Uma aula de Zê Carota (por Paulo-Roberto Andel)

(ou “Opinião não é verdade absoluta”)

Domingão de Carnaval e eu aqui lendo os jornais, sites e blogs, tentando repetir os tempos de criança. Meu pai dava a grana e dizia “Quinhentos de presunto, trezentos de queijo prato, dez pães, O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports e Folha de São Paulo”. Ufa! Eu já lia e escrevia, devorava quadrinhos mas a era do jornalão é que me fez um leitor de vez, até o passo definitivo para os livros. Agora você seleciona o que vai ler no smartphone. É legal também, mas a saudade existe e insiste no meu coração.

Me deparo com a coluna do camarada Zê Carota, craque das letras e dos cartuns com trocentas mil horas de voo no curriculum, que acabou de lançar o elogiado livro “Dropz” CLIQUE AQUI. . Zê publica aos domingos no Jornal GGN e, para o meu gosto, é leitura obrigatória. Embora escreva para um público infinitamente maior do que o do futebol – e não seja torcedor do Fluminense -, sobre temas também maiores, achei impressionante que sua coluna de hoje tivesse um trecho capaz de descrever – exatamente – o que se passa em boa parte da internet tricolor nowadays.

Eis o incrível encaixe:

“seja para aceitação social (ainda que virtual), seja por que prenhes das malditas melhores intenções, mas vítimas vocacionais do “vácuo de pensamento”, seja, mais comum, por fazerem de seus perfis no facebook um misto de caça-níqueis para o ego e tamborete para visibilidade de nano celebridade, o fato é que estas pautas mobilizam hordas de pessoas para um simulacro de debate – não querem debater nada, apenas validar seus argumentos sobre tudo –, divididas em dois grupos: um, o que apenas repete palavras de ordem, expressões e hashtags aprendidas de orelhada e compartilhadas por mimetização; o outro, dos caga-regras, que sempre têm opiniões formadas sobre tudo, as quais vomitam no máximo de perfis que lhes for possível, e sempre desprezando o fato de que opinião pessoal não é verdade absoluta ou lei…

ambos promovem o mesmo e lamentável estrago: banalizam pautas, discussões e expressões de, repetindo, vital importância, e com tal obtusidade violenta (em um post de duas linhas, são capazes de, nos comentários, escrever o Gênesis, e com a mesma fúria messiânica e doutrinária), que, mais das vezes, conseguem afastar até quem defende as pautas…”.

É impressionante como isso traduz perfeitamente o momento tricolor nas várias arquibancadas de concreto e virtuais. Em tempo e que fique claro: toda e qualquer manifestação pacífica de protesto é válida (já fui a muitas, como tricolor e cidadão), ainda mais num momento em que o futebol pátina (embora eu tenha fé de que as coisas possam melhorar mesmo). Agora, uma coisa é protestar e outra, que exige muito cuidado da torcida tricolor, é não se deixar servir de marionete nas mãos de quem vê no caos um mero trampolim político.

Zê Carota tirou a radiografia perfeita do caos internauta do Brasil (e, pensando bem, de outros países). Contudo, como a pauta de ódio está cada vez mais acirrada na terra pindorâmica, isso atinge a todos os setores e, claro, o futebol não fica intenso aos banhos de cólera. No caso tricolor, a gênese desse acirramento é bem clara – 2016, e as reações desproporcionais de intolerância acabam sendo movidas por meia dúzia que, no fim, só possui um único objetivo: o poder. Resumo: é justo renovar em 2019 mas, se for esse o caso, que seja com o realmente novo e não com marmitas requentadas.

A íntegra da coluna pode ser lida neste link: CLIQUE AQUI. Não é necessário concordar com o escritor, claramente um homem de esquerda, mas é preciso sempre se lembrar de uma questão universal muito bem lembrada por ele: opinião não é verdade absoluta ou lei.

Meu abraço ao Zê e o agradecimento por mais um texto brilhante, que até me tirou das férias momescas para passar por aqui. Agora é descer para comprar pão e leite, espiar o bloco que já passa com sua opulência em todos os sentidos e, por fim, também espiar a banca de jornais fechada. Pena que já não se fazem manhãs de domingo como antigamente.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#JuntosPeloFlu

Imagem: rap

4 Comments

  1. salve, salve, meu camarada e colega.
    acredito que sejamos da mesma geração, ou ao menos de gerações vizinhas de porta, aprendemos a importância da discordância, que é uma forma de aprendizado, só que por contraste; logo, aprende-se sempre, o que o dualismo que se alastra pelo país em todas as suas células, incluindo o futebol e sua importância cultural e política – tem anulado. valeu por compartilhar, e um abraço verde, que une meu Palmeiras ao teu Fluzão.

    1. Andel: abraço geral, meu camarada. Mais uma vez, meu muito obrigado. Numa das maiores partidas da história do Palmeiras eu estava lá: 4 a 1 sobre eles, no Maracanã 1979.

  2. Andel, não sei como você ainda tem paciência, mas parabéns. Você devia escrever os livros e não perder tempo com essas porcarias em torno do Fluminense. Esses babacas de internet fazem isso porque, se não fizerem, ninguém sabe de quem se tratam. ST

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