Idolatria tricolor (por Aloísio Senra)

Aloisio Senra

Tricolores de sangue grená, os últimos dias me chamaram à reflexão sobre a importância dos ídolos no futebol e, no meu caso, especificamente no Fluminense. A maioria dos torcedores não foi atraído simplesmente pelas cores ou pela história do clube (alguns nem a conhecem direito), mas por algum jogador que, à época de formação de identidade futebolística, chamou-lhe a atenção, seja com gols decisivos, seja com defesas fantásticas ou com garra acima do normal.

De acordo com o dicionário, a palavra “ídolo” possui dois significados principais – “imagem que representa uma divindade e que se adora como se fosse a própria divindade” e “pessoa ou coisa intensamente admirada, que é objeto de veneração”. No futebol, temos um amálgama destas duas definições, já que há um quê de divino em cada ídolo, e o mesmo é uma pessoa intensamente admirada, que é encarado como um escudo de carne histórico de nosso clube do coração.

Como algo “divino”, o ídolo, assim como a religião, é algo extremamente pessoal. Muitos pensam no Rivellino como ídolo pelo que fez no Fluminense. Outros, nem tanto, por sua identificação com o Corinthians. Quem está certo? Ninguém e todos, é claro. Bem como na questão da admiração. Não há como haver consenso, pois ninguém é adorado por todos, mesmo dentro de um mesmo “grupo de interesses”. Nem todos os roqueiros que apreciam Heavy Metal gostam de uma determinada banda desse gênero musical, por exemplo. Ninguém é unanimidade.

O problema é que nós, humanos, tendemos a idealizar tudo, desde o “eidos” de Platão até a noção moderna do amor romântico perfeito. E, quando a realidade nos mostra suas garras, nos desapontamos e nos desiludimos por não termos de nossos ídolos exatamente o que queremos. Aí fulano vira mercenário, sicrano é chinelinho, beltrano é desagregador e gosta da “night”. Eles já eram pessoas imperfeitas antes de brilharem com a camisa do nosso clube, e continuarão sendo. Continuarão a cometer erros e seguir os traços da personalidade que possuem – como nós, reles mortais torcedores, fazemos.

O panteão dos verdadeiros ídolos é pessoal. O clube pode reconhecer o valor de um punhado deles e colocá-los em um local especial para que sejam admirados, sejam com os nomes em uma parede ou em um busto nas imediações da sede, mas isso não significa que aqueles que ali estejam sejam um cômputo finito de todos os que merecem a veneração de um ídolo. Ézio é um ídolo pessoal meu. Quando ele faleceu, eu chorei. Somente naquele momento eu percebi o quanto ele foi importante na formação do meu caráter tricolor. Ele não possui um busto nas Laranjeiras, tampouco lembro do nome dele na “parede de craques”, mas isso não lhe retira a condição divina que ele sempre terá em minha alma.

Contudo, não conheci o Ézio pessoalmente. Se eu soubesse de alguma coisa que penalizasse o seu caráter, principalmente se fosse algo em relação ao Fluminense, provavelmente a idolatria seria abalada. E é por isso que só é possível idolatrar alguém de verdade sem conhecer a pessoa profundamente, pois idolatria requer idealização, superficialidade, transformar o indivíduo de carne e osso em algo imaterial, que se confunda com a própria pefeição na área de atuação do mesmo – no nosso caso, o futebol. Se Ézio nunca tivesse jogado no Fluminense, ele não seria ídolo da nossa torcida. O fator condicionante é o que importa.

Se tivermos plena noção de que, ao idolatrar um jogador, estamos de fato idolatrando nosso próprio clube, que é uma instituição abstrata, imaterial, e que só existe, de fato, no mundo das ideias, tudo se justifica. Ninguém venera o concreto da sede. Ninguém idolatra a camisa pelo material do qual ela é feita. Se a sede não for a casa do Fluminense e a camisa não possuir as três cores que traduzem tradição e seu garboso escudo, ninguém há de se importar. No fundo, a idolatria é pelo Fluminense, e por mais ninguém. Ídolos vêm e vão, mas o Tricolor permanece.

Não me causa espanto, portanto, que ele tenha a vocação para a eternidade, sendo a melhor ideia que um ser humano já teve. Nelson sabia mesmo das coisas.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: asen

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