Manifesto contra os abusos praticados pela Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (por Felipe Fleury)

felipe fleury green 2016

Ninguém me contou. Eu vi.

Como tantos outros milhares de tricolores, estive no Estádio Municipal de Juiz de Fora para assistir à final da Primeira Liga entre Fluminense e Atlético Paranaense.

Logo após o apito final, os jogadores se aproximaram do alambrado do setor vermelho para agradecer ao torcedor e fazê-lo sentir-se perto daquele grupo que o fez sonhar com dias melhores, a torcida que, em êxtase, soltava o grito de campeão após quase quatro anos!

Não podia ser diferente. O torcedor, entendendo o recado, desceu da arquibancada e se postou numa espécie de corredor que fica entre os asssentos e o alambrado. Muitos tentaram escalá-lo, alguns chegaram a pulá-lo.

Foi nesse momento que se iniciou o espetáculo de truculência e despreparo protagonizado pela Polícia Militar de Minas Gerais. A fim de conter a multidão que se aglomerava no alambrado, os policiais acionaram seus sprays de pimenta contra aquele grupo.

Ato contínuo, um dos brigadianos efetuou, desnecessariamente, um disparo com bala de borracha contra a torcida.

A senha para a confusão foi dada.

Torcedores indignados, não apenas torcedores organizados, passaram a alertar os policiais de que ali havia crianças, mulheres e idosos e alguns passaram a repelir a agressão gratuita atirando hastes de plástico das bandeirinhas recebidas na entrada do estádio, copos de água mineral vazios e outros objetos sem qualquer ofensividade.

Não foi uma atitude inteligente, muito menos correta, por certo, reagir contra policiais, mas contra esse “vasto arsenal”, de “elevado poder vulnerante”, mais balas de borracha e muitas bombas de gás lacrimogêneo.

Eu, no alto da arquibancada, senti os efeitos do gás intensamente. Muitas crianças, mulheres e idosos também. Um deles ajudei retirando do local, porque não havia como um senhor que aparentava cerca de 80 anos, subir os degraus sem ajuda. Crianças nos colos dos pais aos prantos, mulheres apavoradas. Cheguei a presenciar uma menina desmaiada sendo carregada para o posto médico.

A Polícia não agiu para conter uma invasão, porque se fosse esse o seu propósito, teria utilizado os cães que estavam ao seu dispor. O cachorro da PM é treinado para situações desse tipo, mas em momento algum foi acionado, até porque os que conseguiram alcançar o gramado não ofereceram qualquer resistência e foram facilmente dominados pelos policiais que faziam a segurança em campo.

Ninguém ali pretendeu agredir jogadores do time adversário ou policiais. Todos tinham apenas um único desejo: celebrar o título com a equipe.

Embora a comemoração pretendida não fosse permitida, a reação da polícia mineira foi absolutamente desproporcional e abusiva.

Os policiais preferiram disparar balas e bombas de gás contra o torcedor que estava do seu lado do alambrado, provocando pânico e confusão nas arquibancadas.

Foram várias e, em certo momento, pareceu um campo de batalha, quando todos estávamos ali somente para comemorar um título, nada além disso.

Por pouco, muito pouco não não houve vitimados mais graves.

Quando se trata de lidar com o público é preciso ter cuidado, cuidado que os policiais escalados para o evento não tiveram.

Milhares de torcedores não puderam ver o Fluminense levantar a taça. Preferiram tomar o rumo de casa a ter a si próprios ou a um ente querido ferido ou intoxicado gravemente, ou ainda vítima da multidão que, aturdida pela violência, promovesse um corre-corre para sair do estádio.

A torcida tricolor viajou para ver seu time campeão, só não contava que fosse tocada do estádio como gado, por uma despropositada, desproporcional e irrazoável atuação da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, despreparada para agir em eventos daquela natureza.

Este texto, portanto, é um desabafo e também um manifesto.

Um manifesto de torcedores inconformados para que agentes públicos, pagos para servir à população, tenham a exata noção de que lidar com vidas exige cuidado e treinamento e que é preciso pôr fim a uma cultura de que somente após a ocorrência providências sejam tomadas pelas autoridades públicas.

Fica o alerta.

@FFleury

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