Jogo de ilusão (por Ernesto Xavier)

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Escolhi viver da ilusão. O garoto que passava o estreito corredor do Maracanã até que visse o gigantesco gramado e as arquibancadas no seu entorno fez essa escolha sem saber. Para ele tudo era realidade. Os heróis estavam no gramado em batalha. Os súditos éramos nós, levados pela emoção e com a crença de que era por nós que lutavam. Em meus sonhos eles faziam aquilo por amor. O mesmo que levava a me deslocar mais de 70 km só para vê-los. Eu era um súdito iludido. Eu sou um súdito iludido. Minha escolha é eterna.

Crescer nos tira da ignorância, ao menos no meu caso. Saber a verdade pode minar o amor. Passamos a enxergar defeitos onde antes só era visto virtude. Máscaras se desfazem em pó, deixando expostos os rostos de profundo sarcasmo e ambição. Saber a verdade pode tirar a graça, extirpar a emoção, ruir a confiança.

Meus ídolos sempre trajaram verde, branco e grená. Procuro ficar na ignorância, que minha vida adulta teima em atrapalhar. Quero mantê-los no mesmo pedestal que os elevei em minhas ilusões juvenis.

A ilusão serve para manter vivo o sentimento que me move. Sem ela tudo pode acabar. A emoção de ver milhares de pessoas compartilhando dor, euforia, êxtase, paixão, agonia. A essência da espécie humana se dilata nos estádios. O sentimento é genuíno, mas sobrevive para quem fecha os olhos. Os que se deixam levar pela politicagem feroz, pelos desejos mesquinhos de dirigentes, pelo ego vil dos boleiros, pela sujeira que brota de todos os lados, esquecerão o motivo que um dia os levou a escolher (ou ser escolhido por) um clube de coração.

Esta foi uma escolha pessoal. Por isso ainda estou aqui. Entendo quem lida com isso de forma diferente. A indignação bate de formas variadas em cada um.

Jogadores se unem para barrar técnicos. Dirigentes e conselheiros se digladiam pelo poder, não por amor ao clube, mas por interesses próprios. Alianças suspeitas surgem aqui e ali. Empresários mandam mais do que a comissão técnica. Jogadores amam apenas o próprio salário. Não existem atletas, apenas boleiros. Resultados são manipulados, árbitros são subornados, patrocinadores lavam dinheiro às custas dos clubes… A realidade é essa.

Um gol salvador nos acréscimos. Título comemorado com vitória em cima do maior rival. Nosso goleiro defendendo um pênalti. Estádio lotado e festa com pó-de-arroz nas arquibancadas. Liderança do campeonato. Bola na trave. Grito de gol. Bola por debaixo das pernas. Chapéu. Gol de bicicleta, de voleio, de canela, passe de calcanhar… Essa é a ilusão que luto todos os dias para manter viva.

Cada dia fica mais difícil acreditar.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri @nestoxavier

Imagem: google

o fluminense que eu vivi garotinho tricolor

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