Os garotos, a praia e o Flu (por Paulo-Roberto Andel)

I

Ainda compro discos de música, em plena era de novidades tecnológicas. Há quem me considere atrasado e isso é, para mim, de uma completa desimportância: gosto do ritual de abrir um CD da mesma maneira que fazia com um LP no passado. Colocar o som para tocar, ouvir cada faixa, ler o encarte, as letras, há todo um cenário envolvido nisso bem conhecido por apreciadores de música. Nenhum problema com quem apenas faz download de faixas ou outros procedimentos – eu mesmo tenho vários –, mas prefiro a prática convencional. Talvez seja como lanchar um misto quente na Confeitaria Colombo – ele pode ser tão gostoso quanto em N outros lugares, mas onde você poderia captar a mesma atmosfera clássica de lá? Ou na Leiteria Mineira, preferida de meu amigo Carlito Azevedo. Apenas gostos e detalhes.

Desde segunda-feira passada um CD não sai de meu aparelho: “That’s why God made the radio” (ou “Por isso é que Deus criou o rádio”), do seminal grupo de pop-rock Beach Boys. É  o primeiro trabalho da banda em mais de vinte anos que nele participa o genial Brian Wilson, multi-instrumentista, cantor, compositor e arranjador. Uma obra-prima!

II

Em 1970 eu era um garoto da praia de Copacabana. Minha amada mãe me carregava pela mão direita – na outra, eu carregava um biscoito Globo, essencial para a beira-mar. Noutros dias, ela ficava louca quando comprava um balão de gás hélio para mim e, claro, dez minutos depois eu começava a chorar porque o dito balão já tinha tomado o rumo de Marte. Claro também, já era tricolor, as fotos atestam. E continuei sendo um garoto da praia até quando deixei de morar Copacabana, em 1992. Foram longos anos, vinte e cinco. Lá, joguei muito futebol de areia, conheci as primeiras namoradas, admirei o Copacabana Palace e toda orla, corri e fiz traquinagens. Ainda é meu lar principal. Por conta de tudo isso, anos mais tarde admirei o trabalho dos Beach Boys ao ouvi-los na casa de meu querido – e saudoso – amigo Fred. Apesar de estarem a milhares de quilômetros, os Beach Boys cantavam sobre surf, garotas bonitas e praia – tudo Copacabana de alguma forma. Depois, trilharam um rumo de enorme qualidade com inúmeras influências musicais, de modo a serem considerados uma das maiores bandas de todos os tempos. E tem sido curioso para mim nos últimos dias enxergar momentos de analogia entre os Beach Boys e o Fluminense, divertida brincadeira a misturar fantasia e realidades irrefutáveis.

Com a chegada de “Pet Sounds” (1966), os Beach Boys deixam de ser uma banda “apenas” divertida e chegam ao topo, mostrando uma excelência admirável e prometendo um caminho de mil glórias. Logo em seguida, um baque profundo: Brian Wilson, com enormes problemas de saúde simplesmente abandona o projeto de “Smile”, que seria o disco-mor da banda – fica anos de cama e deixa o grupo para voltar anos depois. A banda ainda faz discos memoráveis, mas pouco reconhecidos às vezes.  Mais tarde, nos anos 80, parariam de vez, retomariam a atividade sem Brian e, agora, neste 2012, ele está de volta com sua genialidade incomparável. Nesse caminho que citei acima, minha primeira analogia seria a do Fluminense imortal em 1995, com o maior título de todos os tempos, para depois sucumbir no período diabólico entre 1996 e 1999 (sempre a ser lembrado, pois nossa história foi escrita a sangue-frio e não permite lapsos de memória). Quando passamos por aquele período difícil, eu já não era mais um garoto da praia como gostaria, ainda que parte disso esteja em mim para sempre.

Assim como os Beach Boys fizeram trabalhos admiráveis, mas sem o devido eco depois do fracasso de “Smile”, o Fluminense passou vários anos desde 1999 se reconstruindo: foi campeão do centenário em 2002 (com a devida galhofa da pavorosa imprensa convencional), chegou a duas semifinais seguidas de brasileiros em 2001 e 2002 (antes, em 2000, já tinha realizado excelente campanha, abreviada antes da hora pelo chute de Ademar), foi vitorioso em 2005 e, finalmente, em 2007 conseguiu a vaga de volta para a Libertadores ao conquistar a Copa do Brasil. Tudo isso foi digno do maior respeito e admiração, mas jamais vimos os bons caminhos do Fluminense deste período dignamente mostrados nos meios de comunicação – no mesmo 2007, ainda fizemos um campeonato brasileiro brilhante, mas a imprensa também se “esqueceu”. No Maracanã, o Fluminense escrevia grandes capítulos que não ganhavam um quarto de página nos jornais; nas praias do Pacífico norte-americano, os Beach Boys davam as cartas e não tinham a divulgação merecida.

“Summer’s gone”

Há pouco, saiu “That´s why God made the radio”, a obra-prima que mencionei antes. Vocais fantásticos, produção colossal, arranjos estratosféricos, praias, garotas bonitas, amor, certa melancolia e… o fim, perfeitamente descrito na última faixa, “Summer´s gone” (O verão se foi). Exceto o Fluminense, donatário da eternidade com a bênção de Nelson Rodrigues, ninguém mais goza dessa possibilidade. Os Beach Boys agora são avôs respeitáveis, passaram dos setenta anos e, de acordo com belíssima resenha escrita pelo jornalista Carlos Albuquerque em “o Globo”, “pegam aquela que talvez seja a última onda de suas vidas”. O tempo não para, infelizmente.

Nesta hora também não fujo à melancolia: penso na inevitável despedida de Deco, possivelmente em 2013. Um dos maiores jogadores que vestiu nossa camisa nos últimos anos, digno das cores de um Delei, um Gerson, um Didi. Saber que Deco nos deixará é doloroso, mas conforta saber que ainda esperamos muito coisa dele para o tempo que resta.  Por outro lado, o novo disco dos Beach Boys, aclamado com razão, me leva a pensar em nosso título de 2010 – assim como a banda, o Fluminense dissipou qualquer chance de ser apequenado pela cobertura midiática. Em sua brilhante jornada, calou detratores e chegou ao topo. Muitos na música também pensavam que o disco novo seria apenas um caça-níques, mas quebraram estupidamente a cara – onde há o gênio de Brian Wilson, não pode haver acomodação. “That´s why…” merece ser ouvido por amantes de boa música: transcende gêneros e definições, mais ou menos quando a linda torcida do Fluminense passa e todos ficam embasbacados a admirar suas – nossas! – belas mulheres.

No fim do disco, “Summer´s gone”  oferece versos reflexivos e tristes. Pela excelente definição de Carlos Albuquerque, “Na cabeça de Brian Wilson, seria a música perfeita para encerrar o último disco da carreira dos Beach Boys. Nela, ele canta: O verão se foi/ A noite fria se aproxima/ É hora de partir. Se for isso mesmo, não poderia haver trilha sonora melhor para quando a água do mar levar embora os lindos castelos de areia criados por seu grupo”. E aqui divergem para sempre os Beach Boys e o Fluminense: a banda passará (?) enquanto nosso time sempre há de navegar no perene, no contínuo. Todos nós passaremos pela mesma despedida, mas a camisa do Fluminense está assegurada nos corpos das belas mulheres, dos jovens impetuosos, dos senhores respeitáveis que também respiram juventude – estampada no nome de uma das nossas principais torcidas organizadas.

Mas, pensando bem, os Beach Boys vão passar apenas fisicamente. Como diria nosso interminável ídolo tricolor Gilberto Gil, “caminho inevitável para a morte”. Mas a história fica para sempre, eterna, assim como a de Deco estará imortalizada. Temos um ano e pouco para aproveitarmos seu maravilhoso futebol? Então que seja o maior de todos os anos. Os Beach Boys acabaram de deixar a lição: se a despedida é inevitável, então que seja maravilhosa, colossal, inesquecível e que sustente um grande legado para sempre. Quanto ao Fluminense, sabemos que é o senhor de todos os tempos.

Os versos de “Summer’s gone” me fizeram chorar várias vezes. Um dia eu também fui um garoto da praia, um dia a noite fria fará com que seja minha hora de partir pelo fim do verão. Não sei quando será e nem quero pensar – sigo a lição da banda: sejam vinte, trinta, quarenta anos ou seis meses, eles serão vividos em riste, “completamente Fluminense” na acepção de Rogério Skylab. Mas desconfio que há alguns castelos de areia a serem erguidos na praia ainda, sem água do mar a levá-los de forma precipitada. “Summer’s a promise”.

Paulo-Roberto Andel

@pauloandel
Panorama Tricolor/ FluNews

9 Comments

  1. Acredito que Deco não termina carreira no Flu sem nos presentear com um grande título! Libertadores de 2013 com o elenco que temos até o presente momento pode ser merecidamente nossa e temos como fazer por onde!

  2. Ainda a parte da apreciação detalhada que Paulo Andel faz com as obras músicais é admirável! Me lembra quando vou ao cinema e não saio de lá até vêr os créditos do filme até o final.

  3. NAO CURTO ESSA BANDA LIVERPOOL EXPRESS ALLAN PARSON PROJECT E THE HOLLIES> BEACHBOYS PAULO…

    DE MUSICA VC ENTENDE POUCO….

    1. Paulo responde: Reirom, você é série D ao comentar postagens. Praticamente um Joel Cavalo das letras.

      Em tempo: juntar no mesmo bonde Hollies, Parsons e Beach Boys é colagem do Google…

      Vai lá pro ETC chorar magoazinha no mural! Ahahahahahahaha

  4. LIVERPOOL EXPRESSE ESCUTE RAPAZ…… NAO VAI SE ARREPENDER…….

    SOU CULTO GOSTO REFINADO POR MUSICA

    THE VENTURES> BEACH BOYS

    SURF ROCK ETC

  5. Paulo responde: Reirom, para de caô e grava um trash dai do Ceará pra postarmos logo.

    Tu misturou Hollies com Beach Boys, perdeu credibilidade!

    RAT

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