Lendas e mistérios sobre o tamanho das torcidas (por Paulo-Roberto Andel)

Algumas considerações sobre o tema, exaustivamente falado mas sem a profundidade necessária.

Primeiro, e é bom que se diga: não existe uma série histórica confiável que permita estimar o tamanho real das torcidas no futebol brasileiro. O motivo é simples: desde que se passou a levantar estatísticas a respeito, no começo dos anos 1990, os institutos foram useiros e vezeiros na troca de estruturas amostrais e critérios técnicos – em um deles, chegaram ao cúmulo de não entrevistar mulheres para não “contaminar os resultados” (é isso mesmo!). Sem estabilidade na série histórica, é impossível avaliar com precisão o aumento ou o decréscimo das torcidas de cada clube.

Segundo: as amostras nem sempre contém os mesmos clubes, geralmente se vinculando aos participantes da atual série A do campeonato brasileiro. Outra distorção evidente.

Terceiro: o aparente desprezo sobre a realidade histórica dos clubes de alcance nacional, regional e local. Na era do rádio, evidentemente os grandes clubes do Rio foram impulsionados por todo o país, um fator que ainda pesa até hoje na composição da população torcedora nacional. Já em fins dos anos 1980, com a incorporação definitiva da televisão aberta no futebol, a praça paulista é que foi impulsionada nos veículos de massa. Na terceira grande fase que se desenha, a da transmissão pela web, um novo impulsionamento acontecerá. É certo que muitos clubes brasileiros possuem torcedores fora de seus estados, mas sinceramente é preciso explicar como clubes de alcance nacional há décadas apresentam resultados parelhos aos de nítido alcance local.

Quarto: intervalo de confiança. Seja 2, 3 ou 5%, tal estimativa é absolutamente inconclusiva para qualquer planejamento que se faça de marketing, captação de sócios etc. Caso do Fluminense: se estimadamente possui dois milhões de torcedores (resultado aquém do esperado), com três pontos percentuais de margem poderia chegar a cinco milhões, uma diferença brutal.

Há um fator que inevitavelmente interfere nas medições, que é a posição dos clubes nas competições: conquistas, boas colocações etc. Há tempos, o Fluminense não tem conquistado títulos ou colocações expressivas; no entanto, é no mínimo de se estranhar que seu ranking médio não tenha se alterado no período entre 2007 e 2012, quando conquistou três títulos nacionais e um vice continental.

Por fim, ainda que o número de entrevistas seja tecnicamente suficiente para um levantamento desta natureza, fica a dúvida sobre o número de municípios participantes da amostra utilizada, sendo que o Brasil possui 5.570 municípios. Que critérios foram utilizados para a seleção? Esse é um fator crucial para se explicar os resultados obtidos. Como esse tipo de pesquisa interfere diretamente em discussões bilionárias do futebol brasileiro, seria muito importante que a CBF organizasse um seminário ou equivalente a respeito, com levantamentos feitos por vários institutos, baseados nos mesmos critérios amostrais, para que se pudesse chegar a conclusões com embasamento científico real. Até mesmo para os mais fanáticos atleticanos, sua torcida ter o dobro do tamanho da do Fluminense sugere uma viagem ao mundo da fantasia. Com todo respeito a Vitória, Fortaleza e Ceará, são times com torcidas locais.

Contudo, um único dado costuma ser unânime em todas as pesquisas realizadas, e no mínimo deveria preocupar a quem comanda o futebol brasileiro: o número de pessoas que não se interessa pelo esporte. Mais de 40 milhões de brasileiros.

Sinceramente, o melhor caminho para o Fluminense otimizar seu poder de decisão sobre assuntos ligados ao tamanho de sua torcida é encomendando um estudo próprio. Ainda que em tempos de penúria financeira, trata-se de um investimento que trará retorno positivo e reduzirá o evidente número de incongruências que todos temos visto sempre que uma nova pesquisa é publicada envolvendo o Tricolor.

Paulo-Roberto Andel é bacharel em Estatística pela UERJ, 1994. Por 26 anos, atuou como estatístico de índices econômicos, pesquisas e amostragens no setor de Construção Civil, também auxiliando diversos estudos publicados pela Firjan e CNI.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @pauloandel

#credibilidade

4 Comments

  1. Você chegou a estudar na ENCE? Somos praticamente contemporâneos. Cursei a ENCE de 86 a 88 (técnico), 89/91 (graduação), depois fugi de lá e fui para UERJ.

  2. Andel, no dia seguinte à derrota frente ao Avaí fui com meu filho a cidade de Campos, Norte do estado. Meu filho, Lucas, trajava a camisa tricolor, e num shopping, no elevador com 7 pessoas, 4 eram tricolores e por muitos pontos da cidade, vendo a camisa do Lucas, muitos lamentaram a fase atual da equipe…temos + torcida do que diz essa pesquisa…

  3. Há sempre um elemento obscuro, mas, ao meu ver, fundamental nessas pesquisas : a definição do que é um torcedor.

    Porque pra mim há uma enorme diferença entre uma pessoa que se diz torcedora só da boca pra fora (e aí, ser flamenguista ou corintiano é algo muito mais “da moda” por toda a mídia favorável que eles têm) e aquela que literalmente consome produtos do clube.

    O primeiro tipo só serve pra engrossar estatística. O segundo, sim, é o que realmente importa.

    ST

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