Outro clássico, outros clássicos (por Paulo-Roberto Andel)

No meu tempo de garoto a gente ganhava fácil, com três quarteirões de vantagem. Em 1980 eles eram favoritos, tinham um timaço mas de nada adiantou. Mesmo quando éramos eliminados, caso de 1981 no Brasileirão, a torcida aplaudia de pé – que partida! A saga continuou até o fim da década, ou exatamente 1993. Perdemos o rumo no frango do Ricardo Pinto – depois o Fernando Henrique fez coisa muito pior -, mas só não ganhamos o título porque, no jogo final, Seu Pomeroy deixou eles baixarem a porrada com toda a cera do mundo.

Aquela partida de 1981 foi muito marcante: que garoto pode esquecer de seu time ovacionado mesmo depois de uma desclassificação? Teve o título de 1984, claro, o Romerito, aquilo tudo, o gol de placa do Washington. Mas Fluminense versus Vasco era tão especial que duas partidas espetaculares da minha memória não têm a ver com título.

Taça Guanabara de 1987. Eles jogavam por um empate e lotaram a arquibancada até o nosso escanteio – ficamos espremidos (com espaço) entre o placar atrás do gol e a grande da tribuna. Metemos 3 a 0, Assis deitou e rolou, foi seu canto do cisne. E 1989, da Copa União de 1988, porque o futebol brasileiro já era uma zona. Que jogo! Dois a um pra eles no último minuto, com invenção do Wright de obstrução dentro da área. Prorrogação eletrizante, outro golaço de Washington por cobertura, encobrindo Acácio, e fomos para as semifinais eliminando o melhor time do campeonato. Escrevi disso em “O Fluminense que eu vivi”, aquele livro de capa preta, o único da história do clube.

Depois veio um longo e tenebroso inverno, perdemos muito, Eurico babava espuma de sangue a brilhar de ódio. Ainda demos a bela chinelada na Copa do Brasil dentro de São Januário, com o jogadaço do Roger, cruzando com nojo. Ano passado batemos bem, duas de três. Vamos ver no que dá. Eu acho que o Flu joga de igual para igual no mínimo, o que não quer dizer grande coisa nowadays, mas ajuda.

Eles tinham Roberto, a gente tinha Edinho. O Flu entrava todo de branco, debaixo de uma nuvem colossal de pó de arroz. Da torcida, cuidava o Gonzalez. Tinha cachorro quente, astronauta vendendo coca-cola com máquina de espuma nas costas, placar de lâmpadas com o pé bicando a bola na saída de jogo. Adão era um monstro, muito melhor do que Fred, que me desculpem as viúvas. Deley e Mário jogavam demais, Rubens Galaxy era o espírito do Fluminense que anda. Tinha gente, gente, gente.

Às vezes o jogo era no meio de semana, mas o certo mesmo era clássico no domingo às cinco da tarde, com preliminar às três. Tudo mudou. Agora é sete da noite no meio de semana, para ninguém ir e a TV faturar com a audiência. O jogo só vale em termos de moral, o campeonato é esvaziado, não tem mais nuvem de pó de arroz. Não encontro mais o Catalano, nem o Xuru, nem o Cassiano. Não tem mais Seu Manel no Bar Sniff reclamando do Paulo Victor, que defendia tudo. Não compro mais a pizza da vitória na Bella Blú.

A vida continua, os clássicos são eternos, mas uma pergunta é inevitável: onde foi que os cartolas e a Globo sepultaram o cadáver da minha infância no Maracanã? A ossada do estádio ainda está aí.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

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