Lucro por quê? – II (por Luiz Alberto Couceiro)

“Simplesmente um luxo”! – diria Athayde Prateze sobre o atual elenco do Flu. A célebre frase era proferida em seu microfone dourado, quando o paulistano apresentava seu programa sobre festas e eventos de ricos, famosos e os “você é quem mesmo, hein?”. Ele, de forma atabalhoada e com pouca elaboração em seu discurso, conseguia seu espaço de reconhecimento social num grupo altamente seletivo. Várias vezes, sua simpatia e seu conhecimento pessoal compensavam a falta de habilidade lingüística. Metia-se a falar de maneira barroca, digamos, usando “transuinte” ao invés de transeunte. Essa figura marcante de minha infância televisiva me veio à mente quando lia uma avalanche de colunas questionando a habilidade de Abel para escalar nosso time. Não fiquei impressionado. E quero compartilhar meu argumento, minha visão do assunto com vocês. Mais uma vez, um convite para pensarmos juntos – acho que melhor do que praguejar contra o atual técnico do Fluminense.

Mas… O que Patreze nos ajuda a pensar sobre isso tudo? Ele me forneceu uma metáfora do que chamo de “técnicos brasileiros das arábias”. Como cheguei a isso? É o assunto dessa e da próxima coluna, reescritas agora no Panorama Tricolor e não mais disponível em sua versão original na grande rede virtual.

No Brasil, avalio que, as competências técnicas de muitos empregos são postas de lado e os critérios da afetividade reinam na escolha de cargos e nas promoções para lugares mais nobres nas hierarquias profissionais. Muito se é decidido em mesas de bar e rodadas de jogos de cartas. O cara é “gente fina”, não é questionador (o mesmo que “bater de frente” ou “ser cri-cri”), nem “arruma ou inventa problema onde não têm”, nos ambientes supostamente sérios, então está na frente do cara que sabe do quê fala porque estudou pra isso. Se for mulher, então, e negro, ou mulher e negra, a coisa fica pior ainda… Vai incomodar mesmo o grupo de estabelecidos no poder, em não raras ocasiões. Tem também aquele camarada que “fez um curso no exterior”, geralmente “nos EUA”, e, só por isso, é visto como sendo “mais bonito” do que os demais colegas ou candidatos ao mesmo cargo ou à promoções. E fora o outro que tem a qualidade de ser “filho de alguém”. Por último, nessa brevíssima tipologia dos “bem relacionados” e dos “bem quistos”, vê-se o clássico caso do sujeito que fala o que se quer ouvir lá de cima da pirâmide.

A opinião, em muitos círculos em nosso País, que vence é a do sujeito mais temido pelos que dele dependem, de seu humor, da forma como acorda, e não daquele que tem argumentos técnicos e bem fundamentados sobre o tema. Mais vale uma burrice bem falada por um suposto rico e famoso, ou por um “winner”, do que algo inteligente proferido por alguém que tenha “simplesmente estudado”. Certa vez, um amigo me contou que estava em uma festa supostamente chique e as pessoas diziam o que faziam – mas não necessariamente com o que trabalhavam e ganhavam dinheiro, vale dizer. Chegando a sua vez, disse que era pesquisador e terminava o pós-doutorado no exterior. Uma senhora vetusta lhe disse: “Sim, e você só faz isso?” O marido dela, então, disparou: “Coitado… Você está pagando pecado?” E o sogro não deixou barato e deu o golpe final no incauto em questão: “Fulano, você vai deixar de ser um fracassado quando mesmo que eu não entendi?” É a escola da vida contra a escola da escola – como se essa última anulasse as experiências cotidianas. Nada disso. Parte da chamada “elite emergente carioca”, surgida no setor de serviços e ondas de terceirizações de tudo, menos da qualidade de muitos dos mesmos, a partir dos anos 90, sempre que pode opina de maneira detonadora sobre o valor simbólico da ética dos estudos, tão pouco valorizados no País, como forma de se sobrepor em termos de poder aos que estudam e dizem por que sabem argumentar tecnicamente e demonstrar empiricamente o que afirmam.

Por tudo isso, além das escabrosas escalações de nossos times e seleção, não me espanta prédios caindo, poucas estações do metrô no Rio e nenhuma em diversas outras cidades e capitais, trens de péssima qualidade, aeroporto vergonhoso, falta de luz.

Com as informações que tenho da trajetória de alguns dos nossos técnicos de futebol (uma das bases do trabalho do antropólogo é conseguir bons informantes e preservar seu anonimato), argumento que muitos deles conseguem seus cargos mais pelas relações pessoais do que pelo conhecimento de táticas e técnicas avançadas e atuais em treinamento e esquemas de jogo. Isso ocorrer porque eles simplesmente porque não precisam disso pra conseguir emprego. De tudo o que li, penso que todos os colunistas especializados em futebol têm o mesmo incômodo, em maior ou menor grau: como podem esses camaradas fazer tantas besteiras nas escalações e nas supostas arrumações de seus times e continuarem ganhando o que ganham e sendo disputados no mercado da bolsa? Hoje, eles são os chamados “de ponta”, com salários astronômicos.

Há uma distância enorme entre as opiniões de colunistas e torcedores e de dirigentes de grandes clubes sobre a competência dos técnicos. Tanto é que no Brasil muitas das vezes a força das torcidas e dos formadores de opinião ajudam a demitir os técnicos. Não vejo com maus olhos tantas trocas de técnicos dentro de nossa estrutura, ou falta de, porque ao menos nessas horas eles caem na real de que não estão na Europa porque não teriam condições de estar lá. Ao menos não por muito tempo. Não é porque lá, naquele contexto, contratos cumpridos até o fim fornecem prováveis bons trabalhos nos clubes que no Brasil, em nosso contexto, o mesmo ocorrerá.

Então… De onde essas pessoas surgiram e como conseguem se manter empregados, ganhando salários acima dos 100 mil reais?!? Assim como Patreze, cultivam redes de relações de confiança de décadas e conseguem, de forma competente, reproduzi-las em termos de poder de grupo social. Mas quais são elas?

No início dos anos 70, muitos países do chamado “mundo árabe” contrataram técnicos e preparadores físicos brasileiros para seus clubes. Não sabiam falar inglês e tinham pouco conhecimento, ou nenhum, de como os melhores times do mundo, como o Ajax, jogavam. Ainda estou para saber ao certo como os sheiks foram convencidos, e por quem o foram, das competências técnicas desse pessoal, mas eles não tinham empregos com salários tão altos no Brasil, não eram conhecidos ou tinham sido jogadores de futebol obscuros ou não tão habilidosos. Eram tão-somente raçudos. Aqui e acolá havia exceções. Sabe-se que a FIFA adotou políticas de expansão de seu poder com alianças até hoje pouco ou nada investigadas pela INTERPOL – até porque as pessoas têm amor à sua vida e a de seus familiares e amigos. Mas o presidente era brasileiro e dava uma forcinha para que os seus recentes parceiros políticos, chamados de “novos membros da FIFA”, conseguissem “ótimos profissionais” do País Tri-Campeão Mundial. Eles mais pareciam pecinhas num tabuleiro de WAR. Esses países não eram lá muito abertos cultural e nem economicamente às potências Ocidentais, e muitos deles eram candidatos a se tornarem paraíso do comércio internacional de armas de fogo. O futebol era o novo bibelô das conservadoras elites políticas locais, e seus profissionais eram como Mozart e Bach, músicos empregados das cortes para diverti-las. Mozart morreu pobre porque, dentre outras coisas, não queria ser repetidor, mas sim compositor reconhecido por suas composições. Era cheio de opiniões…

E pra lá, “as arábias”, muitos foram, ganhando petrodólares em época de inflação galopante no Brasil. Suas famílias os acompanharam na difícil missão de se adaptar em lugares de hábitos tão distintos dos nossos. Muitos ficaram pelo meio do caminho, e não há dinheiro que pague as condições afetivas das pessoas quando se chega ao limite. Alguns continuaram e por isso são tidos como “os resistentes” em seu grupo, aqueles que “sobreviveram”.

(Continua na próxima coluna)

Luiz Alberto Couceiro

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

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