O choro de Mickey (por Luiz Alberto Couceiro)

Indivíduo e sociedade: o choro de Mickey

(Publicada na internet em 27 de abril de 2012,  na então hospedagem da equipe Panorama Tricolor)

Certa madrugada de janeiro último, acordei com boca e nariz ressecados. Muito frio lá fora nas ruas de Vestal, NY, e um pouco de neve. Algum calor onde estava morando, baixa umidade. Aproveitando a rapidíssima internet local, e, talvez porque houvesse sonhado com algum desses personagens de minha vida, resolvi rever as entrevistas feitas pelo abnegado tricolor Walterson Botelho. Diante do menu do Youtube, ticava uma a uma até que chegou a do “artilheiro da paz e do amor”. Assim era conhecido Mickey, atacante que marcou gols decisivos em nosso título nacional de 1970. As recordações que guardo desse ídolo de meus falecidos irmão e avô sempre vieram em minha mente através da imagem de um jovem de cabelos longos, costeletas à la Easy Rider, magro e que fazia o sinal da paz, a transformação do V da vitória de Winston Churchill feita pelos hippies, com as mãos erguidas na comemoração dos gols. Sempre o via correndo pra galera, pra geral, feliz da vida, abraçando seus companheiros de time. Me pareceu estar sempre alegre sendo jogador do Flu.

Essas entrevistas produzidas por Walterson são material fundamental para a construção da memória afetiva dos torcedores do Flu e também para quem se interessa pela relação entre indivíduo e sociedade. A discussão, que se tornou clássica nas Ciências Sociais no Brasil e no mundo, visa, basicamente, o entendimento de que os indivíduos não são meras partes independentes da sociedade, autônomos e atomizados. As pessoas constroem suas vidas, e as tiveram construídas, em tipos de sociedades que se organizam na divisão internacional social do trabalho, na repartição desigual de riquezas, na montagem rápida de um mercado internacional industrial e nos fluxos migracionais para grandes centros urbanos. Esse cenário aprofunda encontros e desencontros diversos de visões de mundo e formas de comunicação, posto que há diversos fluxos de elementos simbólicos que dão significado à vida das pessoas. Isso pode ser visto na especialização do trabalho, nas religiões, formas de expressão corporal e afetiva, sexuais e eróticas, de gênero, e, também, pela ideia de trajetória. Essa é uma forte marca do tipo de sociedade que Gilberto Velho chamou por complexa.

Recentemente falecido, Gilberto é um dos grandes pesquisadores e professores de Ciências Sociais no Brasil, com envergadura e reconhecimento internacionais, e que deu início às pesquisas em Antropologia Urbana em nosso País, nos anos 1970. Pessoa muito próxima a mim, sempre se colocando gentilmente à disposição para a leitura de meus textos, de maneira bem humorada, fornecendo dicas profissionais com sinceridade e generosidade acadêmicas, utilizando exemplos do futebol em suas discussões. Botafoguense, apreciador dos grandes times do mundo inteiro, observava os jogos para além do senso comum e sem pedantismos academicistas. Falava dos times argentinos dos anos 1960 e 70, que pode ver ao vivo em meio a congressos, assim como dos franceses, holandeses e ingleses. Em momento algum de nossas agradáveis conversas pensava o futebol como mero reprodutor da vida social. Ao contrário, pensava a vida social através das várias entradas que o futebol nos proporciona, esporte criado no âmbito das sociedades complexas.

Outrora entendido como um campo de produção de conhecimento sobre o outro, sendo esse outro localizado pelo pesquisador em lugares distantes geograficamente, ex-colônias das grandes metrópoles, a Antropologia produzida em países como Brasil e EUA se viu diante de tradições culturais fisicamente próximas dos pesquisadores. Então, não fazia sentido deixar de estudar pessoas que não estivessem longe, porque isso não implicava em que elas estivessem perto em termos afetivos. Gilberto fez dissertação de mestrado sobre as motivações das pessoas para irem morar em microapartamentos em Copacabana – no folclórico edifício 200 da rua Barata Ribeiro. Depois, foi pioneiro nos estudos sobre as condições sociais para pessoas consumirem substâncias químicas consideradas criminosas, os “tóxicos”, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Como essas pessoas se viam, justificavam suas atitudes, na sociedade. Gilberto procurava compreender como os indivíduos performatizavam suas vidas, a partir de suas próprias linguagens e visão de mundo, suas angústias, narrando seu passado e projetando planos futuros, em suas experiências existenciais.

Mickey, na entrevista, mudou sua imagem através meus olhos e ouvidos: um senhor grisalho de vasta cabeleira, elegante, calmo, alegre, conversando com o entrevistador de maneira animada e utilizando um português perfeito. Walterson logo apresenta sua trajetória, recorrendo a diversas imagens, isto é, onde nasceu, por onde passou como jogador de futebol até chegar a ser o camisa nove campeão nacional de 1970 pelo Flu. Veio para nosso clube em 1969 e permaneceu até 73, jogando 97 vezes e marcando 25 gols. Muitos deles em momentos-chave, como na arrancada de 1970, ao substituir o ídolo Flávio Minuano. Mickey narrou o gol do título, o primeiro nacional conquistado por um clube carioca, contra o Atlético mineiro, então treinado por Telê Santana, quem ironicamente o havia levado para as Laranjeiras. Aos poucos, ele foi transformando a entrevista em uma declaração de seus sentimentos ao Flu. Disse, no início, sobre o apelido de “Pé-de-Coelho”: “É importante o atleta ter o contato com a torcida.” Afirmando que nossa “torcida é maravilhosa”. Mesmo “tendo recebido vaias, normais, em momentos em que não estava bem, na maior parte foi muita ajuda, muito carinho, um reconhecimento que mesmo jogando mal era um guerreiro”. Declara ser “hoje, tricolor de coração”, com um sorriso nos lábios. Não pelos quatro anos em que jogou no clube, mas “por muitas coisas: o carinho que tiveram com ele”. Por isso, “todos os seus filhos e netos e noras são tricolores”. Foram as portas que se abriram em sua vida, como jogador e como pessoa. Após a final de 1970, “mesmo com toda a euforia pelo título”, foi ao Programa do Chacrinha cumprir a promessa de arrecadar fundos para um orfanato. Mickey enfatiza a importância de, em sua avaliação, as pessoas serem “humildes e terem respeito mútuo”.

No minuto final da entrevista, foi perguntado sobre o que significou ter jogado do Fluminense. Eu, sinceramente, esperava mais uma resposta em palavras felizes de um ídolo, pouco lembrado, diga-se de passagem, mas muito querido por muitos torcedores. É o que tradicionalmente ocorre nessas entrevistas. Mas veio-me uma surpresa enorme. Aquele senhor altamente equilibrado em suas frases bem colocadas transformou suas expressões faciais. Começou a chorar. Respirou fundo, olhou para o céu, virando os olhos de um lado ao outro. Cabelos ao vento, Mickey arregala seus olhos pequenininhos, esgarça a boca, mira o chão, e, já em lágrimas, olha rapidamente para o seu interlocutor. Com a mão esquerda, faz um movimento na altura dos olhos, como um tambor de máquina de escrever, e diz: “tudo”. Pede desculpas, lágrimas escorrendo no rosto, e afirma: “Foi aí que eu arrumei a minha vida”. A entrevista estava encerrada.

Mickey apontou sua passagem pelo Flu como um divisor de águas em sua vida. Isso foi representativo tanto para a sua vida profissional como em outros campos. Sua trajetória mudou, e seu desempenho agradou à torcida e aos companheiros e dirigentes do clube. Mas as condições emocionais do ambiente foram por ele ressaltadas como um dos elementos-chave para essa guinada em sua vida. Não havia tido oportunidade de jogar futebol com tanta visibilidade, contudo levava sobre si a cobrança de substituir o ídolo Flávio. Reconheceu isso como legítimo, as expectativas previsíveis da torcida, aceitando as vaias e as cobranças. Seu nome marca sua individualidade. Por mais que informações vindas de fontes secundárias sejam importantes para a nossa configuração da percepção acerca dos indivíduos, os discursos dos próprios indivíduos fornecem as indicações mais precisas sobre seus projetos de vida, sua trajetória, avaliando seus desempenhos. O olhar sobre sua conduta, sua ação, é fundamental nos critérios de elaboração da narrativa, da memória sobre si mesmo. O projeto e a trajetória autobiográfica não são fatos puramente subjetivos, mas sim situações que podem ser comunicadas e socialmente inteligíveis.

A narrativa de Mickey dá sentido ao seu choro, que é a manifestação socialmente aceitável das emoções, em um momento ímpar de seu cotidiano. Quer dizer, eu só consigo compreender a visão de Mickey sobre si, sobre o Flu em sua vida, por meio de sua comunicação verbal. Ela veio antes do choro, que fechou seu depoimento. Ele mostrou a mim como foi parte de seu processo histórico de construção social como indivíduo, que teve como pedra fundamental ter sido jogador do Flu. Foi ele quem fez essa ligação, e não eu. Mas eu só procurei essa entrevista porque já havia feito a ligação entre as informações que havia adquirido em minha infância sobre ele, e os efeitos afetivos disso e minha trajetória. Nesse cenário, o choro de Mickey foi explicativo, por outros caminhos, de parte do que ele narrou. E isso serve para mostrar o peso, nas voltas imigracionais de sua vida, de suas vivências no Flu na construção do que ele entende por ser sua trajetória de sucesso na sociedade mais ampla.

Como Gilberto e eu conversávamos, esse foi mais um exercício de ver situações, observá-las como elas parecem ser para as pessoas, sempre, através dos mundos do futebol.

Assista Mickey no site Ídolos Tricolores, dirigido pelo jornalista Valterson Botelho – http://www.idolostricolores.com.br/node/30

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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