Glória a Deus! (por Zeh Augusto Catalano)

A benção, João de Deus!

Durante a minha adolescência, eu vi e ouvi, do outro lado do estádio, a torcida do Fluminense cantar essa musiquinha em homenagem a São João Paulo II enquanto triturava sistematicamente o Vasco. Anos e anos de derrotas. Eu, católico, odiava aquilo. Parecia que realmente Deus ajudava a partir daquela espécie de oração coletiva. E que não ajudava o meu time, de origem católica, com capela de Nossa Senhora das Vitórias dentro do clube.

E olha que a gente recorria ao querido Pai Santana, que fazia trabalhos e despachos. Sabiam que trabalhou no Fluminense? Pois é.

Não adiantava nada. A macumba não ganhava jogo. O catolicismo também não.

Vi e vivi grandes vitórias e as piores derrotas no Maracanã. Elas só serviram pra reforçar uma opinião muito pessoal: eu não rezo por futebol. Nunca rezei. Nem nos momentos mais desesperados. Nem nos pênaltis de 1994 contra a Itália. Por um motivo muito simples: futebol pra mim é diversão. Cheio de gente passando fome, morando nas ruas, com doenças, passando por verdadeiras provações e eu vou encher o saco de Deus pra que ele ajude meu time a ganhar um jogo de futebol? Não.

Por isso tenho verdadeiro horror a essa moda (Sim! É moda!) de glorificar a Jesus quando acontece alguma vitória, gol, pênalti, defesa importante etc. Acaba o jogo, vitória, entrevista:

– Glória a Jesus! Ele nos honrou com essa vitória! Tudo em nome de Jesus.

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Do outro lado, o craque do time derrotado deveria dizer algo como:

– Tá faltando louvar o Senhor. Nosso time é muito pecador. Treinamos muito, mas enquanto não orarmos mais, a gente não terá sucesso. A torcida veio apoiar, mas não adianta só gritar o nome do time. É preciso invocar o Senhor para que nos ajude a vencer as batalhas.

Claro que não vamos ouvir algo parecido. Como não ouvimos ninguém citar o nome de Deus quando o time perde. Atribuir à vontade de Deus a derrota. O deus (com letra minúscula) dos campos de futebol é um deus vencedor. É um deus que só abençoa um dos times. O que ganha. Quando ganha. Porque quando das derrotas, esse deus some das declarações mesmo dos mais “ungidos”.

Some também durante as partidas. A religião não tem nenhuma conexão com o comportamento dentro de campo. Alguns dos elementos mais sujos que vi na minha vida de futebol eram declaradamente religiosos.

O fundamental é ter em mente que se religião ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado e muitas Igrejas já teriam seus times pra bater nos nossos times hereges.

Jeremias não bate córner. Jesus tampouco.

Se o sujeito for profissional, honesto, se mantiver em forma, treinar com dedicação, eu acredito piamente que os céus o ajudarão. E ao time em que ele joga.

Como eu li num espelho de um elevador: não adianta nada fazer yoga e não dar bom dia para o porteiro.

Nenhuma manifestação conhecida de Deus ensina a bater pênalti, por exemplo. Mas milagrosamente, se você treinar, treinar, treinar e se esforçar, certamente vai alcançar a glória. Ou pelo menos terá a consciência tranquila de que fez a sua parte.

Amém.

Panorama Tricolor

@PanoramaTri

Imagem: zecatal

CAPA O FLUMINENSE QUE EU VIVI AUTÓGRAFOS

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