Gustavo Stadium (por João Leonardo Medeiros)

João Leonardo

Olhe bem para o meio de campo do Fluminense. Olhe com atenção. Aquele negão recém-saído da infância, alto, forte, habilidoso e promissor, chama-se Centro de Treinamento dos profissionais, também conhecido como CT. Esse já foi, precocemente, e em breve, tenho certeza, brilhará intensamente na Europa. Não quero falar dele, porque dói saber que não o teremos sequer até o fim do ano, mas alivia a dor entender que foram os recursos com sua transferência que folgaram as contas e permitiram tocar em ritmo acelerado a construção do CT. Gerson foi o condicionante, Pedro Antônio o determinante.

Agora, olhe aquele garoto magrelo, que leva a palavra meio-campo a sério, porque aparece ali como uma média estatística, oscilando entre a defesa, onde contribui muito, e o ataque, onde tem sido decisivo. O magrelo alto que, ao contrário de Sansão, vem perdendo os cabelos, mas ganhando força, atende pelo nome de futuro Estádio do Fluminense. Seu nome é Gustavo, mas pode chamá-lo de Stadium.

Gostaríamos todos, talvez até ele, que o desfecho fosse outro. Ou seja, que a maturidade, o ápice da carreira, fosse atingida no próprio Fluminense. Creio que com mais dois ou três anos sob comando de um treinador que saiba lapidá-lo, Gustavo Stadium alcançará um patamar usualmente classificado por um qualificativo simples: craque. Todos os requisitos já estão contidos no rapaz, habilidade, força, poder de decisão, vontade de vencer, paciência para aprimorar deficiências, inteligência. Faltam tempo e orientação para transformar potências em efetividades, como diria Aristóteles, mas o processo parece estar em curso.

Infelizmente, o clube não dispõe desse tempo. O Fluminense passou tempo demais sem investir em sua estrutura. Atravessamos toda a década de 1970 sem qualquer investimento. No início da década de 1980, o presidente Sylvio Kelly conseguiu o terreno em que seria construído o hoje afamado centro de treinamento da base, em Xerém. Cobraram mais duas décadas e meia até que a estrutura do centro de treinamento da base alcançasse o padrão de excelência próprio do clube, livrando-se da cultura do improviso – tão arraigada no futebol de nosso estado.

Xerém avançou muito, mas, por outro lado, perdemos o Estádio das Laranjeiras, por uma série de razões, e não conseguimos dotar o futebol profissional de condições realmente adequadas de funcionamento, no padrão-Flu de qualidade – ou seja, o topo.

É por isso que Gustavo deve ser visto como Stadium. Em outras condições, veríamos no rapaz uma mistura de Deley com Assis, dificílima de ser produzida. Para usar um exemplo externo, Gustavo lembra Rivaldo: magrelo, habilidoso, canhoto, com chute potente. Nas condições atuais, contudo, Gustavo não representa Deley + Assis ou Rivaldo, mas uma excelente venda, com o real desvalorizado, que deve render ao clube a grana suficiente para (ao menos) dar início ao projeto de construção de sua nova casa.

Não sabemos se será nas Laranjeiras mesmo, se aproveitará uma estrutura já existente (por exemplo, a do América) ou se partirá do zero em outro lugar. O certo é que os recursos vão aparecer tão logo Gustavo assine contrato com uma das equipes ricaças da Europa. Também é certo que o clube fará o investimento, porque a construção do CT nem acabou e já está deixando os tricolores com gosto de quero mais.

A má notícia é que Gustavo vai embora. A boa é que ainda não foi e tem jogado melhor a cada dia. São muitos os talentos do rapaz e podemos desfrutar deles por algum tempo. Por exemplo, não lembro a última vez que vi um jogador criado na base do clube bater faltas tão bem, tanto aquelas que resultam em gol diretamente quanto aquelas que vão para a cabeça de alguém e dali para o gol. Até fora de campo o rapaz impressiona. Quem viu ele falando inglês na Florida Cup? O garoto parece ter nascido em berço de ouro, parece ter sido educado numa daquelas escolas bilíngues frequentadas por ricaços. Ao que eu saiba, o inglês de Scarpa vem dos cursos em Xerém, o que mostra duas coisas: a excelência de nossa base e a capacidade intelectual do rapaz.

O dia virá em que teremos Xerém, o CT da base a todo vapor e o estádio. Ao longo do processo, teremos muita dificuldade de reter por mais tempo os novos Gustavos. Mas também o investimento começará a dar frutos, muitos no campo, outros no caixa. Quem viveu a década de 1990 e viu o clube arrasado em todos os sentidos não pode conter a emoção de perceber que a grandeza está sendo totalmente recobrada, com o sacrifício de muitos. Mas é preciso paciência ainda. Hoje, o lema tem de ser: quando for o Stadium, que seja por uma boa razão. E que fiquem outros tantos.

Panorama tricolor

@PanoramaTri

Imagem: JLM / PRA

4 Comments

  1. Gerson CT e Gustavo stadium são apenas mais dois miúdos que a nossa fábrica insiste em nos presentear e a cada dia mais forte, o próximo será o Douglas CT II e por aí vai. Talvez o grande mérito da gestão Peter, tenha nome de xerém, com o resgate via estrutura e escolhas certas nos profissionais que lá se encontram a lapidar nossas jóias, que a próxima gestão o mantenha e que a aprimore, para que novos stadium e CTS surjam como troféus e recursos ao nosso imenso e amado tricolor.

    ST

  2. Precisava ser justo em dizer os nomes de Fernando Simone e principalmente de Marcelo Teixeira aquele mesmo que viu o Lanzini hoje valorizado West Ham e que faz p mim o melhor trabalho de um profissional na categoria de base de qualquer clube e talvez na história. Nunca a captação de jogadores p nossa base fora tão forte como hoje e que assim permaneça.

  3. Chegaremos ao momento de escolher, quando e quem será vendido, infelizmente não é agora ainda.

    Vejo o Scarpa como o Neném (guardadas as devidas proporções claro), pela habilidade, pela facilidade de jogar e pela multiplicação em campo.

    Continuando assim, se jogar mais 1 temporada pelo Flu, chega na seleção (se o Dunga sair claro).

    ST

  4. Meus queridos Rodrigo e Carlos,

    em primeiro lugar, obrigado pela leitura e pelos comentários. Quanto aos frutos de Xerém, sem dúvidas se trata de um grande legado da gestão Peter. Não é exagero reconhecer hoje que Xerém nos salvou.

    Vem que tem,
    João

Comments are closed.