Luto e luta (por Walace Cestari)

O palco, os atores e o jogo. No teatro do futebol falta a imprescindível plateia. A torcida que dá brilho ao espetáculo, que entoa cantos e torna-se local das catarses mais humanas.

A noite de quarta-feira no Engenhão não contava com tantos torcedores quanto a partida merecia, mas fazia uma bela festa. Pó de arroz, cânticos e incentivos. Os tipos alternavam-se nas cadeiras. Perto de mim havia o tenso que comia todas as suas unhas, os arautos da desgraça que viam caneleiros em todos os nossos atletas e uma delicada menina que xingava os mais masculinos palavrões com a meiguice de sua doce voz.

“Belo presente de aniversário” disse ela, logo após o segundo gol do Grêmio. O pai a levou embora no instante do terceiro tento gaúcho. Outros se irritavam, buscavam culpados, gesticulavam contra a comemoração dos adversários. Paixões, frustrações, choros e alegrias. Enfim, havia no estádio o que há de mais humano.

E deveria ser sempre assim. Palco de um teatro jamais imaginado, peça de roteiro sempre imprevisível, o futebol deveria estar repleto da avidez do público pela surpresa, pela emoção. Mas não ontem. Mas não novamente.

A morte do menino Kevin ultrapassou as grades do Jesús Bermúdez e enlutou a todos no futebol. Não é mais possível aceitar que pessoas percam suas vidas por conta do esporte. Este caso não é único ou inédito, nem mesmo raro. Infelizmente.

Contabilizam-se às dezenas ou até mesmo às centenas, os mortos relacionados ao futebol. Seja pela briga de torcidas, seja pela imprudência, não há como tornar o fato aceitável. E isso não é exclusividade brasileira ou sul-americana. Desde a Tragédia de Heysel na Bélgica na década de oitenta, até as brigas entre torcedores na última Eurocopa, passando pelo o massacre de Port Said no Egito no ano passado, as arquibancadas, ruas e praças exibem rastros de sangue onde deveria haver apenas paixão.

Basta. Mais uma morte em vão. Mais assassinos à solta. Que importam gols e dribles sem que haja olhos puros para vê-los? Como levar o filho para compartilhar da paixão pelo imponderável do futebol? Perdemos parte de nós mesmos a cada morte. O menino Kevin leva embora um pouco de cada menino que fomos, de cada criança que vemos nos estádios.

Mas não há problema insolúvel. Há, sim, incompetência generalizada. Clubes, administrações de estádios, confederações e autoridades, ninguém parece mesmo preocupado em resolver absolutamente nada. Há quantos anos atira-se todo tipo de coisa em árbitros e jogadores em jogos oficiais da Conmebol? Os olhos de Leóz nunca tiveram tal foco. E isso faz com que suas mãos estejam hoje sujas de sangue.

De gradis e currais criam-se os animais. Da cumplicidade e acobertamento dos clubes nascem assassinos. É esse o tratamento oferecido ao maior patrimônio de um clube. Que sejamos fortes. Combativos. Que não se aceite mais a morte de ninguém dentro de um estádio de futebol. Os meninos são feitos de matéria livre, estão no mundo para sorrir e contemplar a arte. E a vida não merece que se matem os sonhos em quatro linhas.

Walace Cestari

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Contato: Vitor Franklin

2 Comments

  1. Isso de entrar com o que não é permitido para um Estádio de futebol não é “privilégio” dos países da Conmenbol, infelizmente aqui na Europa, que é referenciada como o mais belo e mais organizado futebol do planeta continua-se a entrar com foguetes, canetas-laser e sei lá mais o que sem que a maioria das vezes o(s) responsável(is) seja punido! Enfim a UEFA como a Conmenbol estão mais preocupados com os aspectos financeiros do que com aspectos humanos e sociais, punam-se severamente os corruptos das apostas ilegais e “abranda-se” os marginais, assassinos, racistas!!!

  2. Achei boa a punição da CONMEBOL aos assassinos corintianos! Que a polícia boliviana faça o mesmo!

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