O último romântico (por João Marcelo Garcez)

O último românticoExiste uma diferença enorme entre o Fluminense de Cristóvão Borges e o Fluminense de Renato Gaúcho. A começar pela disposição e aplicação tática, incomparavelmente superior. É outro o espírito, é outra a motivação. Só o que não mudou foi o elenco, o que valoriza ainda mais este princípio de trabalho do novo treinador.A última vez que o time tricolor jogou um futebol de levantar as arquibancadas foi em 2009 (foto), quando era comandado por Cuca. Foi ele, Cuca, o responsável pelo milagre da transformação e pelo nascimento do Time de Guerreiros, rótulo que acompanhou o clube por muito tempo, até pouco antes da campanha desastrosa de 2013.Panorama II.Abre parêntese. Cuca fez história por seu padrão de jogo também no Atlético Mineiro, com o Galo Doido, alcunha que a equipe mineira ganhou ano passado pelo estilo atirado de atuar, na base do abafa, principalmente no alçapão do Independência, palco primordial para a vitoriosa campanha na Libertadores. Fecha parêntese.
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O Fluminense de Cristóvão Borges empolga como o Time de Guerreiros e o Galo Doido, mas difere no formato. O Flu atual adota um estilo romanceado, envolvente, de toque de bola rápido, que já na segunda rodada vem fazendo com que parte da crônica esportiva aponte o Tricolor com ligeiro favoritismo para a conquista do pentacampeonato brasileiro.Como todo começo de trabalho, carece ainda de mais observações, claro, sobretudo em clássicos nacionais (o Palmeiras foi um bom teste, mas o clube paulista é recém-egresso da Série B). Contudo, até aqui, o desempenho do Flu é elogiável e animador.
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Pego-me curioso ao notar que escrevi que a última vez que o Fluminense empolgou sua torcida na forma de jogar faz cinco anos. Não seria algo alarmante se, neste meio-tempo, o Tricolor não tivesse conquistado nada menos que duas edições do Campeonato Brasileiro (2010 e 2012/foto), com um terceiro lugar ainda entre eles.

Panorama IIIImpressionante, porque nem com duas conquistas do caneco mais cobiçado do país o Fluminense conseguiu sair da mesmice que ronda o nosso futebol, em que pese a importância de ambas as taças. Naquelas, os times então dirigidos por Muricy Ramalho e Abel Braga, apesar de bastante eficientes – e campeões –, jamais jogaram um futebol de encher os olhos. É o chamado futebol de resultados, nunca antes tão em voga no Brasil quanto neste princípio de século XX, quando figurar no alto da tabela está acima de tudo, até do lado lúdico do esporte – a arte, o drible, a ciranda.

Hoje, a maioria dos que vencem não encanta, o que na cabeça de quem faz o negócio não chega a ser um problema, pois ainda assim o é viável comercialmente. Também como exemplo, o tricampeonato burocrático do São Paulo (2006-2008), não coincidentemente sob a batuta de Muricy.

Dado o exposto acima, pelo material humano de que dispõe, Cristóvão Borges tem rara oportunidade de marcar época – não só nas Laranjeiras como no cenário nacional –, deixando importante legado de resgate às origens do nosso futebol. Se vai conseguir ou não, só o tempo e a Copa do Mundo (período da temível janela) dirão.

Mas ao menos na filosofia e na intenção, Cristóvão Borges parece ser o último romântico da bola no país.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

João Marcelo Garcez (joaogarcez@yahoo.com.br) é jornalista, publicitário e escritor, havendo já publicado cinco livros. Há mais de uma década atuando na área de Comunicação, já trabalhou em empresas como TV Globo, Globosporte.com, Jornal dos Sports e DM9DDB. Bicampeão do Top Blog (2010 e 2013), espécie de Oscar da internet, Garcez escreve mensalmente a este Panorama Tricolor.

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