinho que Pelé foi convocado pela primeira vez, em 1957, por Sylvio Pirillo, então técnico do Fluminense e que logo depois foi indicado para dirigir a Seleção Brasileira, convocando Pelé para dois amistosos contra a Argentina. Está no nosso livro! ST, Waldir Barbosa Junior

  2. Quem tem bom caráter não precisa ficar desvalorizando times e jogadores bons que não vistam as suas cores.

  3. Gostaria muito de um dia me encontrar com o Pelé, dar-lhe um abraço e agradecer a todas as alegrias que ele me deu no futebol, inclusive quando jogou contra o Flu. Mas, eu tenho apenas uma camisa do Santos, do Robinho, autografada por ele com a dedicatória: Ao meu amigo Jorge Dantas. Nunca nos vimos, foi um amigo meu santista, que mora em Santos, que, sabendo da minha admiração pelo rei, pediu a ele que me mandasse a camisa autografada. Foi o mais perto que cheguei do negão.
    Pelé reina no Maracanã, sua verdadeira casa, na Vila Belmiro, em Wembley, no Rasunda, no Azteca, no Nacional do Chile e em todos os campos de futebol do mundo, inclusive nos de várzea. Pelé só falhou ao não jogar pelo Flu.

  4. Parabéns, REI!

    Quem não reconhece sua majestade só pode ser discípulo de Milton Fezes, ops, Milton Neves.

    Brax, mestre Andel!
    SSTT!!!
    RUMO AO TETR4!!!

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