Mais gentileza, menos intolerância (por Felipe Fleury)

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Hoje falarei sobre algo que me atormenta, principalmente porque participo ativamente da vida nas comunidades virtuais relacionadas ao Fluminense e acabei me interessando por essa relação à distância entre pessoas que, por vezes, nem mesmo se conhecem fisicamente, mas que podem se agredir por muito pouco e com a rapidez de poucos “cliques” em seus teclados.

O que me assusta nesse cenário é a falta de gentileza, a intolerância, o tratamento desrespeitoso que se vê amiúde nas redes sociais, quando discussões que deveriam ser apenas calorosas – quando muito – ultrapassam a fronteira da argumentação – quando há – e se transformam em enfrentamentos graves, com ofensas mais graves ainda.

Evidentemente, grande parte desse destempero não seria externado se as discussões fossem presenciais, mas o escudo protetor da distância transforma tímidos em desinibidos e covardes em corajosos. E a gravidade das ofensas, não raro, é inversamente proporcional ao tema posto em debate. Briga-se, ofende-se por qualquer motivo, bastando, para tanto, que opiniões seja contrariadas.

A verdade não é propriedade de ninguém, cada um tem a sua e deve expô-la com educação e respeito. Nada é mais poderoso num debate de ideias que a força do argumento e, tanto quanto ele, o respeito à opinião alheia. Dar ao seu interlocutor a oportunidade de manifestar o seu pensamento livremente para depois contraditá-lo com seus fundamentos, apenas com eles, é enriquecer o valor da contenda, é fortalecer o direito à liberdade de expressão.

Na política, na religião, no futebol, ou em qualquer outro assunto posto em discussão, o que se tem visto com espantadora frequência é a intolerância e a ofensa gratuitas. Incapazes de aceitar a opinião alheia, muitos partem prontamente para a agressão virtual – cuidado, pois também pode configurar crime – pregando o ódio contra um interlocutor que nem mesmo conhece. Essa raiva enrustida e descarregada em desabafos odiosos nas redes sociais serve apenas a um propósito: promover conflitos.

Todos somos brasileiros e queremos o melhor para o país, mas a intolerância cria barreiras instransponíveis entre dogmas criados para opor gente que só deseja viver feliz. Todos somos brasileiros e devemos respeitar o Estado laico em que vivemos, mas a prepotência faz crer que apenas a nossa religião conduz à salvação. Todos somos tricolores e devemos lutar por um Fluminense forte, mas o orgulho e a vaidade embaciam nossos pensamentos e nos tornam pretensos donos da verdade, atacando companheiros de paixão clubística. Somos todos arautos de uma verdade que é apenas relativa – porque somente nossa -, mas que desejamos impor a todos como se absoluta fosse.

Outro dia, por exemplo, desejei parabéns ao Rio de Janeiro por seus 450 anos. Alguém respondeu à minha postagem com um “Parabéns é o c…Rio cheio de bandidos, cidade de m…”. Está aí um típico exemplo de ignorância que conduz à intolerância, de ódio arraigado despejado gratuitamente. Qual seria a culpa do Rio de Janeiro pelos malfeitos de seus governantes? O autor da frase simplesmente descarregou ali a sua fúria, sem mais nem menos, sem argumentos, apenas com raiva.

É uma tese utópica, claro, mas não custa tentá-la. Assim, ao evitar transpor seus conflitos pessoais para o outro lado da tela de um computador, você estará ajudando a criar um mundo menos intolerante.

Experimente, qualquer que seja o assunto discutido, discordar com educação, seja nas suas relações virtuais ou reais. Por mais veemente que seja a defesa do seu argumento e, por mais intransigente que possa parecer o seu interlocutor, ele pensará duas vezes antes de retrucar com uma ofensa. Pode funcionar, afinal de contas, como dizia José Datrino, o Profeta Gentileza, “Gentileza gera gentileza”. Não custa experimentar.

Respeite para ser respeitado, seja gentil e educado nas suas relações interpessoais. Se você acha que o mundo não ficará menos conflituoso apesar disso, pelo menos o tornará um ser humano melhor. Voltaire, na sua célebre frase Je hais vos idées, mais je me ferai tuer pour que vous ayez le droit de les exprimer, já reconhecia um dos fundamentos mais importantes da liberdade de expressão, que é o direito de expor livremente as ideias. Acrescento ao seu discurso, se isso me for permitido, que essa liberdade deve ser praticada com respeito, sob pena de transmudar-se de direito em abuso.

Refute a ideia de seu interlocutor com educação, garantindo-lhe sempre o direito de dizer o que pensa e, sobretudo, seja gentil, afinal de contas a gentileza, antes de ser uma regra de conduta social, é uma regra de civilidade.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @FFleury

Imagem: google

#SejasóciodoFlu

5 Comments

  1. Excelente. Só um adendo: As pessoas hoje não discutem para encontrar juntos um consenso ou a verdade mas para impor seus pontos de vista, por mais estapafurdios que sejam.

    1. Obrigado pela leitura e consideração. É exatamente isso. Cada um tem a sua própria verdade e tenta impo-la como se fosse a única, absoluta. Um abraço e St

  2. 100% de acordo, Felipe! Parabéns! Acrescento aí, um ou outro censurador de plantão! Abraços e ST

    1. Obrigado, Vinny. Nós que vivemos intensamente as redes sociais sabemos muito bem disso. Um abraço e St

  3. A triste sina das pessoas que se acham mais importantes do que realmente são: empáfia, grosseria, verborragia e a incapacidade de viver em grupo. Pavões da internet, no futebol e em qualquer tema. “Se você não concorda comigo, você é um imbecil”. Em suma, deslumbrados. A vida é diálogo, não apenas discurso.

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