Os exageros (por Paulo-Roberto Andel)

Volta e meia converso com alguns dos camaradas do Panorama Tricolor a respeito de certo comportamento de alguns torcedores do Fluminense, democraticamente falando.  Em diversas situações, manifestam-se com até certo excesso crítico na primeira derrota ou mesmo má atuação que nosso time exerça. Por isso, acabam recebendo a pecha de “corneteiros”, expressão (mal) copiada das entranhas do Parque Antarctica, onde os conselheiros palmeirenses, geralmente dentro daquele perfil italianão-que-fala-alto, faziam as mesmas críticas dentro do clube nos anos 70. Sim, o “corneteiro” tem tudo para ser um chato e é.

Bom, então surge outra figura no cenário tricolor, disposta a tudo para simplesmente dizimar a figura do “corneteiro”: o “caçador de corneteiros”, que não tolera de forma alguma qualquer crítica ou restrição à atuação do time do Fluminense – para ele, tudo é belo, ganharemos todos os jogos e, se isso não acontecer, é porque o árbitro “roubou” ou demos azar.

Particularmente, acho que tudo depende de uma sequência e não se avalia a reta por um ponto somente. Mas uma coisa me chama atenção nessa história de debates esportivos: em geral (e não sempre, favor prestar atenção), o “corneteiro” não tem compromisso com a eliminação da opinião contrária a ele. Vai lá, seja no estádio, numa rede social ou na mesa de bar e expõe o que pensa. Enfim, mesmo que vocifere a maior besteira do mundo, expressa-se e pronto. Já o “caçador”, também em geral (mas também nem sempre) segue outra vertente: é preciso extinguir a opinião do “corneteiro”, pois ele “não é tricolor” (esse tipo de afirmativa, aliás, dá uma bela crônica). E essa briga entre torcedores do mesmo time, que leva do nada ao vazio, permanece durante os tempos.

Falo de uma simples fotografia: quarta-feira passada. O “corneteiro” acha que o mundo acabou, pois a atuação desastrosa mostra que não disputaremos absolutamente nada neste ano. Já o “caçador” acha que todos os “corneteiros” devem ser “assassinados”; afinal, foi apenas uma derrota e o time está muito bem.

Por partes.

Não há dúvidas de que o Fluminense vai muito bem na tabela. Serão quase quarenta jogos, a trajetória tem oscilações necessárias e inevitáveis, jogamos sem Deco (praticamente nosso treinador dentro de campo e reserva técnica para qualquer jogada criativa que preste), perder no Olímpico não foi nenhum desastre. Ponto.

O outro lado: a atuação de quarta-feira foi patética e, não fosse o lindo uniforme que reestreamos, talvez ninguém soubesse que ali era o Fluminense em campo, tamanha a postura apequenada para aquele confronto.

Outro vértice: temos um time com jogadores de alto nível, onde alguns nem sempre mostram esta performance (caso claro de Neves). Neste 2012, fizemos três jogos espetaculares: vitória sobre o Boca na Bombonera, 3 x 1 sobre o Vasco na Taça Guanabara e os 4 x 1 sobre o Botafogo na final do estadual. Para o elenco e o custo que temos, três grandes partidas em mais de seis meses constituem muito pouco. Precisamos de mais.

O torcedor mais imediatista há de dizer: “Eu quero é ganhar”. Bom, na verdade todos nós queremos. Mas não faz sentido desvincular a conquista de três pontos de atuações convincentes. Na Libertadores, depois de partidas sofríveis (exceto Boca na Bombonera), chegamos ao jogo decisivo, fomos melhores mas sucumbimos. Acontece, é do jogo. Mas deveria ter servido de lição para os passos seguintes. Há muito a ser feito e isso é que, na verdade, deixa os “caçadores” desesperados  – o Fluminense que tanto desejamos ainda não está em campo. Ele se mostra muito bem na pontuação e na classificação do campeonato brasileiro, mas ainda deixa a desejar em termos de mais atuações empolgantes.

Bom, ainda ia falar do confronto “modinhas” x “sempre em campo”, mas isso fica para outra pauta.

Ficarei muito feliz se,  num dia distante, “corneteiros” e “caçadores” perceberem que não são donos da verdade e que, por incrível que pareça, torcem para o mesmo time – de modo que deveriam buscar um entendimento democrático, sem perder tempo com querelas inúteis. Torcemos para um time de futebol, não estamos numa guerra estúpida onde é preciso negar o outro, matar o outro. Em tese, estamos todos num mesmo barco; não parece chato que alguns insistam que este mesmo barco vai afundar a todo instante? E que outros insistam que, se tiver problemas no barco, não é preciso fazer nada porque “está tudo bem”?

Depois de tudo isso, claro, há quem vá dizer que eu “não sou tricolor”…

O que me restará além de uma sonora gargalhada?

Claro, sem exageros.

Tenho mais o que fazer.

Por exemplo, torcer pelo FLUMINENSE amanhã, e não pela vitória de minhas teses.

Ou ser apenas um chato quando enxergo intolerância em debates. Mas tudo bem: há gente muito, mas muito mais chata do que eu.

Paulo-Roberto Andel

@pauloandel

4 Comments

  1. ANDEL VC QUER MAIS CORNETEIRO QUE LEO PRAZERES AMIGO? ENTAO NAO FALE DOS CORNETEIROS SE VC IDOLATRA ESSE CARA…..

  2. Andel, o time do Flu tem como ponto forte seus meias e atacantes, mas não sabe explorar isso. Por outro lado o time é focado em jogar na defesa, que é justamente onde não temos jogadores de categoria.
    Não consigo entender nosso treinador, por esse motivo fico do lado dos corneteiros. Claro que não tenho nada contra os jogadores (na verdade tenho sim… Bruno, Edinho e Anderson suas m*las), meu problema é mesmo com o Abel que deveria levar um bom puxão de orelhas da diretoria.

    S.T

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