Ok, mas e o retorno esportivo? (por Paulo-Roberto Andel)

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Que o Fluminense está numa pindaíba de doer – feito eu -, não constitui qualquer novidade.  Afinal, não se paga centenas de milhões de reais com pitis de internet. Futebol é negócio, é dinheiro e neste aspecto estamos ficando cada vez mais para trás no cenário nacional. É certo que a crise econômica prejudica, mas basta ver como outras equipes do futebol brasileiro se movimentam, enquanto ficamos a ver navios.

Ainda que eu nunca mais vote no atual grupo que toca o clube – e só o fiz porque acreditei ingenuamente que seria possível encerrar o mar de ódio que invadiu o Fluminense desde o começo do século XXI -, não me cabe a nova ingenuidade de pensar que o cenário teria sido diferente com outro candidato eleito em 2016. O rombo aí está e não adianta tapar o sol com a peneira. Se pensarmos nos últimos cinco anos, com exceção de Deley, todos os postulantes à presidência do Flu passaram pela direção do clube com maior ou menor intensidade nas decisões que, de uma forma ou de outra, incidiram no terrível cenário econômico atual. É óbvio que, num regime presidencialista, as decisões finais couberam a Siemsen e Abad, mas a novela tricolor não se resume ao último capítulo nem de longe.

O próprio rombo que “explodiu” publicamente em 2017 não nasceu somente em 2016 ou 2015, 2014. Na verdade, há décadas o Fluminense vem sendo tocado à base de camelotagem contábil-administrativo-financeira (com idas e vindas, ressalte-se), muitas vezes despercebida na chamada Era Unimed, quando todo ano tínhamos jogadores de nome a granel, muitos que funcionaram e outros, não. Celso Barros – a quem sempre serei eternamente grato como torcedor, mesmo discordando de várias de suas opiniões e atos – usava sua patrocinadora para investir em salários e direitos de jogadores, sem oxigenar o caixa do clube (e, pensando bem, se levarmos em conta quem andou por lá, era o mais razoável a ser feito). A torcida vibrava com os novos craques, fossem bem-sucedidos ou não, o barco seguia seu rumo, o futebol ia – ou tentava ir – bem. Foi bonito e importante demais, mas um dia acabou. E não vai voltar.

Anos atrás, em muitas ocasiões o Fluminense vendia precocemente seus jogadores revelados na base, as chamadas “joias de Xerém”, por dois motivos: fazer caixa e não fazer sombra perigosa a veteranos consagrados. Desde 2015, por conta do fim da EU, vender imediatamente os jovens jogadores (muitas vezes, por valores bem abaixo da expectativa) passou a ser a única saída para um clube asfixiado financeiramente, que negocia o almoço para pagar a janta e leva sovas de patrocinadores caloteiros (ou nem tanto). Ao contrário de pretensos “formadores de openeaum”, não tenho a fórmula mágica para o Fluminense conquistar o bicampeonato mundial, menos ainda para driblar o drama das finanças atuais, embora pareça óbvio que ele passe por expressiva linha de crédito alongada nos prazos + realinhamento das despesas + habilidade negocial e capacidade de fazer dinheiro novo + repactuação com a torcida. E como conseguir dinheiro novo? Deixando de lado a vaidade e chamando quem possa fazê-lo, ora.

Vejamos o caso de Pedro. Consagrado na base, levou o tempo natural para se firmar entre os profissionais e finalmente deslanchou neste ano de 2018. Ainda que haja muita especulação e fofoca, somadas ao MOT (Mar de Ódio Tricolor), é evidente que se trata do jogador mais valorizado do elenco e, portanto, bola da vez para atenuar os combalidos cofres das Laranjeiras. É claro que toda a torcida é contra a possível negociação e, por mais reprováveis que sejam, os dirigentes também. Agora, de onde tirar dinheiro, considerando o cenário já descrito? Boa pergunta, mas quem tem que respondê-la é quem dirige ou quem será candidato a dirigir o Flu, de forma concreta, sem evasivas.

E aí vem um ponto crucial que costuma ser desprezado no Tricolor: o retorno esportivo. Se olharmos para trás, é possível imaginar que jogadores como Kenedy e Gerson possam ter sido bem negociados, tendo em vista suas realizações recentes. E tome Robert, Marlon e outros, um caminhão. O Wendel, vamos esperar.

Por exemplo, Richarlison retornou – ou pode ter retornado – uma boa quantia para o Flu, mas fez apenas 19 gols com a camisa tricolor em 69 partidas disputadas entre 2016 e 2017. Tudo leva a crer que progredirá cada vez mais no exterior, mas o legado para o clube ficou limitado ao caixa, se muito.

Outro caso: o lateral Marcelo, cantado e decantado, jogou apenas 40 partidas com a camisa tricolor em 2006. E só.

Pedro já vestiu a camisa do Flu em 76 jogos, tendo marcado 25 gols. Hoje é o principal nome do Fluminense, está cogitadíssimo para a Seleção Brasileira, inevitavelmente será um grande nome do futebol brasileiro no exterior. Num clube estruturado e organizado, não seria absurdo tê-lo por mais duas ou três temporadas (a exatos 510 quilômetros de carro das Laranjeiras, o Santos faz isso com relativa tranquilidade na Vila Belmiro – e quando negocia, o faz MUITO bem).

O dinheiro é necessário, mais cedo ou mais tarde a negociação é inevitável, mas sem retorno esportivo o Fluminense fica limitado ao papel de colônia de exploração, aquele mesmo do século XVI sem tirar nem por. Futebol é dinheiro, business, mas também é sonho, emoção, fetiche e nada disso pode funcionar direito com jogadores de histórias brevíssimas, sem grandes capítulos, sem grandes páginas de livros, por melhores que sejam.

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Não importa a limitação do adversário: qualquer jogo contra times uruguaios pode ser complicado. Olho vivo e faro fino nesta quinta-feira. Que o Flu espante o baixo astral e volte com a classificação na Sul-Americana.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

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