O que só eu vi (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

O engraçadíssimo narrador Silvio Luiz sempre perguntava ao comentarista, na hora do gol: “O que é que só você viu?”. Essa frase me veio à memória quando estava vendo o jogo contra o Santa Cruz em casa, pela televisão, por duas razões. Primeiro, percebi que não há mais personagens autênticos entre os narradores e comentaristas nacionais. Mesmo o histriônico Galvão Bueno passou do tom há muito tempo, quando se tornou mais CPNJ do que CPF e passou a empregar sua boa entonação e verve nitidamente a serviço de interesses outros que não a mera difusão do esporte. Narradores como Luiz Carlos Jr. não entenderam ainda a dimensão de seu ofício e ainda cedo em sua carreira cederam sua espontaneidade para a ambição corporativa.

A segunda razão é, entretanto, aquela que motiva minha coluna. Eu vi uma coisa que só eu poderia ver. Não gosto de usar a coluna para registrar memórias pessoais, mas vou abrir aqui uma exceção. Em 2012, minha esposa estava grávida de nosso filho, hoje evidentemente com três anos. Lembro que, no início daquele ano, comentei com todo mundo: o Fluminense tem um timaço. Mas, internamente, achava que alguma coisa ia dar errado. O Flu nunca foi franco favorito de nada (nem em 1984), nunca tivemos performance arrasadoras, nunca fomos o bonitão da turma. Nossa imagem pública sempre foi a do patinho feio, a do valente inferiorizado, a do brioso que levanta a taça no final. Nós somos Maguila ou Balboa, não Mike Tyson ou Apolo. Somos Guga, não Agassi. Somos David, não Golias.

Meus temores se demonstraram injustificados. O Fluminense não deu espaço a ninguém naquele ano de 2012. Se tivéssemos dez campeonatos a disputar na sequência e não simultaneamente, ganharíamos os dez. Aplicamos, no estadual, um sacode histórico no Vasco, outro no Botafogo. Dominamos o Brasileiro de ponta a ponta, como se diria nas corridas. Nunca foi tão fácil ganhar.

Atribuí a facilidade à gestação e ao nascimento do meu filho. Desde então, tenho certeza de que seu nascimento mudou a história do Fluminense de um modo tal que será preciso pelo menos uns cinco ou seis anos para o clube se recobrar. Uma coisa é ser fiel antes da vinda do messias. Outra é tê-lo entre nós.

É disso que estou falando. Acho que o Fluminense começou a se acostumar com sua nova condição. Nossa grandeza agora não pode ser mais contida, avexada. É uma grandeza ululante, brilhosa demais para ser escondida. Isso está ficando aparente a cada jogo, a cada decisão de nossa diretoria, a cada ínfimo momento de nosso clube. E provoca reação dos adversários.

Vejam só: por que alguém se preocuparia em roubar o Fluminense num jogo contra o Santa Cruz, em casa? Por que tirar três pontos de um time evidentemente desprovido de talento suficiente para ser considerado favorito? Pode ser o prazer de nos roubar, obviamente. Mas muito mais provável é que seja sintoma de medo, de temor absoluto pela possibilidade de o Fluminense sentar na primeira posição logo no começo do campeonato, quando o time dá mostras de que não veio a passeio.

Isso sim: não há um grande time em Laranjeiras. Mas também não tem otário por lá. O Fluminense se comportou de modo muito valente e com toda tranquilidade nesses dois primeiros jogos. Fora de casa, matamos o jogo e o adversário. Dentro de casa, tivemos certa dificuldade contra uma boa equipe, mas nos impusemos até que o esquemão entrou em jogo. Como saber que tem esquema? Simples: quando o narrador briga com a imagem para comprovar que não aconteceu o que aconteceu, ou que teve algo equivalente minutos antes.

A história converge aqui: foi o juiz marcar aquele “pênalti” ridículo para o Santa (que nada tem a ver com isso, coitado) e o Luiz Carlos Jr. falar do impedimento do Fred no lance que originou o escanteio do Flu. Um lance rendeu um escanteio; outro um pênalti. O narrador e o comentarista acharam que tinha peso igual! A questão é que não foram exatamente o narrador e comentarista: quando a transmissão tenta imediatamente manipular a audiência, podemos ter certeza de que a ordem veio de cima.

Já que a coluna fala de memórias, lembrei também da histórica entrevista de Deco na saída do Horto, naquela derrota para o Galo: “Eles ganharam o jogo, mas nós vamos ganhar o campeonato”. Eu acho que a gente vai ser campeão esse ano, honestamente falando. Não acho nosso time uma grande coisa, mas sinto um cheiro de título no ar. Eu vi nos olhos de Gum o título quando ele marcou o gol contra o Santa Cruz. Eu vi nas arrancadas do aleatório Oswaldo, até na lentidão de Fred.

Os sinais funcionaram como borra de café e minha sensibilidade atuou como vidente: temos um time ainda em formação, um novo técnico vindo de bons trabalhos, não temos Maracanã, não somos considerados favoritos. Em suma: seremos campeões, paradoxalmente numa repetição de 2010 e não de 2012. Isso é o que só eu vi.

P.S. Minha esposa está grávida de novo e meu segundo filho nasce no início de novembro, exatamente como o primeiro. Vejam na tabela do Brasileirão de 2012 o que aconteceu no fim de semana depois do dia 07 de novembro.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: jole

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