O mistério do Fluminense (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Por que o Fluminense se transformou no saco de pancada dos rivais da cidade? Como o Fluminense virou a alegria dos três tradicionais oponentes locais? O que provocou essa sina já nem tão recente?

É preciso que alguém estude o fenômeno a sério e encontre logo uma resposta. Sem recorrer aqui a estatísticas, confiando apenas na minha memória, arriscaria que, na última década, não ganhamos nem 30% dos clássicos. Isso em si é uma vergonha, mas, pior, uma vergonha com consequências muito sérias: não conseguimos jamais chegar às finais do Estadual e perdemos pontos valiosos – decisivos mesmo – no Brasileiro.

Não podem ser apenas os jogadores. Temos, de longo prazo, Gum, Cavalieri e Fred. Eles não podem ter sido capazes de provocar esse dano sozinhos. Ademais, o fenômeno antecede sua chegada ao clube, de maneira que seria injusto atribuir a qualquer um dos três a origem do problema. Pode ser que, por exemplo, a evidente birra do elenco com Fred sirva para reproduzir o fenômeno, mas isso é pouquíssimo para explicá-lo.

Será a ausência prolongada de comando técnico competente? Em minha opinião, esse pode ser um fator importante, sobretudo se conjugado com outro: a qualificação do elenco e do time titular. Sejamos bem sinceros: temos achado, esses anos todos, que o Fluminense tem elenco e time muito melhores do que os rivais locais e nos surpreendemos ao descobrir que, na verdade, a diferença não é tão grande. Tirando os times de 2008 e 2012, timaços indiscutíveis, os outros todos misturavam bons jogadores, muitos dos quais acomodados com seus salários de estrela, com revelações imaturas. Quando nossos rivais montam times medianos com boa atitude técnica e dedicação, a coisa praticamente se iguala.

Será meramente a arbitragem, sempre madrasta? Seria absolutamente ingênuo negligenciar o fator arbitragem, tão evidente e cristalino, que obriga a imprensa oficial, visivelmente comprometida com o “esquemão FERJ”, a imediatamente declarar todas as nossas derrotas justas logo no apito final do juiz. Os erros de arbitragem são sempre relativizados quando não negados. Agora, também é um exagero considerar que uma tragédia do tamanho da que tem se consumado possa ser explicada apenas pela arbitragem. Ela conta, mas não creio que seja o fator principal.

O jogo de domingo é um bom exemplo. Houve pênaltis não marcados? Houve, sem dúvida. Isso contribuiu para o resultado? Provavelmente. Mas diga lá uma coisa, quantas bolas o Fluminense concluiu ao gol numa semifinal de campeonato estadual? Digo eu: nenhuma, em 100 minutos de jogo. Repetindo: o Fluminense não chutou nenhuma bola no gol de Jefferson. Nenhumazinha. Nenhuma, zero. Cacete, quer ganhar o jogo como, sem chutar no gol do adversário? Suspeito que, assinalado o pênalti, Fred o cobraria nas nuvens, para não macular a estatística nula.

Detalhe: o time do Botafogo é de dar pena. Se fosse um time minimamente qualificado, teria devolvido o 7 x 1 de 1994 com juros e correção monetária, porque o Fluminense não jogou porra nenhuma, com o perdão da palavra. Aquela atuação foi merecedora de desconto no salário, porque os caras simplesmente não podem dizer que foram trabalhar nesse dia.

Um último fator que pode contribuir para a vergonhosa “performance” nos clássicos é a falta de incentivo vindo da diretoria, vindo de cima, do VP de futebol, do presidente, do diretor, sei lá de quem. É preciso que alguém diga aos caras que a gente não pode perder mais de jeito nenhum para Vasco, Flamengo e Botafogo. É preciso pagar bicho dobrado nas vitórias, cobrar caixinha nos empates e derrotas, punir quem fizer corpo mole, premiar quem fizer gol, sei lá mais o quê. O que não dá é deixar o time jogar um clássico, sobretudo jogos decisivos, como se estivesse fazendo pré-temporada.

Agora, que seja dito claramente: temos um problema a resolver. Por detrás do problema, há o mistério que tentei decifrar nos parágrafos acima. A solução do enigma, contudo, não cabe a mim ou qualquer outro cronista. É preciso que alguém dentro do clube empenhe-se, de fato, em reverter o quadro atual. O que eu e os comentaristas tricolores podemos fazer é impedir que se considere normal ser eliminado de uma competição, qualquer que seja, por um timeco recém-saído da segunda divisão sem concluir em gol uma única vez.

Panorama tricolor

@PanoramaTri

Imagem: JLM / PRA

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