O Fluminense numa caixinha de Mentos (por Paulo-Roberto Andel)

Foi há quase duas semanas, na quinta daquela ridícula eliminação diante do Atlético Goianiense pela Copa do Brasil.

Estava em cima do laço para chegar ao trabalho quando resolvi pegar o VLT na Estação Colombo, que fica na esquina da Rio Branco com a Sete de Setembro.

O mini trem já era visto na outra quadra, cortando a Primeiro de Março. Enquanto isso, gente apressada, gente com os olhos nos smartphones, gente ávida pela abertura das portas em dois minutos.

Um rapaz na luta, muito educado, oferecendo caixinhas de Mentos aos passageiros. Tudo na situação que vivemos hoje em dia, de extrema dificuldade. Notei que ninguém comprava. Difícil.

Vi o trocado que tinha e o chamei. Eu também sou pobre. No retorno, reparei que o vendedor usava uma camisa laranja do Fluminense.

Pirata, compreensível.

Não entro aqui na discussão infrutífera a respeito, mas lembro que todo mundo tem direito a vivenciar o seu amor. Se o clube historicamente não tem atenção para modelos populares, sempre irá perder para o mercado da pirataria, porque o torcedor quer vestir a camisa do seu amor. Simples.

Uma camisa laranja, esgarçada, podia, mas orgulhosamente vestida pelo dono. Ali estava a dignidade, o respeito, a batalha que cerca o escudo do Fluminense desde sempre.

Chamei o rapaz. Tinha pouquíssimo tempo. Comprei duas caixinhas. Ele ficou todo contente. Logo lhe disse que mais tarde tinha Fluzão. Ele abriu um sorriso enorme debaixo da máscara, perceptível pelo movimento dos músculos da face.

Falei que tínhamos que ir com tudo para buscar a classificação. Ele concordou e disse que mal via a hora do jogo começar. E ali não havia nada além de dois garotos sonhando com a vitória do time de coração, perseguindo aquele sonho que é chama a alimentar o coração de todo mundo que gosta de um time de futebol.

Veio o mini trem. Trocamos um abraço de cotovelo. Ele saiu feliz por alguns instantes, mesmo diante de uma realidade tão terrível que é essa de lutar diariamente contra a morte, não por causa de uma doença mas de dinheiro, da necessidade de sobrevivência.

Eu devia ter perguntado seu nome, não deu tempo. De onde era, também não deu. Devia ter me atrasado para o trabalho, do qual também ando tão precisado.

A caixinha de Mentos ainda está aqui em casa. Já se passaram duas semanas. Eu torço por aquele rapaz. Torço para que consiga superar essa fase tão difícil. E agradeço a ele pelo bom sentimento que passou. Muito melhor do que duzentos tuiteiros de esgoto e trezentas picocelebridades que falam para ninguém, sem contar os picaretas que hoje vaiam o que aplaudiram diariamente por cinco anos na então “oposição” do clube.

O Fluminense não pode se limitar a escalações exóticas, substituições extraterrestres, empresários que zoam da cara de torcedores, jogadores que entram e saem num piscar de olhos sem ninguém entender o motivo. Jogadores que começam bem até subitamente atuarem mal, quando então torcedores começam a xingá-los em bloco no Twitter e pronto: está criado o clima ruim para uma negociação imediata, que não dá retorno esportivo nem financeiro adequadamente. Uma sequência que se repete dezenas de vezes nos últimos anos.

Muitos de nós também precisam ultrapassar obstáculos da pesada. Diante de uma vida tão amarga para tanta gente no Brasil, o futebol vai muito além da paixão e do gosto: é um bálsamo de vida. Entendam: perder é do jogo. O problema é como se perde. E a verdade é que o Fluminense de hoje só existe como protagonista nos sonhos de seus torcedores, e nem todos.

O maravilhoso mundo das gestões que pretendiam “salvar o Fluminense da Terceira Divisão” completará oito anos daqui a um mês. Oito anos sem títulos relevantes, com eliminações ridículas em copas e com cinco lutas contra o rebaixamento em sete temporadas. Pior do que 1986-1994.

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Penso nos meus pais que se foram. No meu irmão que está longe. Nos colegas de arquibancada que nunca mais vi. Em tanta gente querida que também já não está por aqui.

Penso em quando era um garoto, quando a grave crise do Fluminense sem dinheiro era ter Wendell, Moisés, Edinho, Pintinho, Mário, Zezé, Robertinho, Renato, o eterno Rubens Galaxe, Miranda – o Trésor brasileiro. Cléber.

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A suposta transação envolvendo Marcos Paulo tem componentes que beiram o ridículo e o deboche com os torcedores, ao menos até esta manhã de terça-feira. É um verdadeiro escárnio diante da inteligência média.

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Meu abraço ao rapaz que me vendeu a caixinha de Mentos. Ele é um tricolor de dignidade. Ele não merece o que estão fazendo com o Fluminense.

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Já com esta coluna publicada, chega uma mensagem de Leo Prazeres, co-fundador deste PANORAMA:

“Eu acho que comprei Mentos com esse cara também. Ali na Rua da Assembleia. Comprei porque ele estava com a camisa do Fluminense também. Eu nem gosto de bala.”

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#credibilidade

6 Comments

  1. Sejamos justos. A Lei Pelé é cruel e nociva com o clube formador. Não sou nem de longe defensor de Mário. MT ao contrário. Mas o jogador pode assinar pré contrato em janeiro com qualquer clube. Quem iria investir fortunas agora? Vc acha mesmo que NAO estão tentando renovar pra deixar sair de graça? O empresário tem a faca e o queijo na mão e evidentemente não quer renovar pra lucrar com luvas maiores

  2. O suposto empréstimo com opção de compra implicaria em renovação por mais um ano. O rapaz não tá mais com a cabeça aqui. Joga nada há meses. Se saísse e se destacasse, poderia ser comprado ou, ao menos, voltaria e teríamos mais um ano pra resolver. Se não fechou, suponho q seja pq os italianos queriam fixar um valor baixo nos DEs. Acho que o contexto precisa ser analisado pra avaliar o caso. Agora ,só com a Inglaterra aberta, a chance grande é dele sair no 0800 ano que vem.

  3. O suposto empréstimo com opção de compra implicaria em renovação por mais um ano. O rapaz não tá mais com a cabeça aqui. Joga nada há meses. Se saísse e se destacasse, poderia ser comprado ou, ao menos, voltaria e teríamos mais um ano pra resolver. Se não fechou, suponho q seja pq os italianos queriam fixar um valor baixo nos DEs.

  4. Tem que analisar o contexto do caso. Agora, só com a Inglaterra aberta, a tendência é ele sair de graça em janeiro. A legislação brasileira é altamente cruel ao clube formador. Sou profundo crítico de Mário Bittencourt, cuja figura abomino desde 2015. Jamais p queria como presidente do clube. Seu trabalho atual à frente do futebol é péssimo e profundamente criticável sob vários aspectos e sua figura arrogante abjeta. Mas me soa fantasioso supor q seja um gangster q só queira nos roubar…

  5. Uma simples postagem sobre futebol, que me fez pensar nos inúmeros bombons que já comprei de um rapaz, no terminal de ônibus, apenas para ajudar. Ou das inúmeras lanternas de plástico compradas dos ex-dependentes químicos da Associação Manassés, dentro do ônibus. Também sou pobre, e aqueles trocados sempre me faziam falta, mas sei que faziam mais falta pra eles. Lembro-me até hoje do rapaz de Porto Alegre que estava havia dois anos por aqui, longe da família e amigos, vendendo lanternas e…

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