Órfãos da arrogância (por Paulo-Roberto Andel)

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A velha sala branca sem janelas, modesta, silenciosa, vozes mecânicas por perto e escuto uma canção de 20 anos atrás: “Planet Telex”, início de um Radiohead que ainda iria desafiar definições e ganhar o mundo como um dos maiores trunfos do rock inglês. Seus primeiros versos traduzidos dizem “Você pode forçá-lo, mas ele não virá/ Você pode prová-lo, mas ele não vai se consolidar/ Você pode pressioná-lo, mas ele sempre estará aqui/ Você pode pressioná-lo, mas ele sempre estará por perto/ Te seguindo até sua casa e dizendo/ Tudo está quebrado/ Todos estamos quebrados”.

NUVENS e nuvens e nuvens num cinza que não tem tamanho. Mergulhados no oceano fúnebre da arrogância, alguns – ou muitos – de nós parecem perdidos demais, ora enxergando hipérboles desconcertantes, ora num misto de megalomania e carência, verdadeiras naves siderais desgovernadas. Então temos inventado que alguns são melhores do que os outros, que simples mortais talentosos devem ser ídolos inquestionáveis e admirados por sua impossível perfeição, que vivemos a mentira de um lado e a verdade não do outro, mas do mesmo. Eu tenho razão e você é um imbecil. Você tem razão, o imbecil sou eu. Nossa perdição. Onde foi que nos equivocamos mesmo? Um dia fomos procissão, ternura e humildade; agora, verborragia oca, incensada por pseudointelectuais de merda, que nos oferece apenas o caminho de bobos da corte com narizes empinados, numa empáfia de tal mediocridade que chega a ser comovente. Deitados em berço esplêndido de uma superioridade que só nos tem à tona em momentos entorpecidos. Essa não é a nossa história. O livro dos nossos dias tem suas páginas escritas com vontade, sentimento e dedicação, tudo absolutamente longe destas manchetes estapafúrdias feitas para vender jornais que despertam pouco interesse. Conseguimos vitórias, troféus, títulos, mas perdemos o essencial: nossa capacidade de entender nossas raízes, ora assumindo o triste papel de cortesãs em troca do dinheiro vil que não nos tinge a camisa, ora como reféns dos caprichos de sujeitos mal resolvidos que, por sorte e destino, tornaram-se milionários com o jogo de bola. Eis a nossa maior derrota: não sabemos mais distinguir o talentoso do craque e este, do ídolo. Temos vivido o presente como se este fosse a nossa única referência, como se não fosse o passado a nossa grande bandeira a honrar e empunhar a construção dos dias que virão. Não se pode desagradar o jogador boquirroto e fanfarrão, não se pode questionar o dirigente com seu tom professoral, nem pensar em malversar os humores do dono do dinheiro alheio, todos senhores da razão sem rumo. Mais um ano se passou, perdemos dias de nossas vidas e nos agredimos por causa de subprofissionais de merda, de certo empresariado de merda, tudo porque não nos basta disputar, vencer e também perder – queremos a suprema megalomania? A esquizofrenia ilimitada? Parece que não nos aceitamos como somos: diferentes, especiais, em vez de manipuladores e opressivos. A nossa maior derrota: desaprendemos o respeito a nós mesmos. Os bostalhões do academicismo retórico sorriem com suas bocas pouco beijadas, pouco afeitas ao amor. Os campeões das ciências curtas e apagadas apregoam o fim dos tempos quando as primas donas derem adeus: desconhecem a história. Celebremos a inimizade entre os irmãos. Comemoremos a estupidez divina que assalta a razoabilidade e proíbe a dialética. Daremos um viva aos arrogantes, reacionários, perdidos em seus reinos mequetrefes das salas refrigeradas, que comemoram uma discussão inútil vencida e o também inútil poder escorrendo por entre as ventas: “Eu sou mais tricolor do que você! Eu sou foda!”. Poderosos capatazes da situação iludem-se na condição de grandes vencedores, mas não enganam sequer a si mesmos. O destino há de dinamitar os rancores, o egoísmo vil e trazer de volta a lucidez, a simpatia, a estirpe do Fluminense, sem donatários da verdade, mas apenas com trabalho, sentimento e fé. Amor, Tricolor! Fé. Um carrasco nos redimirá de vez, até o dia em que seremos todos inúteis, por demais satisfeitos e finalmente órfãos da pestilenta arrogância. Nos sonhos distantes, o carrasco da maldade há de nos redimir e nos reconduzir ao caminho do qual jamais deveríamos ter nos distanciado: o das três cores da humildade. Num mundo onde o futuro é a morte, ainda perdemos nosso precioso tempo sem nossos velhos abraços das arquibancadas, quando todos éramos um por todos, todos por um. Aqui jaz o nosso livro dos dias, para ressuscitar num outro dia, numa outra estação. E é só.

“Você pode forçá-lo, mas ele não virá/ Você pode prová-lo, mas ele não vai se consolidar/ Você pode pressioná-lo, mas ele sempre estará aqui/ Você pode pressioná-lo, mas ele sempre estará por perto/ Te seguindo até sua casa e dizendo/ Tudo está quebrado/ Todos estamos quebrados”.

A sala está definitivamente branca e vazia.

O Fluminense ruge.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

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4 Comments

  1. De 1999 até hoje, esse time atual do Fluminense é o único que me fez passar raiva além da conta, dá nojo ver alguns desse jogadores em campo e dando suas entrevistas cheias de desculpas esfarrapadas. Não lembro de outro time do Fluminense que reclamou tanto de estrutura, lesões, quantidade de jogos e etc, pra tentar tirar a culpa dos próprios ombros e fazer a torcida de trouxa!

    S.T

  2. Uma prosa poética!
    Nossa situação moral caracterizada com excelência.

    Não podemos permitir que a mesquinhez de alguns nos faça perder o foco.
    Defender o eterno não é romantismo nem idealismo, é pegar o passado e projetar no futuro.
    A solidez e a continuidade definem uma instituição.

    Esses são conceitos essenciais ao entendimento do que é o Fluminense.
    Quem não os observa serve outros intereses que não os tricolores.
    Ama mal enquanto nocivo procede.

    2015 será melhor. Não é difícil.

  3. Bendita seja a Flupress com seus Paulos Robertos Andels e suas crônicas vitais para o exercício contínuo da inteligência transformadora.

    De arrepiar!

  4. A humildade passou bem distante das Laranjeiras nos últimos tempos. Mimos e prerrogativas foram concedidos à revelia do Fluminense. E não se cortam concessões como estas sem consequências, tanto ao beneficiado, mal acostumado e indisciplinado, que se indispõe contra o poder maior do Clube ou age ante a sua permissividade; quanto ao torcedor, facilmente manipulado por pseudo-ídolo que o doutrina a seu bel-prazer, num exercício grotesco de autopromoção e interferência indevida em assuntos internos

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