Jogo de sonhos (por Ernesto Xavier)

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Já vi crianças que tinham convicção do que fariam quando crescessem. Diziam “serei bombeiro”, “médico”, “astronauta”… No meu caso dizia desde os 9 anos: “Vou ser jornalista”. Lia todos os dias o jornal que chegava em minha casa, via noticiários, debatia assuntos em casa. Não foi uma surpresa aos 21 anos receber o diploma na profissão que almejei desde tão cedo. Meus pais já imaginavam aquilo, meus avós também. Aos poucos tive a noção da importância da escolha que tive. Eu poderia ser o porta-voz do cotidiano, o formador de opinião, o divulgador das boas e más notícias, indicando o clima que a vida das pessoas tomaria naquele momento.

Com o tempo cada um entende a sua função no mundo. Uns nasceram para fazer os outros rirem, outros salvam vidas, alguns conectam pessoas, tem gente que auxilia no bem-estar mental ou então da alma. Já vi gente com vocação para dar prazer: cozinham, massageiam, iludem…depende. Todos possuem um meio de mudar o mundo e as pessoas, mesmo que não saibam de que forma. Apenas fazem.

Naqueles jornais que eu corria cedo para pegar na porta de casa e ler avidamente, eu via os profissionais que tanto me influenciavam. De acordo com suas atitudes eu poderia ficar eufórico, triste, irritado, melancólico, esperançoso. Eles eram (e são) moderadores do meu humor.

Jogadores de futebol, com suas habilidades, humores e circunstâncias, conseguem mudar o meu dia-a-dia. Uma derrota no domingo me faz cabisbaixo na segunda. Não é assim com muita gente?

Será que os meninos que despontam nos times profissionais das grandes equipes tem noção da importância delas na vida das pessoas? O que antes era apenas uma diversão, uma forma de explorar a habilidade nata, acaba virando um item de importância extrema na vida de muita gente.

Experimente perder um gol feito e decisivo aos 45 do segundo tempo. Ouse perder três partidas seguidas e habitar a zona de rebaixamento. Vislumbre defender um pênalti que dará um título há tantos anos desejado por sua equipe. Essas e muitas outras situações entram na rotina do brasileiro com a força de um furacão. Não é à toa que o regime militar usava a Seleção Brasileira como propaganda política. Uma equipe tão boa como a de 1970 fazia com que o povo acreditasse em dias melhores e entrasse em um clima de euforia que apenas a vida cotidiana não traria.

Jogadores que conseguiram entender a sua posição na sociedade conseguiram alcançar popularidade mais alta. Sabiam que deviam dar atenção ao público, que deveriam se esforçar sobremaneira quando não estavam nos melhores dias, que entendiam a indignação dos fãs com os maus resultados, que jogavam não só por eles, mas pela torcida, que entravam em campo como se fosse para a última partida de suas vidas.

Esta sensação não abate um atleta de badminton. Não atormenta um competidor de lacrosse. Outras questões influenciam estas pessoas. O poder que o futebol tem em nossas vidas é diferente de qualquer outro esporte. Nós, mesmo que secretamente, sabemos disso.

O segredo para times vitoriosos, muitas vezes, está em compreender o espírito dos seus seguidores. O poder e importância que tem sobre eles. Entender e agir de acordo com estes anseios faz parte da profissão. Não basta ter habilidade, bom preparo físico e entendimento tático. Ser jogador de futebol transcende as questões palpáveis do campo. O atleta de vocação compreende isso e supera as próprias limitações em prol daqueles que o admiram.

Futebol é mais do que um esporte. É a fonte de alegria e desejo de milhões de pessoas. Resta saber se eles entendem isso. Compreender sua função e importância no mundo te dá um sentido, te faz saber em que direção seguir. Então, seja quem você se propôs a ser.

Apenas seja.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @nestoxavier

Imagem: pra

o fluminense que eu vivi tour outubro 2015

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